quinta-feira, 18 de março de 2021

Quando Eric Carle e Anthony Browne nos visitam ... É uma festa!















Há muito tempo que queríamos receber esta mensagem secreta em português! A Mensagem Secreta de Aniversário de Eric Carle, agora editada pela Kalandraka, é um livro que nos acompanha há muitos anos e que faz as delícias dos mais pequenos. Já perdemos o conto às vezes que pomos os mais pequenos a ajudar o Tim a decifrar a misteriosa mensagem que lhe foi deixada debaixo da almofada na véspera do seu aniversário. E, claro, a encontrar o presente a que ela conduz.












Carle oferece-nos uma aventura partilhada entre o rapaz da história e os pequenos leitores que, não só têm de decifrar as enigmáticas pistas como percorrer todo o caminho envolto em mistério. A viagem faz-se de noite, por entre estrelas, morcegos e grutas, mas os possíveis sobressaltos são esquecidos assim que Tim e a pequenada encontram o presente de aniversário.

















Cartonado e de pequeno formato como pedem as mãos dos seus destinatários, o livro reserva-lhes, ainda, a surpresa de as páginas se apresentarem recortadas com a forma do objecto que representam. Num livro que teve a sua primeira aparição nos anos 70, as formas geométricas e a orientação espacial são, como sempre, introduzidas com grande sabedoria pelo mestre da cor. Inspirem-se e deixem por aí algumas mensagens para a criançada decifrar pela casa toda.









































Não é uma estreia, mas a reedição de um dos livros de Anthony Browne de que mais gostamos merece que o festejemos. Pela Floresta é uma das viagens mais deliciosas e incríveis que podemos fazer floresta dentro. Ainda que a capa e as primeiras páginas nos revelem que o protagonista da história é um rapaz, quase não necessitamos abrir o livro para saber que ele nos remete para o universo da Capuchinho Vermelho. 




O magnífico inicio de história parece traduzir-se num presságio de que algo está para acontecer. O pai não está em casa e essa separação não é do agrado do rapaz. O que se segue é-nos familiar. A a avó está doente e a mãe pede que lhe leve um bolo. Para chegar a casa da avó há dois caminhos possíveis. O mais longo, que demora séculos, e o mais curto, pelo meio da floresta. A mãe, obviamente, disse-lhe para ir pelo caminho mais longo e seguro. Não que o rapaz fosse desobediente, mas como queria estar em casa quando o pai chegasse,  aventurou-se pela floresta. 

























Browne conduz-nos por uma floresta repleta de mistério, plena de detalhes e metáforas visuais. O lobo andará, certamente, por lá, mas quem o rapaz dos sapatos vermelhos encontra, a cada virar de página, são personagens bem nossas conhecidas de outros contos. O preto e branco eleitos pelo autor adensam o mistério, a inquietude e o medo do rapaz que acaba por chegar a casa da avó não só com os simbólicos sapatos vermelhos com que saiu de casa, mas também com um casaco de capuchinho vermelho com que se cruzou no caminho. Curiosos? 





Para os que ainda não conhecem a história,  esta é a altura em que devem agarrar nas crianças, abrir o livro, percorrer a floresta, enfrentar os medos e corajosamente entrar em casa da avó...


terça-feira, 9 de março de 2021

O Destino de Fausto. Uma Fábula Ilustrada



Não será por acaso que se chama Fausto. O mito vem-nos à memória, Fausto vendeu a alma ao diabo. Relembramos Gothe e o indissociável Drº Fausto. Mas este é outro. É o Fausto a quem Oliver Jeffers traçou o destino. Uma fábula ilustrada sobre um pequeno ditador que almeja ser dono do mundo. Com o toque de genialidade que todos reconhecemos ao autor, o último livro de Jeffers chega, mais uma vez, pela mão da Orfeu Negro.







































Tratando-se de uma fábula, o leitor cedo intui que o destino de Fausto terá algo de trágico. Mas nem por isso deixamos de nos sentir inclinados a torcer pela má sorte do protagonista. Para isso muito contribui a ambição desmedida  que este vai exibindo em crescendo desde que abrimos a primeira página do livro.

Como na vida, a ordem não é indiferente e a história começa com o pequeno homem, a quem não falta a gravata e a barriga proeminente, a subjugar os "aparentemente" mais fracos. Uma pequena e delicada flor, uma pacata e doce ovelha,  uma árvore que acaba por se vergar perante o reiterado anúncio: 

- Tu és minha!







































Já dono da flor, da ovelha e da árvore, Fausto continua insaciável na sua ânsia de poder. Cada vez mais confiante e determinado, vai reclamando para si tudo o que se atravessava no seu caminho. Um campo, uma floresta, um lago. Ninguém fica indiferente à ira demonstrada pela criatura sempre que lhe oferecem resistência, como sucede com a montanha. Há sempre os que resistem! Ainda que seja por pouco tempo.

A ganância de Fausto vai crescendo na mesma proporção do desejo do leitor de conhecer o inevitável fim que Jeffers lhe reservou. Não sem que antes nos tenhamos interrogado se a flor e a ovelha de Jeffers terão algo a ver com as do Principezinho...













Quando vemos o homem fazer-se ao mar, adivinhamos, desde logo, que a coisa tem tudo para não correr bem.  A vontade de saber o que nos reservam as páginas seguintes é ainda maior.


- Tu és meu, mar! 





























O diálogo entre Fausto e o mar tem tanto de previsível como de arrebatador. Sábio, o mar começa por optar pelo silêncio. Mas a prepotência nunca se deu bem com o silêncio ou a indiferença e isso só fez aumentar a raiva de Fausto. O seu interlocutor reage com a calma própria dos que sabem de que lado está a razão. 

- Mas tu nem gostas de mim - disse o mar. 

Fausto afirmava que estava enganado, que gostava muito dele. 

Como nós, o mar sabia que Fausto estava a mentir e desferiu a pergunta fatal:

- Como podes gostar de mim, se não me compreendes?

Incapaz de controlar a sua raiva, Fausto não via a hora de mostrar quem mandava ali.

- Se queres bater o pé, então vem mostrar-me como se faz, para que eu perceba. E foi assim que Fausto acabou. A bater o pé ao mar.  E, como não sabia nadar...
























Jeffers recorreu inteligentemente às páginas em branco para transmitir ao leitor o isolamento de Fausto face ao mundo. À sua volta, tudo é vazio  e frio. Em contrapartida, o contraste com as cores fortes que utiliza para pintar o mar reforça ainda mais as suas beleza e grandeza. E não  deixa margem para dúvidas quanto ao posicionamento do leitor nesta fábula.

Sim, ficamos aliviados! Até felizes, com a justeza do destino de Fausto. Com tanto ditador no mundo, não precisávamos de mais um. 

Jeffers sabe disso, e em jeito de moral, brinda-nos com algumas conclusões tão óbvias quanto sublimes. 

O mar ficou triste por Fausto, mas continuou a ser o mar. 

A montanha também voltou à sua vida normal. 

O lago, a floresta, o campo a árvore, a ovelha e a flor continuaram a ser como eram. 

Porque o destino de Fausto não era importante para eles.





Oliver Jeffers tem, há muito, um lugar de destaque na literatura infantil. As suas histórias parecem trazer, a priori, um selo de qualidade e conquistam leitores de todas as idades. Os  últimos livros parecem querer acrescentar algo mais, sempre em jeito de reflexão sobre o mundo onde vivemos hoje. Fausto é bem exemplo disso. 

E o texto do escritor Kurt Vonnegut que encontramos no final do livro, também. É o relato de uma conversa com outro escritor, Joseph Heller, que terá tido lugar numa festa de um milionário em que estiveram juntos. Perante a riqueza evidente do milionário, Heller terá dito: 

- " Eu tenho uma coisa que ele nunca terá."

- "E que raio de coisa é essa, Joe?", perguntou Vonnegut.

- "A noção de que tenho o suficiente".

Ora aí está algo que Fausto nunca poderia ter compreendido. Tal como não compreendeu o mar.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Gosto, Logo Existo. Redes Sociais, Jornalismo e Um Estranho Vírus chamado Fake News.
























Internet, notícias, jornalismo, informação e desinformação, telemóveis, teorias, emojis, likes, gigantes invisíveis... é sobre isto e muito mais, o último livro do Planeta Tangerina. Gosto, logo existo, 
com o subtítulo redes sociais, jornalismo e um estranho vírus chamado fake news, foi escrito pela jornalista Isabel Meira e ilustrado por Bernardo P. Carvalho. É um livro feito a pensar nos jovens, mas que deve ser lido por todos.

























Este é um tempo em que um grande número de famílias se viu forçado a alterar hábitos e a contradizer-se no seu próprio discurso no que toca à relação das crianças e jovens com a internet e os meios digitais. Hoje, o contacto dos nossos filhos com os ecrãs e as novas tecnologias é muito maior, nomeadamente para acesso à escola. Esta é uma realidade para muitos impensável antes da pandemia. Não só por isto, mas também, este é um livro precioso para ser lido por todos aí em casa. E a sua chegada não podia ser mais oportuna.



















Um livro informativo, com uma linguagem directa e acessível para todos, onde se considera ser importante fazer perguntas, sabendo que as respostas não se encontram todas no google. Tendo como primeiros destinatários aqueles que nunca conheceram um mundo sem internet e a quem parece impossível que o mundo já tenha funcionado de outra forma , a quantidade e a qualidade da informação que contém, os números, as "dicas" e a própria linguagem tornam este livro num precioso auxiliar para os seus destinatários e para toda a família. 





















"Habituámo-nos a receber a informação e a desinformação que nos chega através de algoritmos secretos, a ter rotinas em mundos virtuais, a comunicar com abreviaturas e emojis. Vivemos numa enorme bolha de likes e partilhas. 
Mas será que conhecemos bem as regras do jogo?
Qual o impacto de tudo isto na nossa relação com o mundo e nas decisões que tomamos?"

























Sem qualquer abordagem moralista, das que tanto enfadam os jovens, este é um livro bem inteligente, capaz de os pôr a pensar sobre o que efectivamente sabem ou não. Inteligentes são, também, as ilustrações com que Bernardo P. Carvalho acompanha o texto. Capazes de criar uma forte proximidade com os leitores, estes facilmente se identificam com elas. A qualidade dos livros informativos do Planeta Tangerina já não surpreende os leitores. Mas, no ano em que a editora comemora 20 anos de existência, não podemos deixar de reconhecer este gigantesco contributo, agradecendo o tanto que nos têm dado. Por isso, dizemos: Parabéns! E que venham os próximos 20.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

O Bolo de Maçã. Um Hino à Gratidão


 





















Obrigada parece ser a palavra preferida da pequena protagonista desta história, com texto de Dawn Casey e ilustrações de Genevieve Godbout, recentemente editada pela Fábula. Num álbum em que as ilustrações se espraiam harmoniosamente a cada dupla página, o curto texto que nelas vislumbramos é, invariavelmente, um agradecimento à natureza por tudo o que ela nos dá. 














Na companhia de um cachorro, a pequena percorre alegremente os trilhos campestres, agradecendo às árvores, aos arbustos, às abelhas, às vacas, às galinhas... enquanto o cesto que leva consigo se vai enchendo de amoras, avelãs, maçãs, mel, leite, ovos... 
















Os agradecimentos são extensivos à chuva e ao sol, aliados da mãe da natureza, aos amigos e à família. Quando chega a casa, o cesto transborda já de ingredientes. Tudo, mais do que suficientes para confeccionar... um delicioso bolo de maçã.















A simplicidade do texto e as apelativas ilustrações, bem ao jeito de Godbout, fazem deste hino à gratidão uma história poética e inspiradora. Agora que estamos todos em casa, este é um lugar de eleição para levar as crianças a passear. No regresso, metam as mãos na massa com os miúdos  e experimentem a deliciosa receita de bolo de maçã que se encontra no final do livro. Nós já experimentámos e, nham nham, é mesmo...delicioso!