quinta-feira, 13 de maio de 2021

Na Fila para a Arca

 


Na Fila para a Arca, o mais recente livro da Kalandraka, traz a assinatura da dupla grega vencedora do IX Prémio Internacional Compostela para Álbuns Ilustrados. Antonis Papatheodoulou e Iris Samartzi são os autores de Uma Última Carta, uma emotiva e tocante homenagem à figura do carteiro, de que falámos aqui.

































Desta feita, os autores trazem-nos uma história divertida, povoada de animais e de muito humor.   Tudo começa com um casal de ratinhos enamorados, os últimos a chegar a uma fila que conta já com uns bons metros.  Há quem chegue a duvidar se está na fila certa, mas as conversas de todos os que ali aguardam dizem-nos que estamos na fila para a Arca de Noé. 


A cada dupla página um novo par de animais vai falando sobre a história da Arca, da sua construção, do dilúvio, de Noé... À medida que os vão ouvindo,  os ratinhos parecem ir ficando cada vez mais incrédulos, manifestando as reacções mais diversas ao longo do livro. Elefantes, macacos, tartarugas, pelicanos, hipopótamos... todos se revelam profundos conhecedores e têm algo para contar. Mesmo quando há quem não queira ouvir. Há sempre que prefira não saber a história toda...


Depois de tanto ouvir falar em dilúvio, é compreensível que a angústia dos pequenos ratos aumente quando caem as primeiras gotas de chuva... Uma história bem divertida, que vive da duplicidade entre a história da Arca de Noé e o verdadeiro contexto que origina esta fila. Um final hilariante revela-nos que tudo não passou de um equívoco. E encantará, seguramente, os pequenos leitores, que vão querer permanecer na fila e conviver muitas vezes com os animais desta parada. 

Samartzi, que já nos tinha encantado com o anterior livro, volta a utilizar a técnica da colagem conseguindo um trabalho extraordinário. A parafernália de cartões, papéis e botões, a apelativa paleta de cores, o próprio formato e o magnífico desdobrável que surge no fim, cativarão todos os pequenos leitores para este "livro-espectáculo". Vamos ao teatro?

sexta-feira, 7 de maio de 2021

O Jaime no Casamento


 





















Depois do êxito de O Jaime é Uma Sereia, Jessica Love volta a encantar os leitores, trazendo de novo para a ribalta o já conhecido protagonista. Pela mão da editora Fábula, chegou recentemente a Portugal O Jaime no Casamento.


O título não deixa dúvidas. O Jaime vai a um casamento. Com a avó, claro. A história começa logo nas guardas quando os vemos trajados a rigor para o evento. Pelo caminho, a avó encontra uma velha amiga acompanhada da sua neta, a pequena e encantadora Marisol. As apresentações são feitas ao leitor enquanto se dão os últimos retoques para a chegada ao casamento. Jaime coloca uma flor na lapela, Marisol troca o seu boné por uma coroa de flores.


Esta é uma narrativa predominantemente visual, pintada com cores tão delicadas quanto vibrantes que fazem o leitor ter uma imensa vontade de ser convidado para a festa. As apresentações continuam na página seguinte, onde ficamos a conhecer as noivas e a sua cadelinha, a Glória. Apresentações feitas, pode começar a festa! Porque é disso que se trata. Como diz Love, o casamento é uma festa de amorE esta está maravilhosamente organizada. Ao ar livre, com a Estátua da Liberdade em fundo, tudo aparenta uma extrema simplicidade e beleza. 


Fazendo jus à sua condição de crianças, Jaime e Marisol soltam-se nas brincadeiras escolhendo como cenário um salgueiro-chorão a que Jaime chama de "casa de fadas". Glória já se tornou inseparável e é graças a ela que o lindo vestido de Marisol acaba num lamentável estado de sujidade. O que poderia constituir uma grande complicação, acabou sendo resolvido por Jaime com uma grande e hilariante dose de criatividade. Ainda assim, Marisol teme pela reacção da avó. O que não sucede com os leitores, talvez por  já conhecerem as mulheres maravilhosas que são as avós criadas por Love. Quando os netos ganham asas para voar, tudo acaba bem...



















Uma história que é uma ode ao amor, à liberdade, à individualidade e à diversidade. Narrada com a mestria e a subtileza a que Love já nos habituou, são as imagens que revelam ao leitor os pequenos grandes detalhes da narrativa. O boné de Marisol, a coroa de flores que acaba na cabeça de Jaime,  os olhares e as expressões sábias das avós perante as traquinices das crianças, a liberdade que lhes é concedida. 



E, por falar em liberdade, continuamos a pensar o quanto gostaríamos de nos descalçar como estas avós e dançar com elas até de madrugada. Mesmo que o Jaime, a Marisol e a Glória já durmam nas guardas do livro.


terça-feira, 4 de maio de 2021

Coragem, Pequeno Caranguejo

 















Chris Haughton está de volta com mais um livro para deleitar os pequenos leitores e encantar todos os outros à sua volta. Desta vez, o estrelato incide sobre um pequeno caranguejo que vive numa poça minúscula e que se prepara para a sua primeira incursão no mar. Sabemos que estas coisas de primeiras visitas são sempre rodeadas de grande entusiasmo e agitação. O Pequeno Caranguejo não foge à regra e sai da sua poça absolutamente convicto de que a ida ao mar vai ser espectacular.













Entre vários tica-tica nas rochas, chape chape nas poçaschlop chlop nas algas, o caminho faz-se com alegria e muita confiança. Mas a chegada ao destino reserva algo de inesperado para o Pequeno Caranguejo, a imensidão do mar. As ondas são de um tamanho de fazer inveja a qualquer surfista e de abalar a confiança de qualquer pequeno caranguejo. Daí até a pôr em causa o seu gosto pelo mar e expressar o desejo de voltar para casa vai pouco mais de um salpico.


















Mas o Grande Caranguejo não o deixa fraquejar. Incentiva-o a ser corajoso, ousado e... SPLAAASH! O Pequeno Caranguejo já lá está e nem se lembra mais do medo que que sentiu. Os amigos, as corridas no fundo do mar,  o jogo das escondias, as algas deliciosas que come... são magníficas compensações da coragem e determinação de que foi capaz.




















Difícil vai ser tirá-lo de lá e convencê-lo a voltar a casa. Nada que não seja habitual com a pequenada. É por isso que vos dizemos que já somos fãs deste Pequeno Caranguejo!

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Uma Mãe É Como Uma Casa























Uma mãe é como uma casa, uma mãe é como um ninho, uma mãe é como um abrigo... Esta é uma magnífica e poderosa homenagem às mães. 
A poucos dias de celebrarmos o Dia da Mãe, a Bruaá editora presenteia-nos com o livro Uma Mãe é Como Uma Casa da autoria da francesa  Aurore Petit, que muitos conhecem por ter ilustrado O Piolho Sabe Que, editado entre nós pela Orfeu Negro.








































De forma poética e com uma cadência ritmada, Petit mostra-nos a força dos laços que se vão criando entre a mãe e o bebé desde o nascimento até aos primeiros passos. O leitor observa, experienciando ele próprio diversas emoções, o dia a dia desse crescimento e os diversos papéis que a mãe desempenha na vida da criança. 








































A cada página corresponde um pequeno texto elucidativo do que a mãe pode representar para o bebé nas diversas etapas do seu crescimento. Com uma paleta de cores fortes e quentes, as ilustrações transmitem fielmente a realidade da casa e a parafernália de objectos que caracterizam o ambiente em torno da criança. O leitor consegue sentir o amor, o cuidado e a segurança com que as aprendizagens do pequeno se desenvolvem. Para isso muito contribui a opção de Petit de ter o pai sempre por perto, como parte do projecto familiar que, diariamente, se vai arquitectando. Ainda que esta seja uma maravilhosa celebração da maternidade.
 

 
 
 



































Com elegância e subtileza, a autora faz com que os leitores se revejam nestas páginas que retratam desde os momentos mais íntimos entre mãe e filho até às rotinas diárias de qualquer família. 
A mãe ninho, a mãe abrigo, é também mãe melodia, mãe ilha, mãe árvore, mãe história... como será mãe estrada e mãe motor na caminhada da vida deste ser pequeno e frágil que se vai  fortalecendo enquanto gente. 







































Este é um livro que nos traz memórias e onde todos nos demoramos mais numas páginas do que noutras. Revivendo momentos, emocionando-nos, rindo... Visitem-no, mães! Afinal, nada acaba no momento em que se dá os primeiros passos. A casa é para toda a vida. Viva a Mãe!

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Se Algum Dia Vieres À Terra




Amanhã comemora-se o Dia Mundial da Terra e não vemos melhor forma de o celebrar do que partilhar aqui esta extraordinária viagem pelo nosso planeta. Se Algum Dia Vieres à Terra tem a assinatura de Sophie Blackall, a consagrada autora de Olá Farol. A ideia do livro terá surgido no cume de uma montanha dos Himalaias no Butão, numa altura em que Blackall trabalhava com a organização Save the Children e foi ganhando forma ao longo dos anos através dos contactos que manteve com milhares de crianças de todo o mundo.










Tudo começa no quarto de um rapaz que decide apresentar a Terra a um visitante de outro planeta. Quinn, assim se chama o extraordinário guia, faz uma espécie de guião escrito e ilustrado sobre tudo o que ele precisa saber, caso decida visitar-nos. Com a simplicidade dos olhos de uma criança, leva o seu hipotético visitante e os leitores numa magnífica travessia pelo planeta, não deixando nada ao acaso. O traço incrível e inconfundível de Blackall e a encantadora paleta de cores que escolhe para preencher as duplas páginas transformam o livro numa deliciosa viagem para leitores de todas as idades.
























A Terra, a sua localização no espaço sideral, topografia e geografia, os meios de transporte, as pessoas e a sua diversidade, os vários tipos de famílias, hábitos, alimentação, roupas, língua,  culturas, profissões, hobbies, escola e aprendizagens, desigualdades... Tudo é apresentado e descrito através de uma multiplicidade de pormenores, onde não falta esse delicioso apontamento intertextual que é ver Quinn, nos seus tempos livres, a ler um livro sobre o planeta, o não menos fantástico Aqui Estamos Nós, de Oliver Jeffers.


























A natureza, as estações do ano, a fauna, a flora, as doenças, as guerras...  Tudo é abordado de forma a elucidar o suposto visitante sobre o nosso planeta, sobre quem somos e como vivemos.


No final, Blackall escreve: Nós, os seres humanos, definimo-nos através do sítio onde nascemos, onde vivemos, daquilo em que acreditamos, das roupas que vestimos e das línguas que falamos. Mas não existe uma pessoa “típica”. Somos todos diferentes. No entanto, há algo que todos compartilhamos – o planeta em que vivemos. (...) Este mundo que contém toda a nossa comida, toda a nossa água, toda a arte, livros e música, e todas as formigas e todos os espirros e vírgulas, todos os átomos de todas as coisas vivas e não vivas.






















O mesmo mundo onde, depois de abordar o tema da guerra, a autora invoca o cenário de uma biblioteca para relembrar que é bem melhor quando nos ajudamos uns aos outros. Um mundo onde a partilha e a solidariedade não são esquecidas.Onde o respeito pelo nosso planeta e pelos outros terão de ser coisas de todos os dias.

























Este é um livro para morar muito tempo. E voltar muitas vezes. Uma viagem que, seguramente, todos queremos fazer com as nossas crianças. 


quinta-feira, 15 de abril de 2021

Tímidos. Eles andam por aí.

 

















Não gostam de dar nas vistas. Raramente se chegam à frente e quase nunca os vemos de dedo ou mão no ar. Se pudessem, gastavam grande parte do seu tempo a escavar buracos para se enfiarem. Na impossibilidade de o fazerem, qualquer coisa serve. Debaixo da mesa ou da cama, à volta da saia da mãe ou, de preferência, no armário. São os tímidos, pois claro. Maurício, o pequeno polvo-panqueca que vemos na capa, preenche todos estes requisitos e muitos outros que poderíamos enumerar. É um tímido. Mas como diz a voz popular, timidez não é defeito é feitio.








Tímidos, recentemente editado pela Orfeu Negro, tem a assinatura da já nossa conhecida Simona Ciraolo. O Que Aconteceu à Minha Irmã, O Rosto da Avó e o incrível Quero Um Abraço são as obras da autora que já conhecemos. Com uma forte componente visual, este novo álbum relembra-nos, de alguma forma, o anterior Quero Um Abraço. Detectamos-lhe as mesmas delicadeza  e simplicidade que já nos tinham encantado. Maurício, o pequeno polvo-panqueca recorda-nos o solitário Filipe, o pequeno cacto.


Maurício é apresentado aos leitores nas primeiras páginas. Texto e imagens retratam a sua timidez em diversos contextos. Na sala de aula afunda-se na carteira, no recreio tenta passar despercebido...Tudo o que o pequeno polvo quer é que a sua presença não seja notada.  Serão muitas as crianças que se revêem neste comportamento e que se sentem, desde logo, suas amigas. Enquanto leitores, quase pedimos desculpa a Maurício. É impossível não lhe seguir os passos, não querer saber mais sobre ele.


A voz que conta a história alerta para não tirarmos conclusões precipitadas. Nem tudo o que parece é. Não, Maurício não é um "polvo chato"! Se o conseguíssemos ver quando ele pensa estar  sozinho... nem imaginam as coisas divertidas de que é capaz. Abram as páginas com cuidado para que ele não dê por vocês e... espreitem! Pois é, todos ficamos surpreendidos!



Para os tímidos, o convite para uma festa de aniversário de um dos seus pares  pode revelar-se uma tortura. Não é que não gostem de festas, mas há sempre tanta gente!! Apesar de todas as suas hesitações perante o convite, desta vez,  Maurício acaba por fazer um esforço. Afinal, podia ir mascarado! Foi lá que conheceu Lúcia, uma peixe-cofre tão tímida quanto ele. Nós ficamos felizes com o que antevemos ser o princípio de uma forte amizade. 

Ciraolo brinda-nos com um final surpreendente e divertido. Lúcia era afinal a nossa narradora. Se voltarmos  a ler história, concluímos facilmente que ela sempre  andou por lá. Que está em todas as páginas. Mas não esqueçam que também é uma tímida e fará tudo para que não reparem nela. Agarrem nos miúdos. Nos tímidos e nos outros e vão até lá. Conheçam o Maurício e a Lúcia ao mesmo tempo que admiram a magnífica diversidade da vida marinha.

 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Tudo Tão Grande. Canção cada vez maior


 






















Abre-se como uma partitura. A musicalidade das palavras e o encantamento das imagens surgem-nos como uma
 celebração da vida. Da sua imensidão. 
















As cores quentes e harmoniosas reforçam o movimento das paisagens que nos esperam a cada dupla página. Tudo é tão grande aqui. Também nós crescemos, ficamos cada vez maiores. Vivemos dias longos, tardes infinitas, avistamos montanhas imensas, rios que transbordam, luas cheias... 















O verão é comprido. As férias são grandes, o mergulho fundo... E a nossa vontade de percorrer este livro é enorme. Queremos respirar o ar livre, o espaço aberto e damos por nós a trautear esta canção. Porque este livro é para cantar. Já dançamos com os pássaros, o sol, o vento...




























Tudo Tão Grande, Canção cada vez maior,  com texto de Isabel Minhós Martins e ilustrações de Bernardo P. Carvalho é o último livro do Planeta Tangerina. Envolto num grande mistério, o do crescimento, deixa as perguntas para os seus destinatários mais directos.

Porque ficamos cada vez maiores? De onde virá a vontade de crescer?








"Estás tão crescido!". Depois de vários meses sem nos vermos, esta é a frase que mais proferimos quando reencontramos as nossas crianças. Este é um livro para visitarmos com elas. Passem uns dias por lá, a cantar! Não esqueçam a sugestão dos "Tangerinas"Inventa uma música para cantares este livro. Se quiserempodem enviá-la para a editora. Nós ainda não parámos de cantar. 

segunda-feira, 29 de março de 2021

Ser Pequeno na Cidade























Intenso, comovente, ambíguo e maravilhosamente desafiador. É assim Ser Pequeno na Cidade, do canadiano Sydney Smith, trazido para Portugal pela mão da Fábula. É a estreia de Smith como autor de texto e ilustração.  Mas, enquanto ilustrador, o seu trabalho  sempre deslumbrou quem o segue de perto. Os prémios recolhidos falam por si. Por cá, conhecemos  Flores Mágicas, editado pela Livros Horizonte. Fãs incondicionais, há muito que aguardávamos festejar uma nova visita. 

Ser Pequeno na Cidade é uma narrativa quase cinematográfica que nos prende logo na capa. O olhar enigmático  de uma criança para lá do vidro de uma janela de autocarro, os prédios em fundo,  as luzes vermelhas dos faróis dos carros, os pequenos flocos de neve e a aparente obviedade do  título chamam o leitor para o livro mesmo antes de o abrir. O estilo de Smith é indissociável do seu gosto pelas vinhetas, pelos quadros em que distende sequencialmente as suas histórias. Aqui e além, as ilustrações surgem-nos como manchas, relembrando-nos algumas obras impressionistas, sem nunca deixar de nos fornecer um retrato imponente e bem real da cidade. Os candeeiros, as passadeiras, os letreiros, os cabos eléctricos, as sombras... são múltiplos e desconcertantes os detalhes que o autor nos oferece. Um inicio silencioso e nostálgico, através de uma dupla página de observação da vida na cidade, deixa antever algum mistério. A acção parece começar com o gesto da criança ao levantar-se para sinalizar que sairá na paragem seguinte. 

                                                                                                                                                                        




















A saída do autocarro é feita para uma dupla página onde a cidade se agiganta. Pessoas, prédios de grandes dimensões, carros, gruas,  semáforos... compõem o cenário , algo intimidatório, onde chega a pequena criança carregando a sua mochila. Pela primeira vez, surgem algumas palavras. Ao leitor, soam reconfortantes: "Eu sei como é ser pequeno na cidade". Percorremos o caminho com a criança. Não lhe conhecemos nome, não sabemos se é rapaz ou rapariga. Devidamente equipada para o dia de inverno que enfrenta, apreendemos-lhe apenas a pequena estatura e o olhar profundo. Como leitores, a curiosidade é grande, as interrogações são muitas. De uma forma ou de outra, já todos vivenciamos esta experiência e sabemos como pode ser difícil ser pequeno na cidade. A solidão, o medo e o perigo parecem continuar a atravessar  o livro.  
























A neve  aumenta de intensidade, o entardecer avizinha-se. Só a voz o continua a acompanhar, redobrando agora os conselhos. Os becos podem ser bons atalhos. Mas não vás por este. É demasiado escuro. Neste quintal, três cães grandes... se eu fosse a ti... não passava nem perto. Há  muitos sítios onde te podes esconder

A esta altura, é legítimo ao leitor pensar que esta foi a forma encontrada pelo autor para que a criança não enfrentasse tudo sozinha, para que a travessia não fosse tão dura. Há um narrador que a acompanha, que a aconselha, que lhe diz por onde deve ou não deve ir, com quem pode e com quem não deve falar, que lhe indica os lugares mais seguros. 
























Apesar do barulho da cidade, um intenso silêncio parece envolver a criança e os leitores numa mesma teia. Paramos muitas vezes. Vislumbramos os perigos. Sentimo-nos igualmente inseguros. Tememos por aquela criança. A meio, paramos, confusos. Por que razão uma criança pedirá um peixe ou se esconderá no cimo de uma nogueira? Por que razão dormirá uma soneca junto ao vapor quente de uma lavandaria ou se aninhará no colo de alguém? Mas não queremos perder qualquer passo, qualquer gesto. Depois, chega o momento. Há uma espécie de magia na viragem da história. Não na história de Smith, mas na historia que o leitor foi construindo na sua cabeça. É aqui que percebemos que os conselhos não são para a criança, que não há o tal narrador que procurávamos desde o começo, que provavelmente vamos ter de percorrer este caminho uma e outra vez! Porque muita coisa nos terá escapado. Porque não procurámos o suficiente, não estávamos avisados. Este não é só um caminho feito de medos e inseguranças. É também um caminho feito de perda. Mas isso só Smith sabia. O que ele fez foi desafiar os leitores para um jogo de ambiguidade e subtileza. Nós aceitámos. Agora é a vossa vez!
























Com uma viragem tão inesperada quanto surpreendente e um final em aberto, este é um livro brilhantemente construído. Com alguns apontamentos a lembrar uma das confessas inspirações do autor, Edward Gorey. Mas também aqui e além, invocando esse outro grande livro Um Dia de Neve, do autor que dá o nome ao prémio com que foi galardoado, Ezra Jack Keats.  Pode não nevar nas nossas cidades, mas as ruas são igualmente feitas de perigos e incertezas.  Esta é uma caminhada que pequenos e grandes não podem perder.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Discórdia.


 























Discórdia, da autoria de Nani Brunini, é o nono livro da colecção Imagens que Contam, editada pela Pato Lógico. A  colecção nasceu, há cerca de oito anos,  como um espaço de liberdade criativa para artistas visuais, em que cada convidado é desafiado a imaginar uma narrativa contada exclusivamente através de imagens.











Brunini aceitou o desafio e o resultado é uma magnífica narrativa visual à volta de um tema que nos envolve a todos. Brasileira de nascimento, tendo vivido em vários lugares como São Francisco e Londres, a autora terá vivenciado de perto as divergências de opinião de amigos e familiares acerca de acontecimentos como a chegada de Trump e Bolsonaro ao poder ou o Brexit. Na vida, muitas vezes, as diferentes posições são elevadas a um extremo que conduzem ao corte de relações e a zangas intermináveis. Foi esse o ponto de partida para esta discórdia.























 

O que começa por ser uma opinião diferente de duas pessoas, vai-se transformando numa acesa celeuma. A cada lado das duplas páginas vão chegando novos partidários que contribuem para a gigantesca polémica. O pequeno formato das personagens dispostas no vazio branco das páginas, acentua ainda mais o enorme ruído que se vai gerando. Sem necessidade de palavras, ele chega ao leitor através da nuvem que se foi instalando, pintada com as duas cores da controvérsia. A cada virar de página, as posições surgem mais extremadas, sugerindo que chegámos a um ponto em que os argumentos da cada um já não são audíveis. Querem saber quem ganha e quem perde? Se há vencedores e vencidos? Abram o livro e ouçam o barulho ensurdecedor que por lá se faz.
 

























Não deixem de o fazer com as crianças porque este é um livro para todas as idades. Os temas que inspiraram a autora ( podem ver aqui a entrevista que deu ao blogue Letra Pequena) podem ser do mundo dos adultos, mas assistir a esta discórdia fará bem a leitores de todas as idades e tamanhos. Afinal, como diz o Pato, Discórdia é um livro para quem está cansado de gritaria. E não estamos todos?