terça-feira, 14 de abril de 2015

Travalengas



Trava-Línguas e Lengalengas e outras coisas de rimar que sem nos travar as línguas nos querem desafiar. O que é? É o Travalengas, recentemente editado pela Booksmile, com texto de José Dias Pires e ilustrações de Catarina Correia Marques.


Entre zuns e zins, há abelhas engenheiras que, munidas de dicionário, fazem exame a colmeias estrangeiras. Há um caracol encaracolado a correr no costado de um crocodilo cansado. 


Há pombos ciclistas que decidiram sair do pombal para andar de bicicleta e acelerar no quintal... 


Há até uma tartaruga gigante que é, afinal, um hotel elegante. E muito, muito mais...


Ao texto imaginativo e divertido de José Dias Pires juntam-se as não menos imaginativas ilustrações de Catarina Correia Marques, com uma paleta de cores vivas e alegres, tão do agrado dos mais pequenos. 


Tirando partido do fundo branco, as ilustrações estendem-se a cada dupla página, dividindo com o texto uma harmoniosa e inteligente ocupação de espaços.


O resultado é um livro deliciosamente apelativo, para onde apetece saltar com as crianças. E ficar por lá, a borboletear, enquanto elas repetem, vezes sem conta, tanta coisa de rimar. 


Caixinha de surpresas?  Só para quem (não) sabe... o que está lá dentro. 







Então? Travalengamos?


segunda-feira, 13 de abril de 2015

E O Céu Não Pode Esperar?

Há dias assim. Hoje demos um pulo até ao Porto e ainda mal o carro iniciava viagem,  já a  notícia da morte de Günter Grass chegava. No final do dia, quando iniciávamos o regresso, soubemos que Eduardo Galeano tinha morrido. Há dias assim. Em que parece que o céu não pode esperar.


De imediato, a cabeça encheu-se de sonhos. Dos sonhos de Helena. O sublime livro que Eduardo Galeano escreveu e Isidro Ferrer ilustrou. 


O livro é dedicado a Helena, sua mulher. Porque é dos sonhos dela que fala. Em jeito de explicação, Galeano diz:  "Helena me humilla cada mañana, a la hora del desayuno, contándome sus sueños prodigiosos. Ella entra en la noche como en un cine, y cada noche un sueño nuevo la espera. Mientras ella cuenta, yo bebo mi café en silencio. Más me valle callar. Los pocos sueños míos que consigo recordar son de una bochornosa estupidez. Para vengarme, escribo los sueños que ella vuela.


Ella quería ver cómo crecía la noche, y cómo viajaban la luna y las estrellas.

Alguien le había dicho que los astros se mueven, y a veces se caen, y que el cielo va cambiando de color mientras la noche anda.


Aquella noche, noche de la revelación de la noche, Helena miraba sin parpadear.


Le dolía el pescuezo, lo dolían los ojos, y se estrujaba los párpados y volvía a mirar.


Y miró y miró y siguió mirando, y el cielo no cambiaba y la luna y las estrellas continuaban quietas en su sitio.


Le despertaron las luces del amanecer. Helena lagrimeó.


 Después, se consoló pensando que a la noche no legista que le espíen los secretos.


Acordados, sonhamos os sonhos de Helena. E lembramos Galeano pela partilha de todos os seus sonhos.



quinta-feira, 9 de abril de 2015

Beatrice Alemagna


Os seus livros colam-se às mãos com a mesma intensidade com que as histórias nos invadem a cabeça e aí passam a residir. Sempre que nos cruzamos com um, como aconteceu recentemente em Madrid, não resistimos a apossar-nos dele. Falamos dos livros de Beatrice Alemagna.


Los Cinco Desastres, no original I Cinque Malfatti, é um livro surpreendente e hilariante, onde, mais uma vez, as aparências sucumbem perante a essência. Ainda que esta se revele através  de seres imperfeitos e bastante trapalhões, como é timbre da autora.


Peculiar, algo trapalhão e semeado de belas imperfeições, assim é o universo de Beatrice Alemagna. Afinal, como a vida. 


Um mundo povoado de personagens que não só expõem as suas fragilidades como, com naturalidade, acabam por encontrar forma de lidar com elas. À semelhança das histórias, as figuras criadas por Alemagna exibem sempre algo de poeticamente real. 

Ilustração de Meu Amor, Bags of Books, 2010

Algo que nos faz regressar à infância e deambular pelos retalhos da memória que dela guardamos. 

Ilustração de Gisèle de Verre, Éditions du Seuil, 2002

Na sua maioria, as histórias de Alemagna caminham sob o mote da diferença. Ou melhor, das diferenças. É assim, por exemplo, em O Meu Amor ou em Gisèle de Verre, um dos nossos livros preferidos.

Gisèle de Verre, Éditions du Seuil, 2002


Gisèle  de Verre relata a magnífica história de uma menina que, tendo nascido de vidro e transparente, se determina a percorrer o seu próprio caminho, alheia ao preconceito.

Ilustração de Gisèle de Verre, Éditions du Seuil, 2002

A obra de Beatrice Alemagna parece estar sempre aberta aos mais fracos, mais desprotegidos, mais incompreendidos, mais pequenos... E é essa componente filosófica que a torna ainda mais encantadora.

Ilustração de Karl Ibou,  Éditions Autrement, 2008

A aceitação das diferenças ou a forma como moldamos a existência, assente nas nossas próprias fragilidades, confere-lhe ainda um pendor existencialista, onde acabamos por nos rever e encontrar.

Ilustração de Karl Ibou,  Éditions Autrement, 2008

Através de uma harmoniosa simbiose entre palavras e ilustrações de que sempre se revestem todos e cada um dos livros, o seu trabalho denota uma coerência e uma estética inconfundíveis.

Ilustração de Histoire Courte D'Une Goutte, Éditions Autrement, 2004

O livro que agora trouxemos não foge à regra. Esta casa, suficientemente periclitante para poder desabar em qualquer momento, é habitada por cinco desastres que nunca fizeram nada na vida. Nem têm qualquer vontade de fazer. Amiúde, discutem sobre qual dos cinco é o mais desastrado e isso diverte-os bastante.


A chegada de uma criatura sensacional, parece, contudo, indiciar uma mudança dos contornos da história. Por contraposição aos cinco desastres, é esta a descrição da dita  criatura: Era bello, liso, perfecto. Tenía la nariz en el lugar de la nariz, un hermoso cuerpo erguido, ni un agujero de más en la barriga, y una preciosa melena.


É fabuloso o final escolhido pela autora para os seus cinco desastres no momento em que o Senhor Perfeição, enfadado,  conclui que eles não servem mesmo para nada, que são um zero à esquerda. 


Apenas vos dizemos que, a esta altura, eles estão mais contentes do que nunca. E nós também. Porque é com naturalidade que assim ficamos, sempre que lemos um livro de Beatrice Alemagna.


 Ilustração de Un et Sept, Éditions du Seuil, 2001

sexta-feira, 3 de abril de 2015

quinta-feira, 2 de abril de 2015

DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL




“Falamos várias línguas e trazemos diferentes experiências,
E no entanto partilhamos as mesmas histórias”


As palavras são de Marwa Al Aqroubi,  que assina este ano a habitual mensagem do IBBY, na comemoração do Dia Internacional do Livro Infantil. O mesmo em que Hans Christian Andersen nasceu.









Por cá, o magnífico cartaz é da autoria de António Jorge Gonçalves, vencedor do Prémio Nacional de Ilustração 2014.













Catarina Correia Marques



Por aqui, onde o Livro Infantil é coisa de todos os dias, estamos em festa!
















Isidro Ferrer



Juntem-se a nós, a LER. Hoje e todos os dias.




quarta-feira, 1 de abril de 2015

TEATRO

 Fora de cena quem não é de cena.


O palco é para Ricardo Henriques e  André Letria que estão de volta com os livros/ actividários do Pato Lógico. Depois do premiado Mar, de que falámos aqui, chega a vez de Teatro.



Em jeito de homenagem, a edição coincidiu com as comemorações do Dia Mundial do Teatro, originando vários eventos. Com a mesma estrutura híbrida do anterior  (actividades+ abecedário), o livro revela-se um guia fabuloso da arte de representação. 



Num país onde o  teatro, essa estranha química que acontece num sítio qualquer entre quem faz e quem vê, permanece uma espécie de  parente muito afastado para crianças e jovens, é um prazer poder contar com livros como este. Aplaudimos de pé!


Com um texto simples e divertido, os leitores/espectadores são conduzidos numa viagem mágica. Dos termos técnicos, à gíria, passando pelos vultos mais marcantes, nada parece ter sido esquecido. As ilustrações denotam o estilo  inconfundível de André Letria, de que já sentíamos falta. Razões mais do que suficientes para não deixarem de espreitar!


Eu aqui em cima deste palco não sou eu, sou Dioniso, sou o Parvo, sou Hamlet, sou Mack, sou uma representação de outro"...


Com ou sem as Pancadas de Molière, silêncio! O espectáculo já começou!