quinta-feira, 20 de outubro de 2022

O Duelo


 






















O Duelo | Inês Viegas Oliveira | Planeta Tangerina


Podia ser a crónica de um duelo anunciado. Entramos preparados para um expectável cenário de luta, de conflito, de armas. A memória enche-se de um sem número de imagens cinéfilas onde os duelos eram coisa comum. Mas, às primeiras páginas, o leitor já está seduzido pela mudança do rumo da história. O anunciado não se concretiza. 1, 2, 3, 4... Um dos homens não se vira, decide seguir em frente. Cobardia?


Ele diz que não e nós acreditamos porque o vemos trocar um exército por uma banda de magníficos músicos. Apenas decidiu seguir em frente. Cabe ao leitor persegui-lo, embarcarcando numa viagem por um mundo onde não parece haver lugar para guerras. Uma viagem que se revela uma descoberta contínua de elementos e detalhes que nos oferecem uma deslumbrante narrativa visual. Afinal, este é um livro sobre paz.


Podemos não saber a localização certa, mas, tal como o nosso homem, sabemos que não estamos perdidos. Atravessamos o mundo. Por terra e por mar. Percorremos montes, vales e serras. Deambulamos pelo campo e por cidades. Vemos palácios, casas, cafés, teatros, pessoas, animais, artistas e malabaristas... Embrenhamo-nos nas páginas. Demoramo-nos. Queremos habitar todos aqueles lugares e tempos.


Sabemos que o homem que seguimos escolheu a paz. Gostamos das cores do mundo por onde caminha e do que vemos. Dos lugares aquecidos pelo sol, das muitas flores que pintam os recantos onde agora pertence. Não lhe conhecemos a identidade. Em contrapartida, sabemos que aquele com quem tinha duelo marcado dá pelo nome de Rodin Rostov. É a ele que se dirige ao longo de toda a sua caminhada. Um relato que partilha com os leitores e que chegará ao outro em forma de carta.






Excelentíssimo Senhor Doutor Rodin Rostov, assim começa a história. No final, ficamos a saber que mora no nº17 de um lugar muito longe e muito frio. A carta encerra um convite. Para que saia de lá. Para que também ele tenha a coragem de seguir em frente. Porque é disso que se trata. Deixar para trás as coisas pequenas e mesquinhas da vida, as quezílias, as zangas que não levam a lado nenhum.   Seguir em frente, em busca de um mundo melhor, será sempre um acto de coragem.



Autora de texto e ilustração, Oliveira demonstra aqui o domínio de ambas as linguagens, a escrita e a visual. Detentora de uma magnífica técnica e de um estilo encantador, o seu trabalho  parece envolto em influências expressionistas e reporta-nos, a espaços, para a obra do espanhol Javier Zabala. 

O traço fino com que dá vida às silhuetas, a multiplicidade dos elementos e a vibrante paleta de cores são contributos para um livro que respira sensibilidade e poesia. 




























Um livro que, certamente, encantará leitores de todas as idades. Um lugar a que se voltará muitas vezes. E onde, a cada regresso, faremos novas descobertas. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

A Minha Mãe é Um Bicho








































A Minha Mãe é Um Bicho | Victor Le Foll e Jeanne Sterkers | Orfeu Negro

O título não deixa dúvidas. A capa, exibindo uma personagem híbrida, incita à curiosidade do leitor. O início do livro faz as delícias dos mais pequenos que, desde logo, ficam a saber que aqui há uma mãe com um superpoder. E se há coisa que as crianças sabem bem, é que todas as mães têm superpoderes!







































Contada por uma criança, esta é uma história onde há uma mãe com o superpoder de se transformar em qualquer bicho. Num búfalo, quando precisa de ser forte para carregar as compras e as mochilas, num tubarão quando tem de enfrentar o cão dos vizinhos, num castor quando é necessário consertar coisas, num polvo quando tem de fazer muitas coisas ao mesmo tempo...








































Apontamentos de humor percorrem texto e ilustrações, revelando, a espaços, que superpoder não é sinónimo de perfeição. Enquanto cozinha, a mãe assemelha-se a  um rouxinol rouco que dá cabo dos ouvidos de quem está por perto, ressona como um urso e, por vezes, até consegue transformar-se num porquinho resmungão... 





As ilustrações, em acrílico e numa paleta de cores fortes, vão mostrando a metamorfose da mãe. A cada página da direita exibe-se uma nova transformação. Uma sucessão de magníficos retratos, de grande dimensão, que aparece ao leitor como uma espécie de bestiário da mãe.  É, aliás, esse o título original.



O vestuário da mãe surge, ao longo do livro, como denominador comum e uma espécie de fio condutor de toda a narrativa. Independentemente do animal em que se transforma, todos os leitores a conseguem identificar pelas peças de roupa que veste, nomeadamente, a garrida camisola de losangos.






































Com um final consonante com o amor e a ternura que caracterizam a relação entre mães e filhos, esta é uma história bem divertida que, aqui e acolá, nos faz lembrar A Minha Mãe de Anthony Brown.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

De Mãos Dadas



De Mãos Dadas | Christopher Cheng e Stephen Michael King | Nuvem de Letras

Um Rato e um Panda protagonizam esta história sobre amor incondicional, amizade e perda. O diálogo entre os dois  pontua a viagem que vão fazendo pelas estações do ano e suas intempéries. Uma viagem que evidencia e reforça os fortes laços que os unem,  ao mesmo tempo que dá ao leitor a noção do decurso do ciclo da vida. 


O pequeno rato formula as questões, interrogando o seu amigo sobre a força daquela união e se ela será suficientemente forte para superar todas as adversidades da vida. A cada resposta, o Panda revela a solidez da sua amizade. O afecto que demonstra é tocante. O leitor apreende-o nas respostas e nos gestos. A diferença de tamanho dos dois realça-o ainda mais. O carinho com que protege o pequeno amigo face ao vento, à chuva ou à neve, revela-se em cada abraço ou entrega de mãos. 


Ainda assim, o rato vai insistindo nas perguntas, repetindo a formulação dás-me a mão se...? E se eu ficar rabugento? E se eu fizer uma coisa muito, muito má? Cada resposta do Panda soa ainda mais reconfortante, indo sempre mais além na generosidade dos seus sentimentos. 


Christopher Cheng escreveu esta história na altura em que a mulher se debatia com um cancro. Sentiu necessidade de abrir o coração, partilhando os seus sentimentos sobre a forma como lidamos com a partida daqueles que amamos, mas que viverão para sempre no aconchego da nossa memória. A escolha dos personagens não fica a dever-se a um qualquer acaso, antes ao facto de serem os seus animais preferidos. King deu-lhes vida através do seu traço delicado, minimalista e sóbrio. 



De mãos dadas, ilustração e texto geram uma história que é, ao mesmo tempo, plena de fragilidade e de uma força capaz de tocar leitores de todas as idades.


A viagem não se faz só de intempéries. Ao longo das páginas, sobem montanhas juntos, partilham leituras, jogam xadrez...
Mas a pergunta que não queremos ouvir acaba por chegar. É diferente de todas as outras que o rato fez.
E se eu fôr para um sítio aonde não possas ir
A resposta que chega do amigo genial tem tanto de comovente, como de serena e apaziguadora. 

Com uma temática tão complexa como a morte, este é um livro belo e necessário.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

A Avó Lá de Cima e A Avó Lá de Baixo



Há cerca de dois anos, festejámos aqui a chegada de Tomie DePaola e do seu Oliver Button é uma Menina.  Agradecemos à Kalandraka, editora responsável por nos apresentar em português alguns nomes consagrados do universo da literatura infantil. Mas estávamos longe de imaginar que DePaola, autor de uma vasta e acarinhada obra com mais de  260 livros, nos deixaria quatro dias depois. 


Os livros  de DePaola são atravessados pela aparente simplicidade e pela beleza que caracterizam as histórias de vida.  As memórias que guarda do seu tempo de menino são partilhadas com os leitores de forma genuína e sem filtros. O autor não parece temer as imperfeições ou as coisas menos boas que possam caracterizar as personagens e as situações que descreve. Só isso bastará para que todo o leitor, independentemente da idade, se identifique com o que lhe é contado. A Avó Lá de Cima e A Avó Lá de Baixo, publicada no início dos anos 70, foi a primeira incursão do autor pela infância e resulta numa comovente celebração do amor que o unia a uma avó e a uma bisavó.
Escrito há quase cinquenta anos, este é um clássico que continua a emocionar todos os que o lêem. 



A avó lá de cima tem 94 anos, já não tem qualquer mobilidade e está confinada à cama. É a bisavó de Tommy. A avó lá de baixo continua a ser a dona da casa, sobretudo da cozinha e do magnífico fogão a lenha onde prepara as refeições para todos. O rapaz, o irmão e os pais são presença regular em casa dos avós, sendo o domingo o dia dedicado à reunião familiar.

Assim que chega, o pequeno sobe as escadas de um só fôlego,  para usufruir da companhia daquela que, do alto dos seus 4 anos, considera a sua melhor amiga. 
Sucede-se todo um ritual alicerçado na ternura e na cumplicidade que aqueles dois seres, com 94 e 4 anos,  alimentam um pelo outro.
Partilham os rebuçados de menta da bisavó, o coelho de peluche do pequeno, a hora da sesta, as cadeiras de espaldar onde Tommy quer ser amarrado numa sincera e pura demonstração de solidariedade para com a avó lá de cima...
Tommy ainda não sabe, mas muitos destes momentos vão acompanhá-lo toda a vida. 
Exemplo disso é o tempo que a avó lá de baixo dedica a pentear a avó lá de cima e se penteia a si própria, exibindo a longa trança de cabelos cor de prata que lhe adorna a cabeça. O pequeno é um observador atento e absorve cada gesto. O carinho que sente pelas duas avós é tão intenso quanto chocante se revela a afirmação do seu irmão mais velho de que a bisavó parece uma bruxa. 
Não parece nada! Ela é linda! - afirma Tommy peremptoriamente.


Abordar a temática da morte junto dos mais novos nunca é fácil. Mas, de quando em vez, a vida evidencia-a necessária. Quando a mãe de Tommy lhe dá a notícia da morte da bisavó, o rapazito de 4 anos não sabe o que é morrer. Morrer quer dizer que a avó lá de cima nunca mais estará aqui connosco. Só estará na tua memória.
Tommy necessita de se certificar. A imagem do pequeno rapazito olhando, incrédulo,  para a antiga cama vazia, com almofadas que mais parecem nuvens, transporta o leitor para a atmosfera nostálgica do quarto onde só se ouve o silêncio deixado pela sua melhor amiga. DePaola faz-nos habitar uma história simultaneamente  intensa e serena sobre a velhice, o decurso do tempo, a vida e a morte. Mas também sobre o amor, os laços familiares, a pureza da infância. 
O leitor não tem como não sentir a comoção que invade o coração do pequeno. Inconsolável, só mesmo o avistar de uma estrela cadente, da janela do seu quarto, lhe dá o conforto necessário e a compreensão de que aqueles que amamos nos acompanharão para sempre. Um dia, a avó lá de baixo passou a ser a avó lá de cima. E, quando o leitor vê o rapaz já feito homem, no seu quarto, observando outra estrela cadente, sabe que mais um ciclo de vida chegou ao fim. 
Para o leitor, fica a certeza de que ambas as avós se perpetuaram nas doces memórias de Tommy. Não só porque a fotografia que tirou com elas ainda menino se mantém no seu quarto, mas também porque o homem em que se tornou sentiu vontade de partilhar a sua história com todos nós. 

Uma história que muitos conhecem ilustrada apenas a três cores: preto, magenta e amarelo, por ser essa a versão original. Vinte e cinco anos volvidos, DePaola voltou a pintá-la como se de um novo livro se tratasse. De acordo com as suas palavras, as cores foram suavizadas de forma a manter a atmosfera nostálgica, mas a experiência foi tão emocional quanto tinha sido na primeira vez. Acreditamos.

Ainda que lamentando os muitos anos de atraso com que chega e as várias gerações que cresceram sem conhecer os seus livros, hoje voltamos a celebrar e a agradecer a edição em português  de um livro que nos acompanha desde sempre. Porque guardamos memórias de alguns momentos únicos vivenciados a partir dos livros do autor de "Strega Nona", será sempre um privilégio dizer: 
- Seja bem-vindo Mr. DePaola!