terça-feira, 5 de maio de 2026

Nuvens sobre nossas cabeças, areia sob nossos pés


 






















Nuvens sob nossas cabeças, areia sob nossos pés | Henrique Coser Moreira | Planeta Tangerina


Este é um pequeno livro que abre as páginas à felicidade das coisas simples e que nos faz sonhar com um regresso à infância.  De formato pequeno,  texto curto e ilustrações a preto e branco, é uma ode ao prazer da brincadeira e à imaginação dos mais pequenos.
















O que parecia ser um dia normal de praia transformou-se no paraíso  para dois pequenos irmãos que se tornam donos de uma praia deserta. Tudo por causa de uma chuva que apareceu sem se fazer anunciar,  levando à fuga de todos os que por ali estavam. Um hábito muito português e muito típico dos adultos, diga-se em abono da verdade.

















Sozinhas, as duas crianças partem à descoberta da praia, dos seus tesouros e encantos mais secretos. Conchas, búzios do mar, pedras, mar, areia, pássaros, peixes... há por aqui uma parafernália de elementos que faz o deleite das crianças. E o nosso. Acompanhamos os dois irmãos na sua viagem exploratória e sentimos cada pedra, tocamos as conchas, somos invadidos pelo cheiro da maresia. A chuva já parou e a praia continua a ser só para eles.






 











O minimalismo das vinhetas e o uso do preto e branco aliam-se na perfeição, impedindo que nos desviemos do essencial: a beleza das coisas simples através do olhar de uma criança. Ao invés do que a ausência de cor poderia fazer supor, há toda uma alegria estonteante que contagia o leitor enquanto atravessa este universo de inocência. Ficamos extasiados com as maravilhosas pérolas que encontram e demoramo-nos em cada canto da nuvem mágica em que entram. Deixamo-nos transportar para um lugar maravilhoso e único que é só deles.

















Adoramos estes pequenos tesouros que não nos deixam esquecer que a infância é para brincar e percorrer todos os mundos imaginários. De alguma forma, um livro que nos fez voltar a abrir um outro que temos sempre à mão, Uma Cova é para Escavar, com texto de Ruth Krauss e as maravilhosas ilustrações de Maurice Sendak. Abram o livro e deixem os miúdos à solta por aqui. Quer chova, quer faça sol.

terça-feira, 17 de março de 2026

Grande e pequena


 






















Grande e pequena | Arianna Squilloni e Raquel Catalina | Kalandraka


Obra vencedora do XVIII Premio Internacional Compostela para Álbuns Ilustrados, Grande e pequena oferece-nos uma poética e tocante abordagem sobre o decurso do tempo. A vida de uma mulher, desde a infância até à velhice, é o ponto de partida para uma bela e metafórica viagem pelo ciclo da vida que envolve o leitor da primeira à última página.























Natália nasceu numa pequena casa junto a um bosque. Por ali foi crescendo até que a casa se tornou pequena para ela. O novo destino escolhido foi a grande cidade, onde viveu muitos e muitos anos. Com a natureza no coração, tornou-se pintora. Celebrou a vida de muitas formas.





































Mais do que no texto, é nas imagens que esta vida cheia e inspiradora se revela ao leitor. Ainda na pequenita casa, conhecemos-lhe o hábito da leitura. Pela vida fora, acompanhamo-la nas  exposições, nos espectáculos, nas suas viagens... Natália é uma artista. Uma mulher criativa,  livre e inspiradora com quem criamos uma forte empatia.




























O tempo não para e, um dia, Natália percebe que a cidade se tinha tornado demasiado grande para si. Até porque estava a encolher. Com noventa anos e cada vez mais pequena, decide voltar às origens e retorna à sua pequenina casa do bosque. 































Ao contrário dos tempos idos, também a casa do bosque se revela, agora, grande. Natália encolhe cada vez mais, ficando tão pequena que ninguém a consegue ver. Há mesmo quem pense que a casa do bosque está assombrada, que é habitada por um fantasma. Ninguém se aproxima mais da casa e não parece haver quem se preocupe com Natália. A vida cheia e inspiradora de outrora cede lugar à velhice e à solidão. Até ao dia em que surge uma inesperada companhia. Alguém que, como ela, já perdera quase tudo na vida. A arte e a natureza vão acabar por os juntar. 








































Este é um livro habitado por um álbum de memórias, onde à poesia do curto texto se junta a sensibilidade das ilustrações, cujos detalhes nos prendem demoradamente a cada capítulo da vida desta mulher. Raquel Catalina,  que acaba de vencer o prestigiado Bologna Ragazzi Awards 2026 na categoria de Ficção, com o livro Ingrávida, chega até nós através de diversas editoras. Para além desta magnífica obra editada pela Kalandraka, também as editoras Bruaá e Akiara já publicaram livros da ilustradora espanhola. Nós somos fãs, gostamos de todos. E vocês?




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Viagens de Comboio em Primeira Classe


 




















Viagens de Comboio em Primeira Classe | Dani Torrent | Orfeu Negro


Clementina fora educada pelo pai para se tornar uma dama da alta sociedade. Funcionário público com alguns relacionamentos no meio, o homem sonhava com um bom casamento para a filha, esforçando-se por lhe ensinar as boas maneiras e a etiqueta exigíveis. O resto já a rapariga tinha. Possuía um porte aristocrático, elegância e uma beleza mesclada de languidez, capazes de despertar grandes paixões. 
























Um dia, a guerra rebentou e o mundo da rapariga ruiu. A guerra levou-lhe o pai, a casa, os planos. Clementina ficou sozinha, perdida nos escombros da destruição e sem encontrar a porta para o futuro. Mas é nas situações de maior desespero que o ser humano tem de se reerguer e o primeiro dia de primavera devolveu a Clementina a lucidez para reorganizar os planos do pai e ir em busca de um bom casamento. Usou as poucas poupanças que o pai deixara e gastou metade num fino e elegante conjunto de seda verde-hortelã e numa enorme capelina às riscas que lhe devolveram o seu ar distinto. Com a outra metade, comprou um bilhete anual de comboio em primeira classe. Era esse o lugar certo para conhecer os cavalheiros mais abastados. Um ano deveria ser suficiente para concretizar o sonho do pai. Mas seria esse, também, o de Clementina?
























Seguindo a estrutura dos contos clássicos, Torrent acaba por oferecer ao leitor uma fábula feminista e uma visão crítica de uma realidade que não está assim tão distante dos nossos dias. As ilustrações, marcadas sobretudo pelo grafite e pelos pastéis, chegam-nos difusas, talvez um pouco à semelhança da vida da protagonista. A tonalidade creme do papel utilizado acolhe-as, oferecendo ao livro um certo toque de passado. Será esta uma história impossível de ser vivida pelas mulheres de hoje? 




Instalada na primeira classe daquele comboio, Clementina tem um ano para prosseguir o sonho do pai. Nas três estações do ano que se avizinham, conhece três cavalheiros abastados, cada um mais rico do que o outro. Um banqueiro, um general e um príncipe. Todos lhe oferecem o mundo. Mas o silvo do primeiro comboio da manhã parecia fazer desperta-la de um sonho que não era seu e que não queria. Clementina partiu sempre, deixando para trás apenas o suave aroma a hortelã. A cada regresso reencontrava Otto, o rapaz que lhe transportava a mala e que viria a tornar-se maquinista. O mesmo que manifestava o desejo de que a viagem fosse interminável. 























O ano chegava ao fim. E os planos que, noutro tempo, o pai fizera para ela, também. A viagem permitiu-lhe conhecer o mundo e conhecer-se melhor a si própria. As mordomias e os bens materiais que os homens que conhecera lhe quiseram dar não a tinham seduzido. Tinha descoberto um bem maior, a liberdade. Clementina tornou-se uma mulher determinada e independente. Agarrou o destino com as suas próprias mãos, agora com a certeza de que aquele era o lugar de onde nunca mais se quer partir. 























Este é um livro simultaneamente poderoso e delicado. Texto e ilustrações coabitam numa desalinhada e desconcertante harmonia. Há ilustrações de dupla página sem texto, há páginas só com texto, há opções intermédias. Os silêncios, os pensamentos, os vazios, as personagens e o seu posicionamento, os jogos de luz... tudo se espraia pelo papel como se fosse um convite ao leitor para entrar num qualquer museu. Um livro com várias velocidades de leitura. Afinal, ainda que em primeira classe, a viagem é longa. Não a percam, a única certeza é que Clementina estará por lá.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A Bruxinha Avelã, Um Ano na Floresta



A Bruxinha Avelã, Um Ano na Floresta | Phoebe Wahl | Fábula

Nestes dias trágicos que estamos a viver, todos gostaríamos de ter por perto uma bruxinha como esta. Longe da figura estereotipada das bruxas, Avelã apresenta uma pequena e robusta estatura. Do alto das suas tranças compridas, exibe uma aparência simples e até despreocupada quando nos revela as pernas cheias de pêlos. Quando a conhecemos, ficamos a saber que é generosa, determinada e corajosa. Vive para ajudar os outros e não há um único habitante na sua esplendorosa floresta que não possa contar com ela.
























A floresta não parece ter segredos para esta guerreira.  Desde a sua acolhedora casa, construída num tronco de árvore, percorre qualquer distância para ajudar quem dela precise. Avelã é parteira, curandeira, conselheira... é pau para toda a obra. Tanto a vemos em casa dos Esquilos a tratar da dor de dentes de um dos pequenotes, como a tirar um espinho da pata de uma toupeira ou junto à família dos Coelhos a pesar os recém-nascidos.
























Whal estruturou o livro em quatro histórias, uma para cada estação do ano. Na primavera, Avelã resgata um ovo de coruja órfão e acolhe-o em sua casa até a pequena criatura, de seu nome Óscar, ter condições de se mudar para o seu habitat. No outono, socorre um troll solitário e assustado, ajudando-o a integrar-se na comunidade. O leitor é, assim, convidado a passar um ano na floresta, acompanhando o dia a dia da comunidade e deslumbrando-nos com os cantos e recantos de um cenário encantador. A loja da aldeia, a sapateira, os correios, a biblioteca pública do verde-musgo, a terra das fadas, o lago são alguns dos lugares maravilhosos que fazem com que, independentemente da idade, todos queiramos permanecer na magnífica floresta. 




 

































aqui falámos do quanto gostamos do trabalho de Wahl e da coerência de que os seus livros sempre se revestem. Neste, os tons terra, os verdes, os laranja avermelhados harmonizam-se exaltando a beleza da natureza. Os habitantes espelham a diversidade de uma comunidade a que gostaríamos de pertencer. Gnomos, fadas, dríades coabitam com toda a espécie de animais, na sua maioria humanizados. Várias cores de pele reflectem que aqui há lugar para todos. Os detalhes transportam-nos para a vida real. Tanto encontramos um gnomo em cadeira de rodas como um pai de avental florido e biberão na mão, exausto de cuidar dos filhotes. Há uma parafernália de pormenores que exemplifica, em simultâneo, a rotina de cada um e o espírito da vida em comunidade. Por todo o lado, há apontamentos deliciosos e cheios de humor, como os óculos das manas toupeiras.









































Avelã é destemida e não mede esforços quando se trata de prestar auxílio. E se for ela a precisar, existirá alguém pronto a socorrê-la? Será o seu esforço reconhecido e retribuído? Esta é a altura do leitor se embrenhar na floresta e descobrir. 







































Um livro que é uma bonita ode à natureza, à amizade e ao espírito de entreajuda, cada vez mais necessário. Só boas razões para admirar esta bruxinha que, ainda por cima, é leitora!

"Com mil cogumelos", todos deviam conhecer e ter por perto uma Avelã! Vivam as Avelãs!



quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

FANTASMAS

 




Fantasmas | Clara Rowland e Madalena Matoso | Planeta Tangerina


Pode parecer estranho andar com os fantasmas debaixo do braço, mas é o que temos feito desde que este pequeno e fantasmagórico livro nos chegou às mãos. Por entre sombras, ecos e algumas estranhezas fomos, completamente, "apanhados" por estas criaturas. Não nos saem da cabeça e já nos levaram por inúmeras histórias, alguns filmes e outros tantos livros. Entrámos em casas, museus, galerias...  Será isto o poder dos fantasmas?



 





















Quando inicia a busca, o leitor já está avisado. Neste livro, cruzam-se histórias imaginadas com outras encontradas em livros, quadros, fotografias ou filmes. É uma espécie de inventário dos fantasmas e de lugares onde as criaturas nos podem assombrar. Ou não. Espelhos, sons, sombras, roupas, casas, cartas, nomes, fotografias e cinema. São nove as áreas escolhidas para explorar a vida dos fantasmas. Afinal, não tão diferente da nossa.























Rowland desafia o leitor a atravessar um universo onde se misturam coisas de todos os dias, histórias do imaginário e outras que nos reportam para o mundo dos livros, da fotografia, do cinema, da arte em geral. De forma singular, conduz-nos numa viagem por camadas onde mistério e realidade se fundem numa multiplicidade de caminhos. Será este o poder dos fantasmas?























A propósito dos espelhos, revisitamos Alice. No país das maravilhas e Do outro lado do espelho. Relembramos o conto de João Guimarães Rosa, O espelho e regressamos a Ovídeo e ao seu Narciso. Instalamo-ns confortavelmente porque queremos ver O circo de Charlie Chaplin ou A Dama de Shanghai de Orson Welles. Na senda das misteriosas criaturas, por entre sombras, roupas ou cartas, embrenhamo-nos nas obras de Marcel Proust, Júlio Cortázar, Franz Kafka, Nikolai Gogol, Lao Tsé... Descansamos na poesia de Drummond, revisitamos Oscar Wilde e o seu eterno Fantasma de CantervilleT.S.Eliot e o seu maravilhoso O Livro dos Gatos Práticos do velho Gambá. 


Sem nos darmos conta,  revisitámos Peter Pan, piscamos o olho a Carlo Collodi e a Pinóquio e relembramos Hans Christian Andersen. As fantasmagóricas criaturas não são indiferentes a Tintim e nós, leitores, recuperamos o fôlego nas linhas de um poema do querido Manuel António Pina. Que poder têm estes fantasmas! Depois de visitar galerias e museus, de seguirmos nas sombras de Lourdes Castro, de tocar a parafernália de fotografias de Vivian Maier, já estamos outra vez colados ao ecrã pela mão dos grandes mestres como Fritz Lang, os Irmãos Lumière,  Georges Méliès,  Alfred Hitchcock ou Manoel de Oliveira. Com o leitor completamente enfeitiçado, não surpreenderia se Romeu e Julieta lhe abrissem as portas. 

























De formato pequeno e apelativo, este é um livro fantasmagoricamente fascinante. As
ilustrações de Matoso dão casa a todos os fantasmas que aqui quisermos encontrar. Numa simbiose perfeita, é nelas que eles se dissipam ou evidenciam. De acordo com a sua própria vontade, porque é de fantasmas que falamos. Será?
Sem qualquer sombra de dúvida, com muitos ecos e nomes na cabeça, esta é uma das nossas escolhas para o ano de 2025. 


quarta-feira, 19 de novembro de 2025

À Noite, na Floresta


 
























À noite, na floresta | Sarah Cheveau | Orfeu Negro


Entrar na floresta, ao cair da noite, não é para todos. Intuímos, por isso, que a protagonista que relata tamanha aventura é, no mínimo, destemida. A coragem é contagiante e por entre mistérios e riscos imprevisíveis, o leitor sente-se desafiado a acompanhá-la. Uma incursão misteriosamente bela, delineada em tons escuros e marcada pelo encontro com alguns dos magníficos habitantes desta floresta.












Árvores e mais árvores, pegadas, silhuetas... tudo se mistura na mescla de tons escuros que pintam a noite por ali. Um esquilo, uma raposa, uma lebre, um texugo, uma corça e, para culminar, o desassossego da aparição de um enorme javali. O suspense aumenta na proporção da crescente proximidade. O desfecho revela-se ao leitor como um sonho em forma de poema escrito e ilustrado.












A poesia e a singularidade do livro reside, acima de tudo, na inovadora técnica de Chevau para ilustrar o livro: o uso de carvão vegetal. De acordo com a autora, "um pauzinho descascado e queimado dentro de um recipiente dá um pedaço de carvão vegetal, que é uma ótima ferramenta para desenhar". A paleta de cores, nas suas diferentes tonalidades de castanhos e negros, resultante das diversas essências da madeira depois de queimada, conduz a um resultado sublime. E para que o leitor não tenha dúvidas, a autora brinda-nos com a inclusão de um mostruário de algumas das ferramentas utilizadas, de uma lista das cores de essências de madeira e de um maravilhoso herbário.












Numa narrativa predominantemente visual, beleza e poesia andam de mãos dadas a reboque de uma técnica inovadora que nos fascina e faz ter vontade de meter mãos ao trabalho! Sem dúvida, uma das nossas escolhas para este ano de 2025. 


quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Biblioteca de Bolso
























Biblioteca de Bolso | Maurice Sendak | Kalandraka

É preciosa!  Durante anos, a versão inglesa que temos foi dos livros mais cobiçados nos Hipopómatos. Agora, Biblioteca de Bolso de Maurice Sendak já anda por cá. Vê-la, finalmente, em portugês, é uma imensa alegria. Sendakianos de alma e coração, queremos festejar e partilhar com todos. Os que conhecem a sua obra e, acima de tudo, com os que estão menos familiarizados com ela. Porque ler Sendak é sempre um bem necessário. 




Canja de Galinha com Arroz, Vida de Crocodilo, João e Mais Oito Duarte são os quatro mini livros que integram a pequena caixa que exibe belas ilustrações de Sendak, aqui com um  toque vintage. Deles já falámos aquiaqui. Sendak ocupa várias páginas deste blogue e nunca nos cansamos de o revisitar.



Agora que o tesouro chegou, apoderem-se dele. As crianças adoram o formato mini dos livros. Alguns adultos também. A caixa faz as delícias de todos e pode levar-se para qualquer lado! Afinal, é a Biblioteca de Bolso. Tirem os livros e leiam com os miúdos. Muitas vezes. Antes de os  guardar, sorriam e lembrem-se que Sendak foi e será sempre um escritor fora da caixa.