Sua Alteza, a Princesa do Lodo | Beatrice Alemagna | Orfeu Negro
Sua Alteza, Beatrice Alemagna está de volta. Pela mão da Orfeu Negro, chega mais um livro da prestigiada e aclamada autora. Sem surpresa, ainda que se trate de um dos mais recentes, soma já vários prémios. O fascínio da obra desta "fazedora de livros", como se auto intitula, parece inesgotável.
Em 2015, escrevíamos aqui que a obra de Alemagna parece estar sempre aberta aos mais fracos, aos mais desprotegidos, aos mais incompreendidos, aos mais pequenos... E é essa componente filosófica que a torna ainda mais encantadora. A aceitação das diferenças ou a forma como moldamos a existência, assente nas nossas próprias fragilidades, confere-lhe ainda um pendor existencialista, onde acabamos por nos rever e encontrar.
O seu mundo é povoado de personagens que, não só expõem as suas fragilidades, como, com naturalidade, acabam por encontrar forma de lidar com elas. À semelhança das histórias, as figuras criadas por Alemagna exibem sempre algo de poeticamente real. Algo que nos faz regressar à infância e deambular pelos retalhos da memória que dela guardamos.
Yuki, a miúda que narra esta história, tem a certeza de que o irmão não gosta dela. E também não tem dúvidas de que isso se deve ao facto de ser malcriada, capaz de chorar, gritar e de dar murros no chão. Não vislumbra outra razão para o irmão a ir buscar à escola e, praticamente, não lhe dirigir a palavra. Segundo ela, o rapaz "fecha-se dentro do capuz", comportando-se como uma autêntica múmia. Irritada com tanto silêncio, acaba atirando as chaves de casa para dentro de uma caixa de esgoto que encontra destapada. O arrependimento é imediato, mas não lhe resta alternativa que não seja descer ao mundo subterrâneo. É o início de uma extraordinária viagem, que nada fica a dever à magia de outras que atravessam o nosso imaginário.
Depois da longa descida, a anfitriã do mundo do lodo aguarda-a. É enorme, suja, e pinga lama por todos os lados. Com arbustos em vez de cabelo e raízes no lugar das mãos, Sua Alteza, a Princesa do Lodo propõe-se fazer uma visita guiada pelo seu mundo pegajoso. Por entre várias aventuras, Yuki é conduzida pela Floresta das Sombras, ficando a conhecer lugares como o Museu da Fúria ou a Raivoteca. No primeiro, estão todas as coisas que as pessoas atiram quando estão furiosas e, no segundo, a quantidade e a diversidade de raivas guardadas deixam a nossa miúda incrédula. O humor está presente ao longo das páginas, mostrando que, até nas alturas difíceis da vida, ele é importante.
Com uma paleta de cores única e inconfundível, que só ela parece conseguir, Alemagna faz aqui um uso preponderante e mais do que apropriado dos seus tons de terra, atravessados pela beleza do azul e com alguns apontamentos de vermelho e amarelo. Como sempre, há toda uma harmoniosa simbiose entre palavras e ilustrações, que faz com que o seu trabalho denote uma coerência e uma estética inconfundíveis. Nunca ficando defraudado, o leitor volta a deslumbrar-se com a entrada num mundo encantador e mágico em todos os sentidos. Que venha o próximo!
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