quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Flashlight(s)... from Bolonha

Até apetece dizer que não há duas sem três...Pelo terceiro ano consecutivo, autores portugueses são premiados em Bolonha! Mais uma vez, o Planeta Tangerina está presente! Desta feita, foi Lá Fora, o magnífico guia para descobrir a natureza, que arrecadou o Bologna Ragazzi Award na categoria "Opera Prima". Dele falámos aqui. 
What the jury said
This dense volume is beautifully designed with elegant typography and a bold two-color palette. However, its true beauty lies in contrast of the traditional ‘guidebook’ format and clear scientific explanations with the playful and lyrical illustrations. Lá Fora book is an excellent solution to engage its readers and teach them to admire and respect everything "out there", just as the title suggests.

Hoje Sinto-me..., da autoria de Madalena Moniz e editado pela Orfeu Negro, também repetente, foi distinguido com uma Menção Honrosa na mesma categoria. Podem espreitá-lo aqui.

What the jury said

Avoiding cliché, this beautiful and unusual alphabet book uses whimsy, wit, and metaphor in unexpected, charming illustrations for each letter. Illustrating emotions instead of objects or actions, Hoje Sintoment is a wonderful dictionary of feelings.


Na lista dos premiados, encontrámos Flashlight, de Lizi Boyd, vencedor na categoria de Ficção. 

What the jury said

It is growing dark and a little boy is peeping out of his tent looking out into the darkness. Using his flashlight, he discovers the friendly world nature at night. This book is a visual poem featuring lovely, original line illustrations on black paper with colour confined to the spaces lit up by the flashlight beam. The Flashlight tells a simple yet resonant story of a boy’s curiosity overcoming his fears.


Não podíamos estar mais de acordo. Descobrimo-lo há uns meses e ficámos deslumbrados! Mesmo com a lanterna ligada, trouxemos-lo na mala e nunca mais o largámos. Não resistimos a partilhá-lo. 

 Parabéns aos premiados!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

The Big Question




Elephant had something on her mind.
It was a difficult question and she couldn't stop thinking about it.



Este é o ponto de partida para um fascinante livro, onde texto e ilustração nos transportam  para um universo  surreal e  mágico. The Big Question tem texto da belga Leen Van Den Berg e ilustrações de Kaatje Vermeire.


A difícil questão que ocupa a cabeça do elefante acaba por se tornar objecto de reflexão para todos os que se reúnem no encontro anual. Presidido, desta feita, pela formiga, é um encontro, no mínimo, bizarro do ponto de vista dos participantes.


Para além de alguns humanos, podemos encontrar toda a espécie de animais e objectos. A própria lua, o sol, o mar... ou até, pasme-se, a Branca de Neve! 


 Juntos, propõem-se encontrar a resposta para essa difícil questão:


É aqui que, nós leitores, começamos a ficar estonteados! Múltiplas e deliciosas definições de amor vão surgindo a cada página. 


Traduzimos algumas: 
O rato: "Nunca esquecerei a primeira vez que a vi. Senti-me grande e forte como um elefante."
A Branca de Neve: "Quando beijo o meu príncipe, esqueço todos os meus problemas: madrastas malvadas, discórdias, maçãs envenenadas..."
A macieira: "Quando vejo o meu amor, começo a corar."
O urso polar: "Sinto-me como se estivesse numa ilha muito quente."
O sol: "Quando estou cansado, a lua substitui-me. É uma querida."


Um livro desconcertante e belo, onde o texto, carregado de metáforas, se conjuga de forma brilhante com as soberbas ilustrações de Kaatje Vermeire, de quem somos irremediavelmente fãs. A intertextualidade marca igualmente presença, com a sublime referência à menina e à avó, personagens de um livro anteriormente ilustrado por Kaatje, que aqui nos encantam com as suas tocantes definições do amor. 


No final, fica essa certeza:



Quanto ao nosso amigo elefante, a pressa com que abandona o encontro indicia um total esclarecimento... Surpreendentemente, não era ele o "desentendido" em matéria de amor.


 Love is all those things. Bom São Valentim!


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

É então disto que sentimos falta!


                 
Uma intensa e fascinante partilha de ideias, histórias, experiências, saberes... Aconteceu nos últimos dois dias, na Gulbenkian.



Parabéns à Inês Fonseca Santos, a comissária do colóquio É então isto para crianças?, e a todos os que tornaram possível o evento. Raramente nos apetece dizer tantas vezes Obrigado.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Não Fiz Os Trabalhos De Casa Porque...


Confessamos, somos convictamente contra os trabalhos de casa, vulgo TPC’s! Mas, pela primeira vez, hesitámos... Se não fossem eles, este magnífico livro não existiria! Nãooooo, não podia ser!



A partir de agora nada será igual! Esqueçam as gastas e esfarrapadas desculpas tipo "fiquei com dor de cabeça", "faltou a luz lá por casa" ou "estive a ajudar o meu pai a construir um foguetão"...  Abram o tratado de Davide Cali e Benjamin Chaud, editado pela Orfeu Negro, e nele encontrarão compiladas 28 inimagináveis desculpas para não realizar as "maçadoras tarefas". Absurdamente geniais!



Neste caso, a aparência engana mesmo, pois trata-se de um livro pequeno e fino. Mas está lá tudo, garantimos! Os motivos vão sendo invocados, em catadupa,  por um pequeno rapaz,  envergando fato e gravata, no momento em que é interpelado pela professora. 


Invasões de macacos ou de lagartos gigantes, coelhos que roem lápis e cadernos, elfos que escondem lápis, plantas carnívoras, descobertas de petróleo no quintal, funeral do gato... É preciso ver para crer! "Um gigantesco inventório!", na opinião de um dos miúdos com quem partilhámos o livro. Precioso, acrescentamos nós.


As ilustrações de Benjamin Chaud elevam o grau de absurdo do texto de Cali a um tal patamar, que o livro acaba transformado num hino à imaginação. Relembramos, por exemplo, A Cantiga do Urso, e reconhecemos a riqueza gráfica que caracteriza o seu trabalho. Uma multiplicidade de pormenores, de detalhes minuciosamente cuidados em cada ilustração definem-lhe o estilo. 


Descobrir e identificar alguns desses pormenores é tarefa com que o leitor se pode deliciar.  Nós não resistimos. Aqui, por exemplo, entrámos pelo quarto do rapaz para ver um realizador famoso que quis usá-lo como cenário do seu novo filme. Fizemos cada descoberta!...


A genialidade do final da história não foge à regra, num  livro onde são muitas as semelhanças com o genial Edward Gorey. Ou não estivéssemos no universo dele...


Claro que os professores vão ler o livro... mas podem sempre arriscar! Ainda assim, lembrem-se do aviso dos autores:


Davide Cali é autor de vários livros editados entre nós. Eu espero..., A Rainha das Rãs Não Pode Molhar os Pés, Adoro Chocolate, Arturo, Um dia, Um Guarda-Chuva... são alguns deles. Dono de um senhor humor e de uma versatilidade ímpar, Cali vai estar esta segunda-feira na Gulbenkian, no colóquio É então isto para crianças? Essa é uma das  razões, nada absurda, porque vamos estar lá. 




 Bom Fim de Semana!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Os Príncipes e os Anjos dos Nossos Avós





A sugestão é óbvia: título e ilustração remetem-nos para uma outra história que bem conhecemos, A Bela Adormecida. Na busca da similitude, um rapaz conta-nos que a avó dorme, o dia todo, há mais de um mês. A sua mãe diz que ela é como a Bela Adormecida, à espera de um príncipe encantado que a desperte com um beijo.


Intuímos rapidamente que esta é uma abordagem metafórica e rica em subtilezas de temas tão duros como a morte ou a doença.  As perdas são inevitáveis e a vida continuará para além delas. Mas a forma como encaramos essa inevitabilidade e a transmitimos às crianças nunca é simples e, raramente, apaziguadora. Talvez seja isso que nos toca tão de perto nesta história que o italiano Roberto Parmeggiani dedica à sua avó e à memória de uma relação próxima com muitos momentos partilhados. Um lugar onde a doença é um tempo de coisas estranhas e a morte é, afinal, um príncipe encantado. 


Contada pelo neto, é uma história a três tempos. O momento presente, correspondente ao do sono em que a avó mergulhou, é antecedido de um outro em que a avó andava a fazer coisas um pouco estranhas. 



A subtileza e a força da história dispensam qualquer referência expressa à doença de que padece a avó. Somos nós, leitores, que lhe detectamos os sintomas através das metáforas escritas e visuais.



O neto relembra ainda um outro tempo. Aquele em que a avó o abraçava a toda a hora e ele desaparecia no seu amor. O tempo dos muitos livros que liam juntos, das muitas histórias que ela lhe contava, dos cromos que lhe comprava, da piza que fazia para o lanche... Ela, a avó, que fazia o melhor esparguete à bolonhesa do mundo.  Antes de adormecer e também antes de fazer coisas estranhas. 



Sabemos que o príncipe encantado está a chegar e que, inevitavelmente, a avó partirá com ele. Mas as partilhas e as cumplicidades, essas, permanecerão muito para além do sono em que mergulhou. As ilustrações de João Vaz de Carvalho relembram-no a cada dupla página. É uma avó alegre e divertida que atravessa a história em todos os momentos. O sorriso que exibe, enquanto dorme, parece ser, ele próprio, a invocação da memória de tudo o que fica.


À subtileza do texto, o ilustrador junta a das imagens. Quando o rapaz confessa sentir muito a falta da avó,  todos parecemos tornar-nos cúmplices desta relação, reinventando as leituras, as histórias e o amor. Ou atravessando esse mar que percorre todo o quarto.  Ou contemplando as semelhanças entre o cabelo enovelado da avó e o fumo das chaminés da casa e do barco.


Um livro que já abrimos muitas vezes. Talvez por saber que, um dia, o príncipe encantado das nossas avós também vai chegar.

(A avó adormecida, de Roberto Parmeggiani e João Vaz de Carvalho, ed. Kalandraka)


Em O Anjo da Guarda do Avô, de Jutta Bauer, editado pela Gatafunho, a temática da morte volta a estar presente. Também aqui, a história se alicerça na relação próxima entre um avô e o neto, que o visita no hospital. 


Do mesmo modo,  o leitor intui rapidamente a inevitabilidade da finitude da vida.  O meu avô gostava de contar histórias. Contava sempre alguma coisa quando eu ia visitá-lo
"Ninguém me segurava!" é o mote do avô para o relato da história da sua própria vida. 


O humor é indissociável  dos livros de Bauer e, ao contrário do que se poderia pensar, este não é excepção. No inicio da história, o avô conta: No meio da Praça, havia uma estátua grande, de um anjo. Eu nem sequer olhava para elatinha de me apressar, porque a minha mochila pesava muito".


Através das deliciosas e divertidas aguarelas de Bauer, que lembram o universo Sempé,   constatamos que o anjo esteve presente em todas os momentos da vida do avô, protegendo-o dos vários perigos que surgiam no seu caminho. 


Um caminho que não foi fácil e que podemos acompanhar desde as  peripécias da infância à guerra, ao nazismo, à  perda de amigos, à fome... 


Apesar das dificuldades, o avô não parece guardar queixas da vida:  Apaixonei-me... fui pai, construí uma casa... comprei um carro... e fui avô. Na verdade, a minha vida foi bela... direi mesmo que foi extraordinária. Tive muita sorte. 
Nós, leitores, sabemos que ele nunca teve tempo para olhar para o anjo...


Este é o quarto livro de Jutta Bauer editado em Portugal, depois de A Rainha das Cores, Quando a Mãe Grita e Selma. A autora alemã comprova mais uma vez que os temas difíceis também podem ser tratados com  humor e  subtileza.  


De forma tranquila, é o ciclo da vida que se completa. Mas não se pense que o anjo fica desocupado...