segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Agente X.99. O inesgotável encantamento de ler Rodari


 











Volvidos mais de quarenta anos sobre a primeira publicação das histórias e aventuras pelo espaço deste Agente X.99,  elas continua a deliciar leitores de todas as idades. O que não espantará, se pensarmos que o seu autor se chama Gianni Rodari. O livro, recentemente publicado pela editora Kalandraka, integra a colecção Sete Léguas e é magnificamente ilustrado por Federico Delicado, de quem já falámos várias vezes.

Sim, senhor jornalista, vivi durante anos como um eremita naquele pequeno asteróide, do qual vem o meu nome de guerra: X.99. O nosso universo tem para mim poucos segredos. Conheci mundos muito mais desenvolvidos do que o nosso e outros mais atrasados. Conheci também misturas bastante singulares de progresso e subdesenvolvimento. 




É nesta conversa com um jornalista que o ex-guardião de um asteróide relata as inúmeras e fantásticas aventuras que viveu no espaço, na companhia da sua cabra Renata. Tendo sido guardião de radiofarol no asteróide X.99, uma bola rochosa na qual o sol se levantava e se punha  vinte vezes durante o dia, foram muitas as missões de que foi incumbido no tempo em que por lá viveu. O Planeta dos Brinquedos, o Planeta Osíris, o Planeta Parco, o Planeta Miro... A cada um corresponde um capítulo onde são reveladas ao leitor as aventuras vividas pelo astronauta e pela cabra Renata. O espaço não tem segredos para eles. 


Mais do que simples histórias, as memórias deste agente revelam experiências tão peculiares quanto incríveis. Num planeta, o agente ensina os macacos que o habitam a fazer fogo e estes rapidamente se tornam famosos pela sua indústria alimentar. Noutro, aprende a falar com as árvores, terminando com os mitos sobre árvores assassinas... Abelhas luminosas e inteligentes, teias de aranhas magnéticas,  estranhos desaparecimentos de astronaves, inesperados jogos de batalha naval, estranhos homens com ideias perigosas, costumes bizarros e absurdos... há de tudo para contar. 





O nosso planeta preferido é, sem qualquer dúvida, o dos Brinquedos. Povoado apenas por crianças, mas onde não há escolas. Nele, as crianças fazem o que lhes apetece, desde construir as casas onde vivem, fazer a comida que comem, ler em cima das árvores, desenvolver os mais variados e criativos projetos... No planeta onde há milhares de bicicletas diferentes porque cada menino gosta de inventar o seu próprio modelo, não há adultos. Surpreendente? Não, se nos lembrarmos do brilhante e genial pedagogo que foi Gianni Rodari. A par da pedagogia, o autor embrenha-nos com grande subtileza em temáticas tão variadas como a natureza, o progresso ou o totalitarismo. É com naturalidade que vemos aparecer a referência a um possível "Hitler da Via Láctea". Este é um livro para os mais novos, para os mais velhos, para toda a família...























Terminada a entrevista e a fabulosa descrição das peripécias espaciais do agente X.99, o final do livro ainda reserva ao leitor os divertidos Poemas para Rir do Planeta das Árvores de Natal (obra publicada em 1962), aqui recuperados pelo autor por coincidirem na temática espacial, na exploração e na descoberta inesperada. As magníficas ilustrações de Delicado, que optou por caricaturar várias personagens, completam brilhantemente  a fantástica viagem pelo desconhecido. De tal modo contagiante que também nós vamos viajar. Ainda não nos decidimos pelo planeta, mas sabemos que voltamos em setembro. 

Até lá, boas férias, boas viagens & boas leituras!


quinta-feira, 22 de julho de 2021

A Mentira
























A Mentira, com texto de Catherine Grive e ilustrações de Frédérique Bertrand, publicada entre nós pela Livros Horizonte, é uma história predominantemente gráfica sobre um tema indissociável do universo infantil. Expressões como mentir é feio ou não se deve mentir, tantas vezes utilizadas pelos adultos na educação das crianças, nem sempre evitam os narizitos de Pinóquio. Esta é a altura da vida em que as inverdades andam quase sempre de mão dada  com a imaginação e um grande poder inventivo.

No caso desta história, não há necessidade de grandes discursos acerca da mentira ou do valor da verdade, já que as autoras optaram por uma representação gráfica da própria mentira, das proporções que ela pode tomar e bem assim do peso angustiante que pode acarretar para a criança. Surgindo, inicialmente, sob a forma de um pequeno ponto vermelho, ela vai crescendo e multiplicando-se ao longo das páginas do livro até atingir dimensões gigantescas. A menina que aqui surge como dona da mentira conta-nos que ela terá nascido num dia igual a tantos outros e que as palavras que lhe deram forma terão saído sozinhas. Um cenário nosso conhecido...







































Assim que nasce, a mentira revelava-se incómoda. Espera pela dona em todos os cantos da casa e segue-a por todo o lado fora dela. No quarto, na casa de banho, na rua, na escola, a mentira não a larga nem lhe dá descanso. Mesmo quando a menina a manda embora, ela volta. Ainda que tente  não olhar para ela, sabe que ela lá está. Vive angustiada e tem alturas que até imagina empurrá-la do cimo de uma montanha...
























O leitor vai acompanhando o crescimento da mentira, do seu peso. Primeiro, pelo aumento do tamanho. Num segundo momento, pela multiplicação da mesma, desdobrando-se em vários tamanhos. Ela torna-se omnipresente. Todos sabemos que a cada dupla página, ela se tornará maior. Os mais pequenos vão absorvendo as dimensões que ela vai ganhando e as proporções que atinge na vida da pequena dona. Proporções tantas vezes insignificantes aos olhos dos adultos, mas quase sempre gigantescas para a criança.

Com um texto curto, é, sobretudo, através das imagens que o leitor vai assimilando o crescimento e o peso da mentira na vida da sua dona. A cor vermelha não terá sido escolhida ao acaso e é passível de várias associações. Desde logo, a evocação do universo de Yayoi Kusama e das suas famosas bolas. A própria capa traz-nos à memória uma outra, a de Kusama: Infinity, The Life & Art Of Yayoi Kusama. Somos fãs do trabalho de Frédérique Bertrand e ficamos felizes quando vemos os seus livros por cá. Este é precioso para leitores de todas as idades.

O que aconteceu à mentira? Nada que uma boa dose de coragem, uma conversa com os pais sobre a verdade da mentira e um alfinete não resolvam... Boas e verdadeiras leituras!

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Eu Falo Como Um Rio
























O P de pinheiro cria raízes que se enredam na minha língua. O C é um corvo que crava as garras no fundo da minha garganta. O M da madrugada lança um feitiço que prende os meus lábios num murmúrio.

É assim que o pequeno protagonista desta história nos descreve a sua gaguez. Cedo lhe adivinhamos a solidão e a luta que marcam cada nascer do dia. Num registo intenso e intimista, texto e imagens entrelaçam-se, oferecendo aos leitores um livro belo e tocante.
















O ritual é penoso, mas ele não nos oculta nada. Conta-nos que todas as manhãs acorda com aqueles sons de palavras encravados na boca. Permanece silencioso como uma pedra e prepara-se para cada novo dia sem palavras. Depois, chega a hora da escola.  Esconde-se no fundo da sala, desejando com todas as suas forças que não o vejam. Para não ter de falar. 


 





















Mas nem sempre isso acontece. Há dias mais difíceis  do que outros. As manhãs são sempre terríveis, mas a de hoje parece pior. O professor dirige-se a ele, é chegada a sua vez de falar. É o momento em que todos os outros olhos se fixam no menino a quem as palavras se encravam na boca. Hoje, está mais encravado que nunca. Só vê as bocas dos outros. Essas não encravam. Enchem-se de risos para troçar dele. Sabe que não vai conseguir. Só quer ir para casa.























É apenas um "dia não" para falar, diz o pai quando o vai buscar. O leitor acompanha-os até ao sítio mais tranquilo que aquele pai escolhe para apaziguar o seu menino. É aqui, no rio, que sentimos a sua tristeza, que vemos os seus olhos cheios de chuva, ainda que não lhe consigamos ver o rosto. Ficamos aliviados quando o braço do pai pousa no seu ombro, porque há já várias páginas que o queríamos abraçar. Ficamos felizes quando sentimos que o peso metafórico das palavras usadas se apresenta como um desbloqueio.

- Vês como a água se move? É assim que tu falas. Sim, o menino consegue ver a água a borbulhar, a agitar-se, a redemoinhar e a embater. Agora, sabe que fala como um rio. E é disso que se vai lembrar, sempre que tiver medo ou vontade de chorar. 























Eu Falo Como Um Rio, recentemente editado entre nós pela Fábula, tem texto de Jordan Scott e ilustrações do já nosso conhecido Sydney Smith, de quem falámos aqui. Scott é um poeta canadiano que parte da sua própria experiência para esta primeira incursão no universo da literatura infantil, ainda que a temática não seja nova no conjunto da sua obra. O seu texto é intenso, comovente e feito dessa dureza que é ser real. As ilustrações de Smith conferem-lhe uma dimensão extraordinária, justificando mais do que nunca as manchas, as imagens difusas e o toque impressionista, tão presentes no seu trabalho. O desdobrável que assinala o momento alto desta história abre-se aos olhos do leitor, recordando-lhe a imensidão da tristeza que experienciou com o menino. Ao mesmo tempo que lhe traz a imensidão do mar e de uma certa libertação. É um livro belo. 

Na contracapa lê-se que "este é um livro para quem se sente diferente, solitário ou incapaz de se integrar". Nós atrevemo-nos a acrescentar que é um livro para todos, sobretudo para os que têm dificuldade em aceitar a diferença.


quinta-feira, 8 de julho de 2021

Tu e Eu e Todos


 





















Tu e Eu e Todos do argentino Marcos Farina, editado pela Orfeu Negro, é uma boa companhia para as férias. Um livro que nos ajuda a mostrar às crianças que, independentemente da cor da pele ou do lugar onde vivem, todos partilham sentimentos e emoções. Cada um à sua maneira, todos vivenciam hábitos e experiências comuns.


Todos comemos, todos dormimos, todos brincamos... Há momentos em que nos sentimos tristes.  Outros há em que estamos felizes. Às vezes, zangamo-nos, ficamos furiosos. Sentimos medo. Às vezes, rimos e ficamos alegres. E todos sonhamos. 















Uma abordagem simples e eficaz sobre a diversidade e aquilo que nos une. Sobre o cuidado e o respeito pelos outros. Todos diferentes, mas iguais em tantas coisas. Semelhanças e diferenças que nos chegam, acima de tudo, através das imagens. Os mais pequenos identificam-se com elas e descobrem rapidamente as afinidades. 























Ao longo de todo o livro, a  simplicidade parece andar de mãos dadas com uma certa pureza que associamos à infância.  Sem filtros, sem preocupações do "politicamente correcto"... Todos fazem xixi, não há como negá-lo. Só que uns de pé, outros sentados. Esta é uma das imagens de que mais gostamos nesta história que nos ajuda a encontrar pontes para nos mantermos unidos. Bem precisamos!

quinta-feira, 24 de junho de 2021

O Elefante da Dona Bibi


 

Entre leões e elefantes, este é um verão de leituras muito interessantes. Depois de falarmos aqui do leão Leonardo e do pequeno elefante Ernesto, hoje queremos falar de O Elefante da Dona Bibi, do iraniano Reza Dalvand, editado pela Fábula. Fãs do seu trabalho há algum tempo, festejamos a chegada do autor e esperamos já pelo próximo livro.



















A dona Bibi podia ter escolhido um gato, um cão ou até uma tartaruga para lhe fazer companhia? Podia, mas o seu animal de estimação é um elefante. Muito, muito grande. Esse é também o tamanho da amizade entre os dois. Partilham a vida com entusiasmo e alegria. Todos os dias dão um passeio pela cidade, de manhã divertem-se a brincar com as crianças e a tarde é regada com o habitual chazinho, acompanhado de bolo. Nham, nham... Antes de adormecer, a dona Bibi faz questão de contar sempre histórias ao seu elefante. Para que ele tenha bons sonhos.











Apesar da vida tranquila que levam, as pessoas da cidade não gostam do elefante. 

- demasiado grande  - demasiado barulhento  - causa muitos engarrafamentos. 

E o pior de tudo, consideram que ele é um mau exemplo! já imaginaram se todas as crianças quisessem um animal de estimação? As casas não são para isso, mas sim para estarem cheias de objetos bonitos e requintados. Em vez de perder tempo com o elefante, a dona  Bibi devia era ler o jornal, informar-se como investir o seu dinheiro e saber mais de economia.









Chegado aqui, o leitor já escolheu o lado da contenda. Também não tem dúvidas acerca do posicionamento do autor. Quanto à dona Bibi, ela não tem qualquer interesse por objetos luxuosos e, muito menos, por economia. O seu grande, muito grande interesse é o elefante com quem partilha os dias, com quem ri e a quem conta as histórias do que já viveu. 






Mas aquelas pessoas não desistiam. Movidas pela fúria e pela ignorância, acabam por obter uma decisão de um juiz a ordenar que o elefante passasse, logo na manhã seguinte, a viver no jardim zoológico. A noite é de tristeza para dona Bibi e para todos os leitores que estão do seu lado. A doce senhora contou histórias ao seu elefante até ele adormecer e abraçou-o muito. Não suportava a ideia de se separar do seu grande, muito grande amigo. Sabia que tinha de fazer alguma coisa para o evitar. Os leitores não sabem o quê, mas sabem que a apoiarão incondicionalmente.










Com uma paleta de cores alternando entre tons vibrantes e suaves e uma magnífica parafernália de padrões e detalhes, Dalvand prende os leitores logo na capa. As flores em relevo, o ar pequeno e frágil da carinhosa senhora sentada na tromba do seu animal de estimação, o contraste com o  tamanho deste... deixam antever toda a ternura que a história comporta. São elementos que nos levam a não resistir a abrir o livro. Uma vez lá dentro, o leitor vive a crescente tensão entre os dois lados, não hesitando nunca em relação ao seu posicionamento. Se alguma dúvida subsistisse, ela desapareceria no momento em que o autor nos mostra as caras daquela multidão em fúria. Composta por pessoas todas diferentes, mas unida pela resistência  à aceitação da diversidade.














É sem surpresa que, no dia seguinte, vemos que não está ninguém em casa da dona Bibi, quando aquelas pessoas chegam para levar o elefante. A casa é revistada à vista do leitor. Conferimos que não existem objetos finos e luxuosos, mas há maravilhosas fotografias que já nos fazem sentir saudades dos dois. A janela aberta deixa antever que ambos escolheram viver livres, juntos e felizes. Apesar de nos fazerem falta no resto da história, ficamos também felizes por eles. 

















Feliz não é uma palavra que possamos utilizar para aquela multidão. Depois da partida dos protagonistas da história, a cidade nunca mais foi a mesma. Todos deixaram de sorrir. s criança deixaram de brincar na rua. Sentiam saudades do elefante. Havia um vazio do tamanho de um elefante. Aquelas pessoas perceberam, finalmente, que eram todos mais felizes quando a dona Bibi e o seu elefante ali viviam. E talvez tenham entendido que uma casa é muito mais que um lugar com objetos luxuosos. É um lugar para se viver, onde até pode caber um elefante. Muito, muito grande. A decisão foi tomada. As crianças passariam a ter os seus animais de estimação. Cães, gatos e até houve quem escolhesse o seu próprio elefante. 

E a dona Bibi e o seu grande amigo? Descubram!  Abram o livro e fiquem por lá com os miúdos. Ele tem múltiplas leituras e apetece morar lá por muito tempo. E ter um elefante?

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Ernesto O Elefante


Anda por aí um elefante chamado Ernesto que é propriedade de Mr. Anthony Browne. Confessamos que já sentíamos a falta deste reencontro e saudamos o seu regresso, como habitualmente, pela mão da editora Kalandraka.



Ernesto é um elefante bebé que vive com a mãe e o resto da manada. Todos os dias caminham, comem, bebem e à noite dormem. O pequeno é feliz assim, mas não deixa de se questionar se a vida é só isto. A sua curiosidade leva-o a interpelar a mãe quando, um dia, passam perto de uma selva. As reacções maternas perante selvas e florestas são sobejamente conhecidas. A mãe de Ernesto não foge à regra e explica-lhe que aquele não é um lugar para elefantes bebés.



Mas nós, leitores, sabemos que Ernesto não será o último a ceder a estas tentações. Até porque, como é típico da pequenada, ele já não se considera um elefante bebé. E com a coragem própria de quem se sente um crescido, aventura-se mesmo selva dentro. Ao fascínio inicial da novidade, segue-se rapidamente a desorientação. O pequeno elefante sabe que está perdido! E o pior é que ninguém se mostra disponível para o ajudar. Entre os animais mais fortes e possantes, só colhe antipatia e indiferença. É assim com o gorila, com o leão, com o hipopótamo... O pequeno só quer voltar a encontrar a sua mamã, mas ninguém quer saber disso. Ninguém se importa com o seu desespero. O medo apodera-se de Ernesto e o choro não tarda a chegar. 



Em jeito de fábula, a ajuda vem de onde menos se espera. Nem Ernesto acredita na capacidade do pequeno e bem-educado rato que lhe oferece generosamente os seus préstimos para o ajudar a encontrar o caminho de volta. Mas é graças a ele e a essa  manifestação de solidariedade que  acaba por reencontrar a sua mamã e voltar à vida feliz. E saibam os leitores que o pequenito herói, aquele delicado ratinho, ainda reune no seu leque de qualidades a da humildade, não sendo dado a grandes protagonismos.


Um livro magnificamente ilustrado, onde as personagens exibem uma expressividade que só Browne parece conseguir. Uma história que os pais lhe contavam quando era pequeno e uns primeiros desenhos ainda guardados terão estado na origem deste novo livro, que aplaudimos. Agora que todos sabemos que as aparências iludem, agarrem nas crianças e aventurem-se pela selva. Mas fiquem atentos, porque também elas se podem deslumbrar nesta selva browneana, repleta de apetecíveis frutos, doces de fazer crescer água na boca, chupa-chupas e muitas outras iguarias. 

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Como Ser Um Leão
























Leonardo é o leão por quem muitos se vão apaixonar este verão. Para os que pensam ser impossível nutrir tal sentimento por um animal tão feroz, capaz de nos engolir de um só trago- Ferra, trinca, Nham-Nham!saibam que não podiam estar mais enganados. Isso não é para o Leonardo, ainda que ele também tenha crescido a ouvir dizer que só há uma maneira de ser um leão.















O Leonardo não é como a maioria dos leões. Gosta de passear sozinho, sentir o sol quentinho no dorso e a erva debaixo das patas. Há dias em que sobe à sua montanha dos pensamentos onde pensa pensamentos importantes ou sonha acordado, onde bichana e brinca com as palavras, transformando-as em poemas. O Leonardo é um poeta!
























Isso já é demais, dirão alguns. Os leões não são mansinhos e, muito menos, poetas. Por exemplo, o que acontece se um leão encontrar uma pata? Ferra, trinca, Nham- Nham.  Já era!  E o que aconteceu quando o Leonardo encontrou a Mariana, uma pata que, por acaso, também era poeta? Pasmem! Os dois tornaram-se amigos e, juntos, até desencravaram as palavras de um poema que não estava a sair ao nosso leão. O Leonardo é especial!













O Leonardo e a Mariana descobriram que gostavam um do outro. Tornaram-se inseparáveis. Apanhavam sol juntos, brincavam, davam passeios, viam as estrelas cadentes, pediam desejos e tinham longas e profundas conversas. Próprias de dois poetas!




















É verdade que os poetas nem sempre são compreendidos. Leonardo não era excepção. Os seus pares andavam incrédulos e zangados. Porque é que aquela pata ainda não tinha sido devorada? A ordem era clara e inequívoca: - Leonardo, tens de ser feroz! Ele enfrentava-os e defendia Mariana com garras e dentes. O Leonardo era mansinho, mas corajoso!



















Mas tanto o Leonardo como a Mariana sabiam que tinham de fazer alguma coisa. Foi por isso que subiram à montanha dos pensamentos, juntaram as palavras e construíram o poema que conseguiu mudar aquela terrível situação. Os dois conseguiram mostrar que não há só uma maneira de ser um leão. Em jeito de fábula, Ed Vere oferece-nos uma história fantástica sobre a importância de sermos nós mesmos, de pensarmos pela nossa cabeça e não cedermos às cedências e pressões dos outros. Uma história onde a coragem e a bondade prevalecem sobre a raiva e as ideias pré-concebidas. Com uma paleta em tons fortes de laranja, onde sobressaem os  contornos pretos do nosso protagonista, é ele que enche todas as páginas.


Abram o livro e leiam o magnífico poema que estes dois amigos fizeram! Leonardo é um leão que vai apaixonar muita gente este verão. That's our lion!

terça-feira, 8 de junho de 2021

Migrantes


 












Não os conhecemos, mas vemo-los todos os dias. Sentimos que pouco ou nada podemos fazer por eles, mas não nos saem da cabeça. Nem tão pouco das conversas. São aos milhares. Velhos, novos, crianças, sozinhos ou em família... Fogem do medo, da guerra, da miséria... em direcção a um novo mundo cheio de nada. O que os move? A última coisa que morre dentro de cada um de nós, a esperança. Uma realidade dramática que já não escapa ao conhecimento das nossas crianças. Continuamos sem saber explicar-lhes porque milhares de crianças como elas têm de trilhar caminhos tão sórdidos e tenebrosos. Somos, muitas vezes, confrontados com as suas perguntas, com os seus espantos. Migrantes, o livro da peruana Issa Watanabe trazido recentemente para Portugal pela Orfeu Negro, nasceu da vontade de contar aos mais novos estas terríveis histórias de vida.












Migrantes é um livro sem texto, um testemunho silencioso que atravessa a escuridão dos dias e das noites. As palavras não são necessárias para compreender os dramas que estas personagens carregam consigo. Num cenário feito de folhas negras, um grupo de animais humanizados ilustra a dureza de uma travessia tantas vezes vivida por milhares de pessoas. Envergam trajes coloridos, num evidente contraste com o escuro dos caminhos que pisam. De acordo com a autora, essa foi a forma encontrada para dar a cada um uma identidade própria. À escolha de animais presidiu a intenção de universalizar a história, não lhes atribuindo qualquer raça ou lugar de proveniência, e também os destinatários. 


Por terra e mar, caminham e sofrem em silêncio. A bagagem é pouca e a morte, personificada por uma caveira coberta por um manto florido, é companheira de viagem. Entreajudam-se, não querendo que nenhum fique para trás. Mas o leitor sabe que dificilmente o grupo chegará ao fim sem perdas.  Sempre que viramos a página, não sabemos o que vamos encontrar. Mas, é sem surpresa que vemos o manto da morte perder a cor.


















Watanabe inspirou-se no livro do fotógrafo sueco Magnus Wennman, Where The Children Sleep,   e no contacto próximo que manteve com um migrante num período que viveu em Maiorca. Sem condescendências e de forma notável, a autora  consegue tocar os mais novos com uma história sobre acontecimentos que, infelizmente, já se tornaram de todos os dias. E se fosses tu?