quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

When You Look Up. Leituras de fora

























When You Look Up, da autoria do argentino Decur (Guillermo Decurgez) e editado pela Enchanted Lion Books, foi um dos livros que mais nos encantou em 2020. A mudança de casa e dos hábitos de vida que temos em determinado lugar pode ser um acontecimento  complicado na infância. Para trás, ficam os amigos, os conhecimentos e as rotinas adquiridas. Para Lorenzo, o protagonista desta história, a vida parecia mais cinzenta agora que os amigos só estavam dentro do seu telemóvel.



Mas, no seu caso, a chegada à nova casa acabou por revelar-se uma grande surpresa, deixando-o sem tempo para pensar no que já era passado. Tudo, graças a uma velha escrivaninha que ali encontrou com dezenas de gavetas e gavetinhas e alguns segredos pelo meio. Foi numa dessas gavetas que Lorenzo descobriu um diário. Alguém o escrevera e o guardara ali! O rapaz desconhecia quem o teria feito, mas a sua leitura começou a transportá-lo para um mundo mágico e maravilhoso.

A ele e ao leitor, que passa a ter direito a duas histórias. A que lhe chega através das imagens do diário e a que vê através da imaginação do rapaz misturada com cenas do quotidiano. 


Com ilustrações deslumbrantes, esta é uma história capaz de encantar leitores de todas as idades. Ou não fosse ela uma história envolta em segredo e algum mistério. 



O autor, cartonista e ilustrador autodidacta, reserva ainda um delicioso final, quando permite a Lorenzo que conheça o autor do  fantástico diário. Um encontro que nós, leitores, não perderíamos por nada. 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Ler o Mundo

 
                                                                             
Ler o Mundo, com o subtítulo Experiências de transmissão cultural nos dias de hoje, da antropóloga francesa Michèle Petit, é o mais recente livro da colecção Ágora K, da editora Kalandraka. Um livro que é um poderoso testemunho para todos os que acreditam no poder da leitura e da arte em geral. Para todos os que amam os livros e, de alguma forma, tentam contagiar os outros com esse amor.
Petit reúne, nesta obra, um vasto número de relatos, experiências e caminhos percorridos por bibliotecários, professores, escritores, mediadores culturais, alunos, pessoas em geral. Há toda uma partilha assente em saberes, práticas , conversas, estudos, conferências... que nos é trazida através de uma escrita tão simples, quanto directa e eficaz. 
O inicio do livro elucida o leitor. Este livro é uma apologia. Para que a literatura, oral e escrita, e a arte sob todas as formas tenham um lugar na vida de todos os dias, em particular na das crianças e dos adolescentes. De forma genuína, a autora esclarece que o livro nasce de uma revolta. Uma revolta contra a obrigação de fornecer provas dos resultados da leitura, como se essa fosse a única razão de ser de ler. Porque é que a literatura e a arte têm de prestar contas? 
Uma revolta que nasce, também, da vontade de combater o utilitarismo, tantas vezes de vistas curtas. Do cansaço relativamente a todos os discursos de lamentação sobre a leitura ou ausência dela. Das lamúrias de culpabilização dos jovens por não terem vontade de ler, ainda que sejamos nós, adultos, quem, tantas vezes, os vacina contra a leitura. Uma revolta contra a instrumentalização da leitura nas escolas, dos livros e das obras de arte. 
Porque tantas vezes sentida, torna-se impossível ao leitor não concordar com a autora quando esta afirma que o essencial da leitura, quando não é regida pela obrigação ou pela utilidade imediata, são os momentos em que levantamos os olhos do livro e nos surgem associações inesperadas.
Para que serve ler? Porquê ler hoje? Qual a importância da leitura e da transmissão cultural

Porque devemos incitar crianças e jovens à leitura? 

Estas são algumas das questões a que tanto a autora como os seus interlocutores vão respondendo. Sem milagres. Sem fórmulas certas. Apenas com a certeza de que nas erradas não vale a pena persistir. 

Há um fio condutor que percorre o livro. Petit regista que ele está presente em todos os discursos dos interlocutores: desde a mais tenra idade e ao longo de toda a vida, a literatura oral e escrita e as práticas artísticas estão intimamente ligadas à possibilidade de encontrar um lugar. 

São múltiplas as associações com que o leitor se depara. Para uns, o livro é  a terra de asilo, uma paisagem, um país, o universo, um continente, um abrigo, um refúgio, uma choupana, uma cabana. Para outros, o livro é "um lugar meu", "a minha casa, sempre lá para me receber", "uma passagem secreta", "um transporte para algum lado".  Bem para lá do carácter útil e até do simples prazer,  ler é forjar uma arte de viver, mantendo uma parte da liberdade, do sonho, do imprevisto.

Ao longo desta apologia da leitura como coisa de todos os dias, Petit referencia dois conceitos subjacentes à essência da leitura: apropriação e segredo. 
"Apresento-te os livros porque uma imensa parte do que os seres humanos descobriram está aqui escondido". 
De uma maneira ou de outra, todos nos apropriamos das palavras. Ela própria deixa o convite para que os leitores se apropriem das suas, que as roubem, se for caso disso. A vontade é grande, até porque a autora nos vai lembrando o grande papel dos mediadores de leitura e educadores pela arte: saber tornar desejável a apropriação da cultura a quem dela está mais afastado.
"Apresento-te o mundo que outros me passaram e de que me apropriei. Pedacinhos de saber que passam de geração para geração. Agora, entre linhas lidas, escreve a tua própria história."
Para além da dimensão de apropriação selvagem, o desejo de ler está quase sempre envolto  na vontade de descobrir um segredo, de desvendar um mistério. Pais, professores, mediadores em geral... transformar a leitura e a arte em coisas de todos os dias, dependerá em muito da nossa arte de acolhimento e da nossa disponibilidade. Da nossa arte em levar os outros a ter "a cabeça suficientemente nas nuvens".
Testemunho poderoso,  Ler o Mundo, mais do que um livro é um lugar para se habitar muito tempo. E a que se voltará, seguramente, muitas vezes.
Porque atravessamos dias de muitas dúvidas e poucas certezas, roubamos as palavras de Michèle Petit para vos dizer: Mesmo que as crianças a quem lêem histórias não se tornem leitores, não terão perdido o vosso tempo. Terão recheado os bolsos delas, enchido a sua arca do tesouro de palavras, de histórias, de imagens, de que elas poderão apropriar-se para não se sentirem nuas, perdidas face ao que as rodeia, ou para enfrentarem os seus próprios demónios (...)

sábado, 23 de janeiro de 2021

Bom Fim de Semana


                                                                      Decur


quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Desde 1880. Uma história que é de todos



 





















Nasceu em 1880 e o tempo habitou-a durante muitas gerações de leitores. Com a dignidade de quem carrega todos os sonhos, testemunhou as mudanças que os dias foram anunciando. Assistiu a transformações sociais, vislumbrou o progresso, viveu a paz e a guerra. Acolheu gentes novas e velhas, conheceu os diferentes veículos que cavalgaram as horas, observou modas e tendências. Corajosa, permaneceu fiel a si própria. Com a sabedoria feita de todas as palavras que continha dentro de si, assistiu a derrotas e a vitórias. Com o silêncio dos fortes, despediu-se de amigos e vizinhos. Saudou os que chegaram e os que viu nascer. Passou o seu próprio testemunho entre várias gerações. Alimentou o imaginário de todos os que nela quiseram viver por breves ou longos momentos. Só não resistiu aos dias de agora.


Esta podia bem ser a história de uma qualquer e de todas as Livrarias. Em Lisboa, Paris, ou em qualquer outro lugar do mundo. Mas terá sido o encerramento de uma das livrarias de sempre, situada em Roma, que levou o autor a conceber esta história que chega até nós num momento tão difícil da vida das livrarias. Um contributo precioso para despertar as mentes mais adormecidas.









Desde 1880, da autoria do italiano Pietro Gottuso, foi a obra vencedora do XIII Prémio Internacional Compostela para álbuns ilustrados, organizado pela editora Kalandraka. Trata-se de um livro só de imagens, que conta a história de uma livraria ao longo de 140 anos. E, em paralelo, a História que ela atravessa. Não sentimos a falta das palavras, porque a força das ilustrações, feitas em acrílico sobre madeira, é magnânima e sublime. Directas e eficazes, as imagens não deixam nada por dizer, tornando a história entendível por leitores de todas as idades. As roupas, a diversidade de pessoas, as cores escolhidas a cada dupla página para cada período vivido... 












É um livro belo e tocante. Acima de tudo, verdadeiro e capaz de nos fazer reflectir sobre o papel, a importância e as vicissitudes das livrarias. Abram-no e vivam por lá uns tempos com toda a família. Os livros são bens essenciais, ainda mais numa altura em que o mundo teima em não nos querer deixar sonhar. Num tempo de todas as incertezas, em que se fecham portas sem sabermos se voltarão a abrir, é urgente que se tomem medidas de apoio. E elas passam também por todos nós. Uma LIVRARIA INDEPENDENTE  vive sobretudo da sua gente. É nelas que devemos comprar os livros que escolhemos para companhia nestes momentos sombrios.  Caso contrário, corremos o risco de, em 2022, os lugares de todos os sonhos do nosso imaginário se terem transformado em pontos de venda de tomates e verduras.