quinta-feira, 24 de novembro de 2022

O Meu Pai Devia Ser Bromatólogo



O Meu Pai Devia Ser Bromatólogo | Nazaré de Sousa e Renata Bueno | Hipopómatos Edições

As pessoas passam a vida a dizer que estou um crescido. Às vezes, até perguntam o que ando a comer. A minha família responde logo: histórias. 

O Meu Pai Devia Ser Bromatólogo é uma divertida viagem pelo mundo das histórias, contada por um pequeno rapaz que adora prová-las. Frederico não é esquisito e acaba por provar, também, algumas folhas de dicionários, pincelando a história com grandes doses de humor. Pelo meio, tem tempo para se tornar um vegetariano completo, aconselhar a bromatologia ao pai e descobrir que, apesar das brigas próprias da infância, os irmãos se amam incondicionalmente.






















Um livro que é, simultaneamente, um convite e um desafio ao leitor para descobrir e revisitar algumas  histórias que fazem parte do nosso imaginário, como “Moby Dick”, “Onde Vivem os Monstros”, “Quando Teodoro Encolheu” ou o “Capuchinho Vermelho”. Uma viagem para leitores de todas as idades. Apanhem boleia!


sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Terra de Ninguém

 




Terra de Ninguém | María José Floriano e Federico Delicado | Kalandraka


Fica a cerca de 15 Km de Madrid, uma curta viagem de carro até à capital espanhola. Mas poucos serão os que já ouviram falar de Cañada Real, considerado o maior bairro da lata da Europa. Em 2018, iniciou-se o desmantelamento da parte tida como núcleo, El Gallinero. Voltámos a ouvir falar do bairro dois anos depois, quando a imprensa noticiou que se encontrava sem electricidade há mais de um ano. Água quente, aquecimento, luz e todas as pequenas e grandes coisas que dela dependem não existiam por ali. Existiria alguma coisa? Em plena época pandémica, as crianças não conseguiam acompanhar a escola porque não tinham como carregar os poucos dispositivos electrónicos que permitiam segui-la. Será possível excluir ainda mais os que já nasceram excluídos?



Em Novembro do ano passado,  a TSF, através da sua correspondente em Madrid,  fazia uma grande reportagem sobre Cañada Real, os seus moradores e as condições miseráveis que lhes escurecem os dias. A electricidade tinha sido cortada em Outubro de 2020. Mais de quatro mil pessoas, das quais 1800 crianças, viviam assim há mais de 400 dias.  As autoridades que procederam ao corte da electricidade invocaram o consumo excessivo devido à existência de várias plantações de cannabis. Os moradores não negavam saber da sua existência, mas nunca tinham assistido a qualquer intervenção policial para lhes pôr termo. A coincidência no tempo de novos projectos de construção para áreas circundantes levantou suspeitas. O realojamento anunciava-se para alguns. Uma espécie de "dança de coxos" onde os desfavorecidos nunca deixam de o ser.




















Quando abrimos este livro e percebemos o tributo às crianças de El Gallinero, temos dificuldade em fechá-lo ou esquecê-lo. Maria José Floriano, para além de escritora, é também jornalista. A dedicatória do seu livro parece conter toda a história:

Ao jornalismo, ofício trémulo. À infância, no seu olhar vivem todas as artes.



















A história é contada por um pequeno rapaz. Consciente do lugar onde vive mas que não escolheu, é pela sua voz que conhecemos todos os perigos, riscos, medos... Mas também a esperança de que a vida possa não ser só isto. 
















Uma esperança que ecoa à medida que vai metaforizando a vida. No seu olhar de menino, alimentado pela imaginação, o bairro é um circo onde há toda a espécie de artistas. Acrobatas, trapezistas, contorcionistas... ali todos têm uma profissão. Caminhar por entre vidros é uma arte para algumas estrelas de circo.  As crianças de Cañada Real não lhes ficam atrás. Têm igual destreza quando se desviam das ratazanas, das seringas...  quando procuram o equilíbrio entre os fios de cobre... quando assobiam ao vento em cima dos carris do comboio. São igualmente bons quando saltam os muros de algumas casas, pulam por cima dos carros da polícia ou se contorcem pelos buracos das vedações.
















Ao pai do rapaz está reservado o papel de Mágico. Há muito que prepara o Grande Truque, algo para que necessita de uma série de candeeiros e de lâmpadas especiais. Mas isso é um segredo. Por sua vez, a mãe é a Mulher- Bala. Para além de refúgio do pequeno, é aquela que acalenta o sonho de se projectar para além dos muros e  alcançar a Lua. Não gosta nada da ideia do tal truque com que o pai ocupa o tempo naquele campo verde com portas.



O rapaz conta-nos que, um dia, o bairro ficou sem luz. Os artistas sofreram. O espectáculo também. O pai teve de abandonar os planos do grande truque. Já não tem de dormir no armazém cheio de plantas, iluminado pelas tais luzes que mais pareciam um fogo de artifício.  Agora que terá de mudar de ofício, gostaria que ele se tornasse palhaço.




















Só a imaginação e a criatividade dos pequenos artistas não parece intimidar-se com a escuridão. É nelas que se alicerça a resiliência daqueles miúdos. A porta de uma máquina de lavar, um sofá, um chapéu... são suficientes para montar o cenário, a brincadeira. Mascaram-se de qualquer coisa, fazem mímica, montam o espectáculo. Há quem diga que, em breve, terão de mudar para outro lugar. O rapaz tem medo e alguma esperança. Continuarão acrobatas, malabaristas, contorcionistas? 










Delicado dispensa apresentações. Conhecemos-lhe o magnífico traço realista de muitos outros livros como Ícaro, Uma Longa Viagem ou O Bolero de Ravel. Aqui, mostra-nos a vida tal como ela é para estas gentes. Para as crianças de  El Gallinero e de todos os Cañada Reais. Contar a sua história não faz com que sejam menos desfavorecidos, mas faz com que sejam menos esquecidos. Partilhá-la com os mais novos, mais do que  alertá-los para a pobreza e marginalidade dos que vivem em situação de exclusão, é mostrar-lhes que há um caminho feito de solidariedade que, desde cedo, devemos percorrer. Para lutar por um mundo mais justo e inclusivo.