Tudo por aqui aparenta ser comum. O gato, a família, a casa, as rotinas. O que nada tem de comum é a mestria com que Joana Estrela, alicerçada na simplicidade das coisas de todos os dias, constrói uma história intensa e tocante, levando o leitor a apropriar-se desta ou daquela vivência. Quem tem animais domésticos conhece a inevitabilidade da dor quando chega o momento de nos deixarem. Nesta história, a longevidade do gato faz adivinhar a proximidade do fim.
quinta-feira, 10 de outubro de 2024
Gato Comum
sexta-feira, 7 de junho de 2024
Quando é que a Hadda volta?
Quando é que a Hadda volta? | Anne Herbauts | Orfeu Negro
Criadora de um universo delicado, belo e poético, Anne Herbauts é uma das nossas autoras de eleição. Somos admiradores confessos do seu trabalho desde o primeiro álbum, Que fait la lune, la nuit? e não hesitamos em afirmar o nosso fascínio pelo seu universo inigualável. A chegada de um dos seus livros, pela mão da Orfeu Negro, faz-nos acalentar o desejo de que muitos outros possam suceder-se.
Detentora de um léxico gráfico inconfundível, Herbauts pega nas pequenas coisas da vida e eleva-as a uma dimensão profunda e filosófica. É nessa grandeza das coisas pequenas, que se revelam verdadeiramente importantes, que envolve os leitores, oferecendo-lhes um jogo sublime de emoções e arrebatamento. Os seus livros estão repletos de "portas semiabertas", cabendo-nos a decisão de as abrir ou fechar. São caminhos por desbravar, questões que se suscitam, interrogações que perduram e lugares impensáveis de visitar.
quinta-feira, 9 de maio de 2024
Debaixo Da Mesma Lua
Debaixo da mesma Lua | Jimmy Liao | Kalandraka
Há onze anos escrevíamos aqui sobre o fantástico mundo de Jimmy Liao. Na altura, referíamos que o autor é "mestre em pintar sentimentos ou estados de alma. A solidão, a melancolia ou a esperança chegam até nós, leitores, através de um simples jogo de cores ou de uma carruagem vazia. O sentido ou dessentido da vida é o fio condutor que nos prende sofregamente a cada livro que descobrimos".
Nunca saberemos quanto tempo passou. Mas a espera é sempre movida a esperança e o surpreendente final que Liao imaginou é revelador disso mesmo. Uma delicada, subtil e fascinante história sobre os infortúnios de uma guerra e de como eles nos podem atingir a todos. A lua é a mesma, mas a cor do céu não é igual para todos.
sexta-feira, 19 de abril de 2024
O Ponto Em Que Estamos
O Ponto Em Que Estamos | Isabel Minhós Martins e Bernardo P. Carvalho | Planeta Tangerina
A dupla é de peso e o livro também. Aqui é tudo grande. Desde as coisas existentes na natureza às atrocidades cometidas pelos homens. A realidade é dura e o desafio que enfrentamos consiste em saber a velocidade e a proporção com que uns se irão sobrepor aos outros. Há por aqui um grito de alerta. De um planeta (Tangerina) para outro. Para gente de todas as idades.
Montanhas de saldos, oceanos de promoções, florestas de preços baixos...
Podíamos estar de passagem por um qualquer centro comercial, numa rua amontoada de lojas, numa de muitas superfícies atulhadas de inutilidades... mas estamos nas nossas vivências diárias, na rotina dos nossos dias e conseguimos ver tudo isto quando prestamos atenção. Falar de alterações climáticas já não é só urgente. É preciso actuar, mudar hábitos, renovar mentalidades, sensibilizar os mais novos. E os mais velhos. Este livro é um ponto de encontro obrigatório para todas as gerações.
Carros mais pesados que hipopómatos, perdão, que hipopótamos. Telemóveis de novíssima geração, enxames de carregadores avariados, baleias com desconto em cartão, vulcões de sapatos por estrear...
A opção pelas coisas grandes existentes na natureza é tão genial quanto os incríveis jogos de palavras que lhe permite obter. O resultado é a gigantesca clareza com que se evidenciam os grandes males de que padece o nosso planeta. O desperdício ou o consumo desenfreado, por exemplo, são detectados, de imediato, neste pequeno grande livro onde há arquipélagos de roupa fora de moda, cardumes de bifes, iogurtes, abacates, cascatas de comida abandonada, rebanhos (e mais rebanhos) de embalagens, cordilheiras de copos descartáveis...
Na contracapa do livro, em jeito de antecipação, podemos ler:
quinta-feira, 21 de março de 2024
Casa de Família
Casa de Família | Sophie Blackall | Fábula
Blackall é uma daquelas autoras que seguimos incondicionalmente. Com mais de cinquenta livros editados, premiada por várias vezes, incluindo a Caldecott Medal com o seu Olá Farol!, continua a deslumbrar-nos a cada novo livro.
Depois de aqui termos falado do nosso fascínio por livros sobre casas a propósito de Casa, de Carson Ellis, a chegada desta Casa de Família não podia ser mais oportuna. Inspirada numa quinta em ruínas do séc.XIX, localizada no estado de Nova Iorque, a autora decidiu reconstruir no papel o que o tempo tinha destruído, celebrando assim a vida e as rotinas diárias da família com 12 crianças que ali viveu. Para além dos seus habituais materiais, tinta da China, aguarela, guache e lápis de cor, Blackall utilizou ainda toda a espécie de objectos encontrados nas ruínas da casa: papel de parede, cadernos, jornais, sacos de papel pardo, roupas, lenços, cortinas e cordéis. O resultado é um livro magnífico onde, nós leitores, queremos morar vezes sem conta.
A imensidão do campo e o estilo rústico dão as boas-vindas ao leitor, mas é a família numerosa que nos recebe a posar para o retrato de família que prende o nosso olhar. As crianças, que são muitas, enchem a casa toda e despertam a nossa curiosidade. Queremos conhecer a vida desta família numerosa e Blackal conduz-nos com mestria. As brincadeiras, as travessuras, os risos e os choros, as leituras, os sonhos... vão sendo revelados ao leitor através de pequenos blocos de texto em painéis amarelecidos e das deliciosas ilustrações que se espraiam a cada página, evidenciando múltiplos detalhes do dia a dia. Ilustrações feitas de camadas, como nos conta a própria autora. Umas mais visíveis do que outras, como acontece com as histórias à medida que são contadas e recontadas ao longo dos anos.
Ao leitor é permitido conhecer as escolhas que cada um fez. As profissões, a diversidade e a riqueza dos caminhos de todos e de cada um. Assistimos ao momento em que a filha mais nova, já velhinha, deixa a casa. Acompanhamos a saída, detectamos os laços que continuam a unir os irmãos e observamos a porta entreaberta para um sem número de memórias.
Histórias, acrescentamos nós, que perduram neste precioso e incrível livro. Feito de retalhos e de afectos, de memórias reais e imaginadas por quem quer perpetuar vivências e um tempo passado num lugar que agora é seu. Uma casa onde, independentemente da idade, todos vamos querer passar muito tempo.
quinta-feira, 7 de março de 2024
Casa
Casa | Carson Ellis | Orfeu Negro
As magníficas ilustrações, que nos deslumbram na sua paleta de tons sépia, vermelho-tijolo e cinzas azulados, são acompanhadas por pequenos apontamentos de texto em jeito de legendas.