sexta-feira, 26 de junho de 2026

O Jogo do Ludo


 












O Jogo do Ludo | Maria Girón | Kalandraka


Maria Girón tornou-se visita assídua nas nossas livrarias e os mais pequenos agradecem. Mais conhecida pelo seu Pim Pam Pum, livro vencedor do XVII Prémio Internacional de Compostela para Álbuns Ilustrados, são vários os livros da autora que nos têm chegado pela mão da editora Kalandraka. Cinco Ratinhos,  Minha Guia, Meu Capitão, Migrantes e o recém-chegado De Braços Abertos são livros com a sua assinatura, a solo ou como ilustradora. Pelo meio, ainda fomos brindados com este delicioso Jogo do Ludo.
















O conhecido jogo de tabuleiro é apenas um dos ingredientes da receita de uma inteligente e encantadora narrativa sobre a amizade  e  o prazer de partilhar as pequenas grandes coisas da vida. Utilizando a técnica da repetição, tão do agrado dos mais pequenos, e surpreendendo-nos  a meio com uma estrutura circular, Girón brinda-nos com mais uma história deliciosamente criativa e cheia de humor. Uma daquelas a que os mais pequenos vão querer voltar muitas vezes.
















As personagens são quatro amigos - a Gata, a Coelha, o Pato e o Texugo-  que vivem não muito longe uns dos outros e que cultivam a amizade. Numa bela manhã em que o sol ilumina o branco da neve, a pequena Gata levanta-se a pensar que aquele é o cenário ideal para beber um copo de leite bem quente! Mas o leite saberia melhor se fosse bebido com mais alguém. Vestiu o casaco, enfiou o cachecol, o gorro e pôs o leite num cesto, dando início à caminhada. 















O mapeamento das casas dos quatro amigos é-nos  revelado logo na dupla folha de rosto, onde ficamos a conhecer a casa do rio, a casa da árvore, a casa do lago e a da colina. De casa em casa, vão-se juntando e cada um tem algo para partilhar, aprimorando o dia e o convívio. 















Quando chegam à última casa, a do Texugo, ficam surpreendidos por ele não estar. É aqui que voltamos ao princípio da história porque o Texugo teve a mesma ideia e por esta altura está à porta da amiga gata. Munido, claro está, do jogo do ludo. Também ele intrigado por a amiga não estar em casa, são as pegadas que encontra que lhe fornecem as pistas para fazer todo o percurso até ao alegre e divertido reencontro.                                                         















A simplicidade, as cores vibrantes apostas num cenário coberto pelo branco da neve, as personagens humanizadas, despretensiosas e magnificamente conseguidas, coexistem na perfeição para deleite dos leitores.


Reunidos à volta da mesa, recheada com algumas iguarias, os amigos riem e divertem-se cantando ao som do ukulele e, claro, jogando Ludo. E o toque realista que Girón incute neste cenário é tal que todos nos sentimos em casa. Este é, sem dúvida, um lugar onde nos apetece estar, ainda que tenhamos de vestir o casaco, enfiar o cachecol, o gorro e atravessar a neve para lá chegar. 


terça-feira, 9 de junho de 2026

Sua Alteza, a Princesa do Lodo

 






















Sua Alteza, a Princesa do Lodo | Beatrice Alemagna | Orfeu Negro


Sua Alteza, Beatrice Alemagna está de volta. Pela mão da Orfeu Negro, chega mais um livro da prestigiada e aclamada autora. Sem surpresa, ainda que se trate de um dos mais recentes, soma já vários prémios. O fascínio da obra desta "fazedora de livros", como se auto intitula, parece inesgotável.






















Em 2015, escrevíamos aqui que a obra de Alemagna parece estar sempre aberta aos mais fracos, aos mais desprotegidos, aos mais incompreendidos, aos mais pequenos... E é essa componente filosófica que a torna ainda mais encantadora. A aceitação das diferenças ou a forma como moldamos a existência, assente nas nossas próprias fragilidades, confere-lhe ainda um pendor existencialista, onde acabamos por nos rever e encontrar.























O seu mundo é povoado de personagens que, não só expõem as suas fragilidades, como, com naturalidade, acabam por encontrar forma de lidar com elas. À semelhança das histórias, as figuras criadas por Alemagna exibem sempre algo de poeticamente real. Algo que nos faz regressar à infância e deambular pelos retalhos da memória que dela guardamos. 























Yuki, a miúda que narra esta história, tem a certeza de que o irmão não gosta dela. E também não tem dúvidas de que isso se deve ao facto de ser  malcriada, capaz de chorar, gritar e de dar murros no chão. Não vislumbra outra razão para o irmão a ir buscar à escola e, praticamente, não lhe dirigir a palavra. Segundo ela, o rapaz "fecha-se dentro do capuz", comportando-se como uma autêntica múmia. Irritada com tanto silêncio, acaba atirando as chaves de casa para dentro de uma caixa de esgoto que encontra destapada. O arrependimento é imediato, mas não lhe resta alternativa que não seja descer ao mundo subterrâneo. É o início de uma extraordinária  viagem, que nada fica a dever à magia de outras que atravessam o nosso imaginário.























Depois da longa descida, a anfitriã do mundo do lodo aguarda-a. É enorme, suja, e pinga lama por todos os lados. Com arbustos em vez de cabelo e raízes no lugar das mãos, Sua Alteza, a Princesa do Lodo propõe-se fazer uma visita guiada pelo seu mundo pegajoso. Por entre várias aventuras, Yuki é conduzida pela Floresta das Sombras, ficando a conhecer lugares como o Museu da Fúria ou a Raivoteca.  No primeiro, estão todas as coisas que as pessoas atiram quando estão furiosas e, no segundo, a quantidade e a diversidade de raivas guardadas deixam a nossa miúda incrédula. O humor está presente ao longo das páginas, mostrando que, até nas alturas difíceis da vida,  ele é importante.






















Sua Alteza tem um papel preponderante nas descobertas que Yuki acaba por fazer no mundo lamacento. Acerca de si, do irmão, da complexidade dos sentimentos, da forma como gerimos as emoções... Yuki acaba a aventura quase tão suja como a Princesa, mas também é verdade que regressa ao mundo de cima bem mais confiante e feliz. 

























Com uma paleta de cores única e inconfundível, que só ela parece conseguir, Alemagna faz aqui um uso preponderante e mais do que apropriado dos seus tons de terra, atravessados pela beleza do azul e com alguns apontamentos de vermelho e amarelo.  Como sempre, há toda uma harmoniosa simbiose entre palavras e ilustrações, que faz com que o seu trabalho denote uma coerência e uma estética inconfundíveis. Nunca ficando defraudado, o leitor volta a deslumbrar-se com a entrada num mundo encantador e mágico em todos os sentidos. Que venha o próximo!