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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O Secador de Livros. Nunca antes inventado.




Esta semana, conhecemos a família Bronca! Vamos já confessando que a empatia foi grande. No inicio, até nos disseram que era uma família sem nada de especial, igual a tantas outras. Amante de praia, futebol e gelados. Mas à medida que fomos conhecendo cada elemento, fomos percebendo que esta é uma família única! Vivam os Bronca!


Avós, pais, 4 filhos, tia, prima, gato... a família é grande, mas unida. Herdeiros de certos conhecimentos dos antepassados, os Bronca são conversadores e praticantes de concursos de palavras inventadas. Xarapitonga! Spindotitá! Mas talvez o que os una mesmo seja o amor aos livros. Bem avisámos que a nossa empatia era grande!


O amor da família Bronca pelos livros era tão grande, tão forte, tão dedicado, tão obsessivo, tão alaropante (palavra inventada vencedora do concurso familiar nº 624/Série B), que acabou por se transformar num problema. Para os livros, bem entendido.


Não era caso para menos. 
O avô Ernesto gostava de ler enquanto pescava. 
A avó Anita, especialista em bolos, distraía-se com a leitura e deixava cair o livro dentro da massa. 
Linda, a mãe, dormia sobre os livros que, claro, ficavam sempre babados.
As gémeas... 
Não, não contamos mais porque sabemos que vocês vão querer conhecer esta hilariante família, onde até o gato Edgar gosta de livros.


A verdade é que, com tanto amor, os acidentes sucediam-se. Os livros ficavam 
sujos, 
imundos, 
arranhados, 
surrados, 
vomitados,
molhados, 
maltratados... 
E, embora fosse tudo por amor, a vasta biblioteca da família, com cerca de duzentos anos, ia ficando cada vez mais ameaçada. A preocupação aumentava. Já não eram só os livros que sofriam. Os Bronca passaram a ser olhados de forma estranha pelos vizinhos, os bolos da avó Anita tornaram-se intragáveis, o bebé Nicolau, que um dia será menino, seguia o mau exemplo do pai e até Edgar ficou doente de tanto engolir traças e pó dos livros. Alguma coisa teria de ser feita!


É nestas alturas que surgem as grandes ideias! E os Bronca, mais unidos do que nunca, decidiram construir nunca antes inventado Lavador de Livros! Uma máquina maravilhosa, com um invejável painel de controle! Entrada de honra para heróis literários, Prémios Nobel da Literatura, Exterminador implacável de traças... são apenas alguns exemplos. Mas até as ideias mais brilhantes carecem de ser aperfeiçoadas e a família constatou isso mesmo quando os livros sairam da máquina. Estavam limpíssimos, como novos, mas... todos baralhados! Alice no País da Montanha Mágica! Que grande bronca!      
Nada que o nunca antes inventado Secador de Livros não tenha solucionado! Quando uma família como os Bronca se une na adversidade, o impossível não existe.


O Secador de Livros, editado pela Caminho, com texto de Carla Maia de Almeida e ilustrações de Sebastião Peixoto, é um livro sobre livros, mas também sobre a família,  tema recorrente na obra da escritora. Sobre os seus últimos livro, podem ler aqui e aqui. Falando do livro, em entrevista à TSF, Maia de Almeida revelou que todas as personagens foram inspiradas e remetem para figuras de conhecidos escritores. As gémeas Emília e Carlota Bronca, por exemplo, evocam as célebres irmãs Emily e Charlotte Brontë, a prima Patrícia Bronca, inventora da fórmula final do Secador de Livros, remete para a escritora de thrillers e policiais Patricia Highsmith. O desafio não podia ser mais aliciante para os leitores mais crescidos. Descubram, descubram! Nós por aqui, apenas acrescentamos que o gato dos Bronca é preto e que a importância de se chamar Edgar não será à toa.


Depois das felizes parcerias da escritora com ilustradores como André Letria, António Jorge Gonçalves e Marta Monteiro, à toa também não parece ser a escolha de Sebastião Peixoto para ilustrar esta fantástica e divertida história. Num estilo a que já nos habituou, os Bronca não fogem à regra. Olhos redondos e pretos, narizes arrebitados e vermelhos como as rosetas, figuras esguias... são características comuns a todos os membros da família. O humor passeia-se a cada página e a intensidade das imagens é tal que dá vontade ao leitor de entrar no livro para dar uma mãozinha à família. Verdade seja dita, não imaginamos os Bronca nem a sua casa pintados com tons e formas diferentes. 
Sim, a empatia é total! No dia a dia, a família Hipopómata, com os seus livros à mercê de mãos de todos os tamanhos, o que mais tem são livros babados, dentados, sujos, capas com dedadas, migalhas que se enfiam pelo meio das páginas... Não tivemos dúvidas de que o secador da família Bronca seria da maior utilidade para nós. 
Há uma  semana que nos instalámos em casa dos Bronca! Vivemos por lá. Não queremos sair! Façam-nos companhia, venham daí! Esta é, seguramente, uma das nossas escolhas em 2018.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O Pato (Lógico) "Está De Boa Saúde" e Recomenda-se


O objectivo é chamar a atenção dos mais novos para questões relacionadas com a saúde e enraizar-lhes hábitos de vida mais saudáveis. Geração Saudável é o nome da colecção que dá corpo a um projecto de promoção e educação para a saúde pública desenvolvido pela Ordem dos Farmacêuticos. Com a chancela do Pato Lógico.


Os dois primeiros títulos, Atento ao Medicamento e A Ilha dos Diabretes, são dois magníficos exemplos de como os livros informativos podem ser apelativos e cativantes sem perder de vista o seu principal propósito, informar. E de como nos podem levar a dizer: venham mais! 


Estruturados como histórias, contadas de forma simples e clara, mas inteligentemente construídas, ambos os livros têm texto de Carla Maia de Almeida, que assina o segundo em conjunto com Cristina Cunha Cardoso e Pedro Borrego, e ilustrações de João Fazenda.


Em Atento ao Medicamento, a autora conduz-nos numa visita pelo Bairro Alexandre, que deve ao nome a Alexander Fleming, o médico escocês que descobriu a penicilina. Um lugar com árvores, jardim com esplanada, cafés e lojas... com que nos identificamos logo na primeira página.  A arte das palavras articulada com as deliciosas ilustrações de Fazenda faz-nos prolongar a visita, querendo conhecer cada morador e recanto do bairro. É com naturalidade que chegamos à farmácia, um lugar acolhedor onde todos se encontram. Sorrimos a cada subtileza e, acima de tudo, o nosso conhecimento sobre medicamentos torna-se quase enciclopédico. 



A Ilha dos Diabretes aborda a temática da diabetes, uma doença que afecta milhões de adultos  e crianças em todo o mundo, cada vez mais. Um profundo conhecimento da doença, das formas de prevenção e de tratamento é-nos transmitido através dos diálogos destes dois amigos, o João e a Maria.


Com um grafismo e uma paleta de cores absolutamente deslumbrantes, qualquer um se sentirá orgulhoso de fazer parte desta Geração Saudável. 


Pato, esse, demonstra uma saúde invejável! 

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Amores de Família

AVISO AO LEITOR: ESTE LIVRO CONTÉM UM ABC DOS DEUSES.



Há encontros felizes. Roubamos a frase a Carla Maia de Almeida para falar da sua parceria com Marta Monteiro, de que resultou Amores de Família, o livro recentemente editado pela Caminho


Um álbum de família(s), onde se retrata com arte e subtileza a diversidade que hoje caracteriza esta instituição. Recompostas, monoparentais, com pais do mesmo sexo, de substituição ou adoptivas, as famílias deste livro têm em comum os afectos e as vivências de todos os dias.


Depois do êxito de Irmão Lobo(atravessado pela história de uma família em desagregação), Carla Maia de Almeida volta à temática da família, com uma abordagem que surpreende pela originalidade. As famílias deste livro são  inspiradas nos principais deuses e deusas da mitologia greco-latina, que a autora considera muito parecidos, afinal, com os humanos (tirando os poderes sobrenaturais).


Texto e ilustração fundem-se numa sóbria harmonia, resultando num livro singular e de poética beleza. Os textos curtos e magníficos,  dispostos lateralmente a cada página, cedem a largueza da dupla página às ilustrações de Marta Monteiro, que nela se espraiam como retratos vivos do dia a dia de cada uma destas famílias.


Usufruindo do fundo branco, os tons quentes e apelativos, com predominância  do azul e do laranja, ilustram na perfeição os afectos de que as palavras dão conta e as múltiplas histórias do quotidiano destas famílias, que podem ser encontradas em qualquer parte do mundo.


É um livro para ler em família. Várias vezes! A cada leitura, deleita-nos ver a forma como os mais novos vão descobrindo as subtilezas e revelando sinais de identidade com esses pais, mães, tios e avós, que têm tudo menos nomes vulgares

Para adormecer, O Pai Neptuno conta cavalos-marinhos. Quando se zanga, levanta uma tempestade em casa que faz os barcos pequenos sentirem-se ainda mais pequenos. Assim que acalma, a maré baixa.


Energética e superorganizada (a Mãe Minerva), adora fazer listas de compras e planear as refeições da semana, seguindo os conselhos da roda dos alimentos. Com ela, as crianças sabem que nunca hão de encontrar comida de plástico na mochila.


O glossário existente no final do livro, certamente, tranquilizará os menos familiarizados com estas "coisas de deuses". Ao mesmo tempo que nos chama a todos para outra... e mais outra leitura! Procurando um lugar, escolhendo os nossos deuses...


E relembrando outros livros e outras famílias que ainda hoje fazem parte da nossa memória. Nos anos 80,  Jorge Listopad escreveu no seu Álbum de Família:

16 desenhos
7 homens e 7 mulheres
Mais um casal
Mais 1 anjo
Esta é a minha família.

domingo, 8 de dezembro de 2013

IRMÃO LOBO

E o livro de hoje é... Irmão Lobo.


Dia 1- Virginia Wolf, Kyo Maclear e Isabelle Arsenault, Éditions de la Pastèque.
Dia 2 - Jane, le renard & moi (versão francesa), Isabelle Arsenault e Fanny Britt, La Pastèque. 
Dia 3 - MAMÃ, Mariana Ruiz Johnson, Kalandraka. 
Dia 4- O SENHOR PINA, Álvaro Magalhães, desenhos de Luiz Darocha, Assírio & Alvim.
Dia 5- THE DARKLemony Snicket e Jon Klassen, Orchard Books.
Dia 6- O livro do ano, Afonso Cruz, Editora Objectiva.
Dia 7- FOG ISLAND, Tomi Ungerer, Phaidon.
Dia 8- IRMÃO LOBO, Carla Maia de Almeida e  António Jorge Gonçalves, Planeta Tangerina.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Irmão Lobo

Iniciámos este espaço de leituras para mais crescidos com um livro do Planeta Tangerina, O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca, o primeiro da colecção Dois Passos e Um Salto para adolescentes e leitores mais crescidos. Hoje, falamos do segundo livro da colecção, Irmão Lobo, escrito por Carla Maia de Almeida e ilustrado por António Jorge Gonçalves.
Esta é uma história a dois tempos. Contada por Bolota, ou melhor, Princesa Bolota das Florestas do Norte, herdeira do Clã do Pássaro Trovão, o elemento mais novo dos cinco que compõem a família.
O relato dos acontecimentos vivenciados aos oito anos por Bolota alterna com a memória esbatida, mas já depurada, que,  aos quinze, a adolescente guarda deles. A cor diferenciada das páginas, revezando entre o azul e o branco, identifica-nos o presente e o passado da narrativa.
Bolota  conta-nos a história do desmoronamento da sua própria família, a viver num país e num tempo, também eles à beira de ruir. É essa galopante viagem, a que chamou A Grande Travessia no Deserto da Morte, que nós, leitores, acabamos por fazer com ela.
A “deconstruçao” desta família, que em tempos aparentou ser feliz, é reflectida nas sucessivas mudanças de casa, sempre para espaços mais exíguos, levando a que algumas coisas vão ficando de fora. Foi o que aconteceu com Malik, o cão, companheiro de quem Bolota se viu separada. Mas também com as cumplicidades de que é feita a harmonia familiar e que levam a Bolota adolescente a interrogar-se se alguma vez teria mesmo existido.

Uma família, afinal,  igual a tantas que conhecemos. De quem Bolota nos fala através de alcunhas, como se de verdadeiros códigos em tempo de guerra se tratasse. Um pai desempregado, desencantadamente sonhador e que desesperadamente intenta uma fuga em busca do nada.  O irmão mais velho, Fóssil, e a eterna problematica das drogas, uma irmã adolescente que perdidamente  tenta encontrar o seu espaço, uma mãe amarga... 

A ingenuidade e a pureza dos 8 anos de Bolota, evidenciadas pelas páginas brancas, aproximam-nos desta criança frágil mas lutadora desde o primeiro momento. Uma menina que, em cenários adversos, faz fogueiras daquelas que só funcionam com o pensamento mágico  e que transforma um prato de picanha  no Reino da Picalândia...
Que não percebe porque dizem ter nascido “fora de tempo” e que quer tirar a limpo porque será ela o “pombo da discórdia”.
Uma adolescente que, depois desta Travessia,  chega aos quinze anos com o distanciamento necessário para fazer escolhas e se vai construindo a si própria.
As ilustrações de António Jorge Gonçalves, a preto, azul e branco,  reforçam a atmosfera triste e nostálgica e acentuam a zona de conflitualidade interior que cada uma das personagens deixa antever. Um livro intenso, que nos desassossega e que,  à semelhança do que Malik faz com Bolota, nos continua a seguir...
Dele, a autora diz que "este é também um romance on the road."  Talvez por isso nos tenha apetecido ler o Irmão Lobo  lá fora...