quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Não Te Afastes


O leitor experimenta uma ávida vontade de chegar ao final do livro. Tem pressa em saber como termina a história, depois de acompanhar Tomás, o pequeno protagonista de 12 anos,  na grande viagem que este decide empreender. O ritmo da narrativa é intenso, a sucessão de acontecimentos é vertiginosa, como se na vida do rapaz tudo acontecesse num abrir e fechar de olhos. Sentimos um intenso desejo de estar ao seu lado nos medos que sente e admiramos-lhe a determinação e a coragem com que os vai enfrentando. Enquanto vive os acontecimentos presentes, o leitor vai sendo informado do passado através dos pensamentos do rapaz, expressos em itálico em páginas alternadas. Não Te Afastes, o último livro de David Machado, é uma história  fantástica que não nos abandona a cabeça por muitos e muitos dias.
Tudo começa com a fuga de Tomás. A morte do pai, que acredita ser culpa sua, fá-lo deixar a mãe e partir para  longe dos amigos.  "Onde eu estou acontecem sempre coisas más" é um pensamento recorrente que o leva a querer afastar-se de quem tanto ama. O rapaz vê a sua crença reforçada quando, chegado à cidade, o país é atingido por um furacão. Sozinho, desesperado, com saudades de casa e da mãe, enfrenta um catastrófico cenário de destruição  onde todos os perigos são possíveis. Com uma coragem quase incomum para a sua idade, Tomás vai ultrapassando o impossível na luta pela sobrevivência. É nesse trajecto que se dá o encontro com um pequeno rinoceronte, acabando ambos por entender que juntos terão mais probabilidades de sobreviver. O precioso amigo acabará por ter um papel determinante no regresso a casa e o muito que vivem juntos leva Tomás a perceber que talvez as coisas más que acontecem à sua volta não sejam responsabilidade sua.
Não Te Afastes é um exímio exemplo de proximidade entre o jovem leitor e o livro. Apetece pedir: Próximo!

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Catarina Sobral nos Hipopómatos


Num Milionésimo de Segundo, a exposição de ilustrações de Catarina Sobral vai estar patente na Casa dos Hipopómatos até dia 2 de março. Hoje, dia 9, recebemos  a autora para uma conversa, seguida de sessão de autógrafos.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Contos de Encantar


São textos jubilosos sobre o amor, o nascimento e o desfazer da solidão. Sendo Cummings quem é, há a tendência para ler mais do que lá está escrito e cada um fará como quiser. A alegria da linguagem, as tentativas e os avanços rituais, próprios da literatura de encantar, são, porém, um valor absoluto que dispensa outras interpretações.
As palavras são da escritora Hélia Correia que, para além da tradução, assina também o prefácio.


Sendo Cummings quem é, não será propriamente no público mais jovem que pensamos quando falamos do seu nome. Mas, à semelhança de outros nomes grandes da Literatura, também ele não resistiu a uma incursão pelo mundo da infância. São quatro as histórias que terá escrito para a sua filha Nancy, que só viria a saber do verdadeiro grau de parentesco entre ambos já na idade adulta. Em 1965, três anos após a morte do poeta, as histórias foram reunidas e publicadas com o título Fairy Tales. Para as ilustrar, foi escolhido o artista canadiano John Eaton.


Recentemente, chegaram a Portugal, com o título Contos de Encantar, pela mão da Ponto de Fuga. Uma pequena editora com um grande trabalho, apostada em presentear-nos com livros de vultos da literatura, dedicados aos mais jovens. O Mundo é Redondo,  de Gertrude Stein, de que falámos aqui,  A Árvore dos Desejos, de William Faulkner, O Homem de Ferro e  A Mulher de Ferro, de Ted Hughes são alguns dos títulos do catálogo.


Depois de  O Mundo É Redondo, de Stein,  Rachel Caiano volta a ser a eleita para ilustrar os contos de Cummings. O leitor apanha boleia nas asas do seu traço delicado para sobrevoar um universo feito de palavras doces e mágicas, onde todos  sonhamos ser criança e imaginamos habitar  nem que seja por um só dia. Com uma paleta de três cores, laranja, azul e preto, Caiano transporta pequenos e grande leitores com um prazer estonteante pelos textos que Hélia Correia designa de jubilosos sobre o amor, o nascimento e o desfazer da solidão.


O velho que perguntava "porquê" é a primeira das quatro histórias. Conta-nos que Silfo, um ser que durante milhões de anos  viveu tranquilo e feliz sem envelhecer na mais longínqua das estrelas, um dia teve de usar as suas asas douradas e voar toda a noite, milhões e milhões de quilómetros até à lua. Era lá que estava o homem muito velho, de olhinhos verdes, grande barba branca e mãos tão delicadas como as de uma boneca, que nunca parava de perguntar porquê e de quem todos os vizinhos se queixavam. Um velho muito velho na idade dos porquês? Leiam, leiam a história.


Era uma vez um elefante que não fazia coisa alguma o dia todo. Um dia, avistou uma borboleta que ia toda feliz da vida a bater as asas ao longo da estrada caracoleante que ia dar a sua casa.  É o fim de uma vida solitária e o inicio de uma maravilhosa amizade. O Elefante e a Borboleta é uma história magnífica que nos faz ter vontade de subir e descer a estrada caracoleante muitas vezes.
Era uma vez um a casa que se apaixonou por um pássaro. Começa assim o terceiro conto, A casa que comeu tarde de mosquito. Ninguém consegue imaginar o quanto a casa se sentiu feliz quando de súbito a minúscula criatura voadora pousou mesmo ao lado dela e lhe perguntou: Posso ir viver dentro de ti?"


A menina chamada Eu é o quarto e último conto. Depois de muitos encontros e convites para tomar chá, Eu conhece outra menina como ela, chamada Tu. Uma história  deliciosa e divertida, que leva miúdos e graúdos a tentar adivinhar as respostas às perguntas que vão surgindo. Não resistam, encantem-se!

domingo, 27 de janeiro de 2019

Rosa Branca




27 de janeiro, dia dedicado à Memória das Vítimas do Holocausto. Para muitos, ao longo da vida, um dia feito de todos os dias. Hoje, parece cada vez mais necessário lembrar aos mais novos que o Holocausto existiu. Só o conhecimento poderá evitar que se repita. Por isso, voltamos a falar deles, dos livros que nos ajudam a manter viva essa memória.


Depois de A História de Erika, a editora Kalandraka trouxe, finalmente, para Portugal um dos livros mais conhecidos sobre o Holocausto, Rosa Branca, de Christophe Gallaz e Roberto Innocenti. Comum a ambos, é, certamente, a pretensão de consciencializar os seus leitores para que tal tragédia nunca mais se repita.



A singularidade de Rosa Branca reside no facto de a história ser contada a partir do testemunho de uma criança alemã. Guiados pelos seus olhos, os leitores penetram no cenário de guerra e dos horrores que marcaram a Alemanha nazi.



Tudo começa quando Rosa vê um rapazito saltar de um camião tentando a fuga,  interrompida pela pronta intervenção do  presidente da Câmara e dos soldados que se encontravam por perto. O acontecimento não deixou de parecer inusitado aos olhos de outra criança, tendo despertado toda a sua curiosidade. A menina acaba por seguir os camiões e, incrédula, descobre alguns dos horrores que se praticam no lugar onde vive. A poucos metros da sua casa, Rosa encontra o que ninguém parece querer ver, mas que é visível para todos. Crianças como ela, presas atrás de arame farpado. O olhar mais atento de Rosa encontra as diferenças. Pálidas e magras, marcadas com uma estrela amarela, aqueles meninos mais parecem feitos de papel do que de carne e osso. 


Com a inocência de uma criança, Rosa escuta o silêncio em volta mas não pode pactuar com a situação. A partir desse dia, passa a ter um segredo só seu, guardado a sete chaves. Diariamente, percorre o mesmo caminho para levar aos novos amigos toda a comida que consegue esconder na sacola.
Um dia, os soldados que chegam à sua terra são outros. Rosa encontra o campo de concentração vazio. Os amigos já lá não estavam. Ela era apenas uma criança. Mas a guerra é cega para todos os lados. Nesse dia, o caminho de volta não se fez.



Como é seu timbre, as assombrosas e hiper-realistas ilustrações de Innocenti, revelam cada detalhe de um  tempo e de um lugar palco de todas as atrocidades. Da vitória à derrota do nazismo, o leitor revive a História vezes sem conta. O nome de Rosa Branca é uma homenagem ao mais conhecido movimento de resistência alemã, iniciado pelos irmãos Scholl, em Munique. Foram muitos os estudantes que acabaram executados pelos nazis, mas a sua maior herança permaneceu. Mostrar à humanidade que nem todos os alemães foram cúmplices dos horrores com que a Alemanha de Hitler escreveu a história. Afinal, essa é, também, a herança de Rosa, a menina que usa uma fita no cabelo da mesma cor da suástica, mas que representa o que de mais antagónico poderia existir. Porque a inocência de Rosa é igual à de qualquer outra criança, independentemente da nacionalidade ou da raça. Esta é uma história para partilhar com os mais novos. Para lembrar.