quinta-feira, 12 de maio de 2022

Boleia


 










Boleia | Guilherme Karsten | Fábula

Parece bem longínquo o tempo em que íamos para a praia à boleia. Um tempo onde não parecia haver lugar para medos. Era uma forma de viajar que nos permitia conhecer pessoas e, tantas vezes,  fazer bons amigos. Quando apanhámos a boleia de Karsten, o autor brasileiro que agora chega a Portugal, fomos invadidos por um sem-número de memórias e por uma enorme vontade de fazer esta viagem. 





Munido da sua prancha, um surfista ruma à praia num feriado. Tudo indicia que será um grande dia e, por isso, arranca animado. Mas, pelo caminho, vai dando boleia às mais diversas personagens e à sua bagagem, criando no leitor uma crescente suspeita de que a chegada ao destino não será tarefa fácil. Entre mergulhadores, heróis, polícias e ladrões, capuchinhos vermelhos, lobos, crocodilos e músicos, o carro vai enchendo na mesma toada que o estado de espírito do surfista vai mudando.

Pouco animado - intrigado - preocupado - chateado - apertado - irritado - desamparado.




Mesmo com uma das personagens a ficar apeada, não tendo sido contemplada com a boleia por razões tão óbvias quanto históricas, esta é uma viagem que não augura nada de bom. E o que estava iminente acaba por acontecer, pois com tanta gente não há pneu que aguente...



Vencedor do Prémio Jabuti, este é um livro bem divertido e genialmente concebido. Texto e ilustrações conjugam-se, sendo ambos atravessados por uma espécie de linha cumulativa. A cada dupla página, podemos ver os passageiros que se vão apertando, os pertences que se vão aglomerando e um delicioso texto rimado que os conduz a todos repetidamente. 



Com uma aparente simplicidade e um final inusitado, mesmo para os leitores mais afoitos que tenham tentado adivinhar possíveis finais, a história encanta gente de todas as idades. Mas, o que têm, afinal, estas personagens em comum? E o que fazem aqui o lobo e a capuchinho vermelho? Terminará a história bem para algum deles? 




Com o fim-de-semana à porta, não percam tempo. Apanhem boleia para esta magnífica e divertida história que fará  rir toda a gente aí por casa. E preparem-se para o clássico  "outra vez" dos miúdos!


sexta-feira, 29 de abril de 2022

O Bilhete




 





















O Bilhete | Pilar Serrano Burgos e Daniel Montero Galán | Kalandraka


Chega em formato de acordeão. Grande, a pedir que o abram. Quando o  fazemos, percebemos que há todo um bairro para conhecer. Os lugares, as pessoas que ali moram, as rotinas diárias. Tudo, enquanto um bilhete cujo teor o leitor ignora, vai passando de mão em mão. Seguimos-lhe atentamente o percurso. É ele que nos proporciona esta espécie de visita guiada.


Tudo começa em casa da pequena Eva, a menina foguete que gosta de chegar pontualmente à escola. É aqui que lê o bilhete, quando ele lhe cai da mochila. Num ápice, o mesmo já está a ser lido pelo José, que com ele faz um avião que aterra na ponta do nariz do estafeta Agostinho. Depois, é a vez da farmacêutica Ana, do bebé da Luísa, do pediatra Manuel... 
Calma, leitores, a nossa vez chegará! Aproveitem para conhecer bem um lugar onde, seguramente, não se importariam de morar. Nós gostámos da escola, demos uma espreitadela ao centro de saúde, conhecemos a Vera e o pai no parque infantil, ficámos à conversa com a Marisa no banco do jardim, tomámos um café com o Luís e... demos umas sonoras gargalhadas ao ver a forma como o bilhete foi chegando até eles. 



As cinéfilas  ilustrações de Montero Galán emprestam ao leitor a vontade de conhecer cada recanto, de percorrer as ruas uma e outra vez, de se inteirar das histórias de vida de quem ali vive. Os autores sabem disso e, no verso, brindam-nos com o elenco, revelando-nos algumas características pessoais, segredos e sonhos dos personagens. Ali, até o Ioiô e o Bobby marcam presença.




Tendo  merecido uma menção especial no XIV Prémio Compostela, este é um livro cheio de humor, que atravessa várias temáticas como a vida em comunidade, o relacionamento com os outros ou a diversidade. Uma história deliciosa que nos mostra que os pequenos gestos e afectos podem tornar a vida bem mais alegre.





























É certo que, ao longo de toda esta visita, o leitor desconhece o que diz o bilhete, mas sempre lhe conheceu a autoria. E isso, torna ainda mais divertido o final do livro. 
Um livro de muitas leituras.  De várias viagens, que permitem descobrir novos detalhes a cada regresso. Que vira e revira nas mãos de pequenos e grandes leitores. A esta altura, o bilhete já deu a volta inteira ao bairro e já voltou... O que diz? Vão até lá e descubram. Porque este é um bilhete que todos gostaríamos de receber.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Bom Fim de Semana

Suzy Lee


Que Planeta é Este?


 






















Que Planeta é Este? | Eduarda Lima | Orfeu Negro

Esta é uma viagem que não perderíamos por nada! No Dia da Terra, apanhamos boleia com Eduarda Lima, a autora de O Protesto, e visitamos alguns dos lugares mais maravilhosos e únicos do mundo. Ao longo das belas páginas do livro, o leitor vai estruturando a mente e os olhos para um final que tem tanto de inesperado como de desejado. Depois de nos ter encantado com uma floresta silenciosa, Lima volta a  reunir-nos em torno de um livro marcado pelas preocupações ambientais









Tudo começa numa noite em que a cidade fica completamente às escuras. Depois de entramos em casa de uma família e de lhe conhecermos as rotinas, é a filha mais nova que nos conta como o "apagão" parou tudo o que se fazia lá por casa. A reunião da mãe, por computador, a conversa online da irmã com os amigos, o jantar que o pai estava a fazer... Todos conhecemos a sensação de pouco ou nada conseguir fazer quando ficamos sem luz em casa...















Mas, a pequena protagonista lembra-se de um livro grande e pesado que a avó oferecera precisamente... para um dia em que ficassem sem internet. Munida de lanterna, monta o acampamento e inicia a viagem. Entre glaciares, grutas, desertos e mares de mil cores, vamos-nos deslumbrando por entre algumas das maravilhas da natureza. Uma viagem que acaba por dar boleia a toda a família e, seguramente, a muitos leitores.  















Ver  o Desfiladeiro do Antílope, no deserto do Arizona, a desova na grande barreira do coral na Austrália, a dança de acasalamento das aves-do-paraíso na Papua-Nova Guiné... são sonhos de qualquer viajante. Alasca - deserto do Arizona - Ilha de Socotorá- Austrália - Amazónia, são apenas alguns exemplos de lugares únicos onde todos queremos ir alguma vez. Deslumbrados, aplaudimos esta viagem ao alcance de quem abre o livro que está dentro deste livro.















Com uma vibrante paleta de cores que chama o leitor para descobrir cada detalhe, cada dupla página é um convite para que nos demoremos a observar as maravilhas que a natureza nos oferece. Depois de uma viagem destas, nada permanece igual. A redescoberta do nosso planeta e dessas maravilhas que o compõem, pode bem mudar a forma como o olhamos e o tratamos. Aqui, acordou a vontade de fazer nascer uma cidade verde, a que todos gostaríamos de chamar nossa. Mãos à obra?

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Sábado


 






















Sábado | Oge Mora | Fábula

A expressão nunca mais é sábado bem podia bem ter sido inventada pela pequena Eva e pela mãe, as protagonistas desta história. É o dia mais desejado por ambas, o preferido. Especial, porque é o único que passam juntas, uma vez que a mãe da Eva trabalha domingo-segunda-terça-quarta-quinta e sexta-feira. Esta é uma história que começa logo nas guardas, onde um calendário identifica os leitores com as rotinas e os dias da menina. Quem a vai buscar à escola, quem assiste às reuniões de pais, as atividades... Mas, o que prende, de imediato, a nossa atenção são as notas com a lista de desejos para os sábados. O calendário mostra que a maior parte já se cumpriu, ficando em evidência que no próximo sábado há teatro de fantoches.























Uma dupla página elucida-nos sobre os momentos lúdicos e felizes de que mãe e filha costumam desfrutar. Hora do conto na biblioteca, cabeleireiro, piqueniques... Este sábado há um extra: assistir a um espetáculo de fantoches único. O ritual do dia é todo partilhado. Vemos Eva a levantar-se, a tomar o pequeno-almoço com a mãe e a saírem de casa em ritmo de quem mal pode esperar pelas coisas magníficas que as aguardam. A expressão corporal, braços quase sempre levantados, e facial são elucidativas das emoções que rodeiam a chegada do sábado. A esta altura, o leitor já está suficientemente envolvido para as querer acompanhar.


Quando a Eva e a mãe chegam à biblioteca e a hora do conto tinha sido cancelada, rapidamente suspeitamos que as altas expectativas que têm para o seu dia, podem sair defraudadas. Antes mesmo do diálogo, a desilusão é visível nos gestos e nos rostos, com a mãe debruçada sobre a pequena a consolá-la. Descobrimos, então, que têm uma estratégia para lidar com a frustração: pausa, fechar os olhos, respirar fundo seguir em frente. À medida que avançamos nas páginas e nos planos delineados pelas duas, vamos dando como certo que nada neste sábado irá correr como programado e desejado. Porque há dias assim. O leitor mais atento e perspicaz já terá percebido que o momento alto do dia, o teatro de fantoches, também não irá acontecer para mãe e filha. A alegria e a pressa, no momento da saída, deixaram para trás algo importante. As decepções foram-se somando e, desta feita, os papéis invertem-se. Agora, é a pequena que consola a mãe. 





















Uma magnífica abordagem sobre as contrariedades e frustrações que a vida nos pode reservar e a forma como conseguimos lidar com elas. Acima de tudo, um precioso e comovente livro sobre o amor incondicional que liga mãe e filha. Juntas, irão compensar as contrariedades do dia. 

Mora é uma autora jovem, mas já muito premiada. A diversidade racial  e cultural são características que atravessam os seus livros.  A colagem é a sua técnica preferida. Sábado não foge à regra, com predominância para papéis coloridos e livros antigos, que lhe conferem um toque único e singular. Fãs do seu trabalho, esperamos ver por cá Thank You, Omu!, o seu livro mais premiado.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

O Gnu e o Texugo. Está a chover



 













O Gnu e o Texugo - Está a chover | Ana Pessoa e Madalena Matoso | Planeta Tangerina

O gnu e o texugo estão de volta! Em 2020, elegemos O Gnu e o Texugo - Cuidado com o vento como um dos nossos livros preferidos. Quem o leu sabe que os dois simpáticos animais se conheceram num dia de grande ventania. Talvez devido à adversidade, parecem ter ficado amigos para a vida. Desta vez, o vento deu lugar à chuva. Plim, plam, plum


Com a salamandra a aquecer o ambiente, em dias chuvosos nada é mais apetecível do que um jogo de cartas e um chá quentinho. O convite do texugo é, de imediato, aceite pelo gnu. Bic, bac, buc, o texugo não perde tempo a baralhar as cartas. O cenário é tão perfeito que nos apetece entrar, tomar um chá e fazer  um joguinho. Mas é nesta altura que ouvimos a conversa e percebemos que nenhum dos dois amigos sabe jogar às cartas. A curiosidade dos leitores está em alta. Não sabem jogar às cartas? E vão jogar? 

- Tu sabes jogar às cartas? - Não. E tu? - Também não.

As gargalhadas são inevitáveis.  Mas, o leitor rapidamente percebe que jogar às cartas sem saber jogar pode ser algo bem divertido. Chic, chac, chuc, o chá está servido.























Tal como no primeiro livro, a simplicidade e o humor do texto de Pessoa voltam a encantar-nos. A dose de ingenuidade e até o seu quê de nonsense  desconcertam o leitor várias vezes. Gostamos dos vrim, vram, vrum, dos snif, snaf, snuf... Gostamos e precisamos de histórias que nos fazem rir. Só porque sim. Na esteira das anteriores, as ilustrações de Matoso são um regalo para os olhos de miúdos e graúdos. Mesmo à chuva, este é um livro que continua a poder virar-se de cabeça para baixo, permitindo ler a história ao contrário. E que história! Sic, sac, suc.























Chegados aqui, esperamos que já se tenham interrogado sobre o porquê dos dois amigos, que estão no quentinho da casa a jogar às cartas e a beber chá, se passearem na capa equipados a rigor para a chuva. Isso é o que vocês terão de descobrir. Esperando, claro, que consigam ver o balão amarelo. Fim, fam, fum.