sábado, 15 de junho de 2019

Todos os lugares são bons para escolher um livro. Ou dois...

Há uns dias, quando andávamos pela Feira do Livro de Lisboa,  ao passar por um grupo de estudantes,  a voz de comando de uma professora fez-nos abrandar o passo: Não entra ninguém no autocarro que não tenha comprado um livro. Eh lá!! Não nos conhecemos, mas foi um prazer cruzarmo-nos consigo, Senhora Professora!
Entre caras atónitas, ruído de fundo e argumentos de compra de gelados ou de não saber que livro escolher, houve de tudo. Claro, miúdos! Os gelados são de todos os dias, mas a Feira do Livro é só uma vez por ano! Se também andam por lá, nestes últimos dias, e não sabem o que escolher, deixamos algumas sugestões:


Aqui é um bom lugar
A adolescência é a fase da vida em que tudo é possível. A frase é de Ana Pessoa, a autora de SupergiganteO Caderno Vermelho da Rapariga Karateca e de Mary John, três magníficos livros que encantam os adolescentes (e não só!) que mergulham na sua leitura. Em jeito de diário gráfico, Pessoa volta a brindar o público juvenil com mais um livro que, desta feita, lhe valeu o Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2018. Com ilustrações de Joana Estrela, Aqui é um bom lugar foi, recentemente, editado pelo Planeta Tangerina. Nesta espécie de diário, a protagonista, uma rapariga de 17 anos, quase a chegar aos 18, regista coisas simples de todos os dias. Frases que ouve dentro e fora de casa, questões que estas lhe suscitam, pensamentos a propósito de tudo e de nada,  objectos que encontra na rua... 
De onde vem a imaginação? O que é um pensamento? são algumas das questões equacionadas por Teresa Azevedo que, dependendo dos estados de alma,  também assina como Teresa Tristeza, Beleza, Leveza... O humor, uma fina ironia, alguns deliciosos elementos intertextuais percorrem muitas das páginas deste diário que os desenhos de Joana Estrela tão bem complementam. 



Robot Selvagem
O Jardim Curioso, A Minha Professora é um Monstro, O Sr. Tigre Torna-se Selvagem são livros para os mais pequenos que tornaram o premiado autor Peter Brown conhecido entre nós. Num registo mais juvenil e já coroado de distinções, Robot Selvagem chegou a Portugal com a chancela da Fábula. Esta é uma história encantadora que nos leva até uma ilha selvagem, onde um grupo de lontras encontra um robot que lhes parece um monstro brilhante. Num ambiente hostil, o robot Roz tem de lutar pela sobrevivência mas, com o passar do tempo, as coisas tornam-se bem diferentes. Roz adopta um ganso bebé que fica sem família, torna-se amigo das lontras e dos outros animais, aprende a língua deles... Mas, um dia, a ilha é invadida por caçadores de robots e tudo muda. Amizade, solidariedade, respeita pela diferença, protecção do meio ambiente são alguns dos temas que  nos encantam nesta intensa e surpreendente história.


O Nascimento do Dragão
O encanto começa logo na capa e no formato. Quando  abrimos o pequeno tesouro, é impossível não nos rendermos à beleza das imagens e da caligrafia chinesa, ao toque do papel em que está impresso, à poesia da história que conta o nascimento da mítica e fantástica criatura. O Nascimento do Dragão, editado pela Kalandraka, é um livro bilingue (português e chinês) concebido a seis mãos por Wang Fei e Marie Sellier, autores do texto, e Catherine Louis, que  assina as ilustrações.  
Há muito, muito tempo, quando os dragões ainda não existiam, os homens, as mulheres e as crianças da China caçavam, pescavam e viviam em tribos sob a protecção dos espíritos benfeitores, que se assemelhavam aos animais com que viviam desde sempre. Assim, os pescadores tinham escolhido o peixe, os habitantes das montanhas, o pássaro.... A defesa de cada um desses espíritos protectores, rapidamente levou homens e mulheres e travarem guerras atrás de guerras. Mas, um dia, as crianças de todas as tribos da China fartaram-se e declararam guerra à guerra. Decidiram então criar um animal que protegesse todos os homens em simultâneo : um animal ágil como o peixe, livre como o pássaro, rápido como o cavalo, astuto como a serpente e forte como o búfalo. Assim nasceu o  fabuloso animal a que deram o nome de Dragão. Um livro irresistível que encanta miúdos e graúdos, com direito a surpresa final.



Um Inverno Perfeito 
Depois de Estranhas Criaturas, a Orfeu Negro traz para Portugal mais um livro de Cristina Sitja Rubio. A floresta e os animais voltam a estar no centro da história. Com a proximidade do inverno, o ritmo da floresta e de cada um dos seus habitantes transforma-se. É o período em que todos se preparam para uma longa sesta. Bom, nem todos... Na verdade, o texugo não parece ter sono e tem mil planos para os meses que se avizinham. O problema é que incluem os amigos e, à medida que vai batendo à porta de cada um, tanto ele como os leitores vão percebendo que já todos dormem. Resta-lhe ocupar o tempo com o que pode fazer sozinho. Ler, desenhar, tricotar... mas a solidão deixa-o triste.  Sente a falta dos companheiros. A sua persistência não deixa de dar frutos e o texugo acaba por encontrar quem, como ele, não tem necessidade de dormir no tempo frio. Depois, é só somar. A
os amigos muito dorminhocos junta, agora, os pouco dorminhocos.
Uma deliciosa e divertida história, contada em jeito de fábula, que nos fala dos hábitos da vida na floresta e de  cada um dos seus habitantes. Os livros de Rubio são narrativas visuais de extrema beleza. A riqueza cromática, a simplicidade do traço, os grandes planos... deleitam pequenos e grandes leitores em todas as estações do ano.



Coimbra e Quito
Adoramos estas viagens de Pato. Com as férias à porta, bem se podem inspirar nos últimos dois livros da colecção A Minha Cidade, editada pelo Pato Lógico. É um privilégio fazer parte desta visita guiada a Coimbra e a Quito, na companhia de dois prestigiados guias! Catarina Sobral revista a sua cidade, oferecendo-nos uma viagem feita das sua  memórias de menina e moça. Nascida na emblemática Rua da Sofia, relembra os recantos da cidade onde nasceu também para as artes. Recorda a Escola Secundária Avelar Brotero, a Baixa como o lugar das primeiras castanhas assadas, o Museu da Ciência, o Teatro Académico Gil Vicente... Volta a subir os degraus da íngreme Quebra-Costas, relembrando o lugar onde se situava a sua livraria preferida, e demora-se nas voltas pela Universidade, que parece conhecer como ninguém. 
Roger Ycaza, músico e  ilustrador, com um trabalho que nos fascina, leva-nos pelos lugares mais emblemáticos de Quito, a capital do Equador. Com uma paleta de cores que nos relembra os vulcões que cercam a cidade, conduz-nos pela Plaza del Teatro, pela Basílica del Voto Nacional ou pelo Parque de la Vicentina. Depois de uma paragem numa tentadora pastelaria, temos tempo para entrar no Centro Cultural Carlos Fuentes e desfrutar da sua livraria. A música não podia faltar. O ponto de encontro tanto pode ser o bar Ananké, onde podemos ouvir música ao vivo e  beber um shot de cana, ou o Museo del Rock Ecuatoriano, único lugar com música 100% nacional. Ponham os miúdos a visitar lugares deliciosamente ilustrados e a identificá-los no mapa!  Não esqueçam: 1 mapa, 12 sítios.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Cândido e os Outros


"A cabeça do Cândido parece uma que vi do Picasso. Uma que também não está em cima dos ombros".
A observação é de um rapazito de 6 anos a quem lemos Cândido e os outros, o livro vencedor do XI Prémio Internacional de Compostela para Álbuns ilustrados e editado pela Kalandraka.


As conversas são como as cerejas e apesar de o nosso interlocutor só contar como gente há meia dúzia de anos, acabámos falando de figuras geométricas, de cubos, da importância que eles  tiveram na obra de Picasso e de como ele, João, parecia estar a encontrar algumas semelhanças no livro que lhe mostrávamos. Cândido e os outros, com texto de Fran Pintadera e ilustrações de Christian Inaraja, acabou por se revelar um ponto de encontro. Um lugar de celebração da diversidade.


Cândido não é como os outros. Há dias em que se sente estranho, diferente, extravagante, esquisito, bizarro... Há alturas em que se sente incompreendido e outras em que não compreende nada... Ocasiões em que se sente pequeno, deslocado... Momentos  em que sente não estar à altura das circunstâncias, em que tenta passar despercebido... 


Cândido pode ser diferente, mas é sensível ao olhar e à opinião dos outros. Não gosta de ser o centro das atenções, mas também não gosta de parecer invisível. E adorava poder mostrar aquilo que sente.
Meio a medo, o João disse-nos que, às vezes, sentia algumas daquelas coisas.
 - Ah, sim? Nós também!- respondemos. Afinal, todos podemos ser como o Cândido. Ou como os outros, dependendo dos dias. 


O João tinha razão. Há páginas com elementos que nos lembram o cubismo. Há páginas onde a diversidade surge reflectida na paleta de cores. Outras que acompanham os estados de alma da personagem. As formas, os jogos de tamanhos e perspectivas,  a disposição de cada figura, de cada peça, ao longo do fundo branco das páginas caminham de mãos dadas com as frases curtas  e directas que falam de Cândido.  De todos nós. Do respeito pela diferença, essa temática tão universal quanto premente. 


João tornou-se amigo de Cândido. Enquanto esteve por cá, abraçou-o sempre, acabando por levá-lo para casa. Afinal, Cândido é  um bocadinho de todos nós. E único, como cada um dos seus leitores.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Hello Lighthouse. Livros que nos iluminam


Quando, no verão passado, nos cruzámos com  Hello Lighthouse, de Sophie Blackall, pensámos que só podia tratar-se da cereja no topo do bolo. Tínhamos acabado de percorrer a região da Nova Scotia, no Canadá, e visitado alguns dos mais de 160 faróis que por ali existem. Entre eles, Peggy’s Cove ou Peggy's Point, considerado o mais famoso e fotografado. O livro pareceu-nos uma bela homenagem a todos os que, de forma bem solitária, durante anos, dedicaram a vida a guardar e a assegurar o funcionamento daquelas "casas de luz".


Visitar um farol por dentro significa viajar no tempo e imaginar  a vida daqueles que  viveram confinados a espaços tão pequenos e isolados. Percebemos as rotinas dos seus guardiões, conhecemos os espaços onde passavam os dias e as noites, onde dividiam a vida com as famílias. Uma vida contada ao pormenor no diário de bordo de cada faroleiro.


Desta feita, tivemos direito a uma visita guiada por Sophie Blackall, magnificamente ilustrada e extraordinariamente bem documentada. As rotinas e os factos relatados revelam a dimensão da abnegação destes guardiões e das suas famílias, não deixando ninguém indiferente.
A chegada de um novo faroleiro, os arranjos e ajustes que faz, a solidão de um tempo que custa a passar, a chegada da mulher, o nascimento do filho, as estações do ano...são detalhes descritos primorosamente por Blackall, que nos faz viver cada um deles de forma singular.


Hello Lighthouse viajou do Canadá para Sintra em agosto, passando a ter lugar de destaque na Casa dos Hipopómatos. Em Janeiro, ficámos imensamente felizes por saber que tinha sido o livro vencedor da Caldecott Medal


Esta é a segunda vez que Blackall vence a Caldecott Medal, tendo, em 2016, arrecadado a distinção com Finding Winnie : The True Story of the World's Most Famous Bear, um livro que todos os fãs de Winnie deviam conhecer. Será que,  um destes dias,  atravessa o oceano?