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quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Biblioteca de Bolso
























Biblioteca de Bolso | Maurice Sendak | Kalandraka

É preciosa!  Durante anos, a versão inglesa que temos foi dos livros mais cobiçados nos Hipopómatos. Agora, Biblioteca de Bolso de Maurice Sendak já anda por cá. Vê-la, finalmente, em portugês, é uma imensa alegria. Sendakianos de alma e coração, queremos festejar e partilhar com todos. Os que conhecem a sua obra e, acima de tudo, com os que estão menos familiarizados com ela. Porque ler Sendak é sempre um bem necessário. 




Canja de Galinha com Arroz, Vida de Crocodilo, João e Mais Oito Duarte são os quatro mini livros que integram a pequena caixa que exibe belas ilustrações de Sendak, aqui com um  toque vintage. Deles já falámos aquiaqui. Sendak ocupa várias páginas deste blogue e nunca nos cansamos de o revisitar.



Agora que o tesouro chegou, apoderem-se dele. As crianças adoram o formato mini dos livros. Alguns adultos também. A caixa faz as delícias de todos e pode levar-se para qualquer lado! Afinal, é a Biblioteca de Bolso. Tirem os livros e leiam com os miúdos. Muitas vezes. Antes de os  guardar, sorriam e lembrem-se que Sendak foi e será sempre um escritor fora da caixa.




sexta-feira, 11 de maio de 2018

Duarte, Tomás o Traquinas e muita Canja de Galinha


São livros ainda fresquinhos que continuam a chegar pela mão da editora Kalandraka. Duarte, uma história moral em cinco capítulos e um prólogo e Canja de Galinha com Arroz, o livro dos meses, da autoria de Maurice Sendak, completam a série de quatro pequenos livros, escritos nos anos 60, que foi distinguida pela Associação de Bibliotecas Americanas e adaptada pelo próprio autor para o musical Really Rosie de 1975. 


Em Dezembro, a propósito dos outros dois, Vida de Crocodilo, Um Alfabeto João e Mais Oito, Um Livro Para Contar, que podem ver aqui, escrevemos: Há livros que nos acompanham há tanto tempo... Quase nos esquecemos que nunca os lemos em português! Depois, há um dia em que chegam e somos inundados por uma onda de felicidade. E sim, festejamos! Muito! 



Desta vez, fizemos a festa levando Sendak à escola. Duarte é a história de um pequeno rapaz insolente e mal educado. Independentemente do seu interlocutor, a frase é sempre proferida com o mesmo fervor. Tanto faz! serve para a mãe, para o pai ou para um leão feroz...

Duarte era o nome
de um certo rapaz
que tinha por hábito dizer:
– Tanto faz!


O humor sendakiano, as rimas e a impertinência do rapaz fazem de Duarte um sucesso junto das crianças. Levámos o Duarte à escola há mais de um mês e ainda hoje os miúdos se divertem a falar dele. Na sala, havia um Duarte. Quando saiu, uma das professoras perguntou-lhe se tinha gostado, ao que ele respondeu: Muito! Em menos de cinco minutos consegui ser devorado e vomitado por um leão! 


Canja de Galinha é uma deliciosa viagem pelos meses do ano. Para cada mês, Sendak escreve um pequeno poema, que termina invariavelmente com a invocação do gosto pela canja de galinha. A repetição faz milagres e quando chega o final do ano, são poucos os que não se renderam já ao caldo da dita. Os nossos meninos sabem tudo isto de cor e salteado. Dizem uma vez, dizem duas vezes. 
E nós dizemos: Sendak sempre!


Quase em simultâneo, a editora brinda os mais pequenos com uma hilariante e divertida história, escrita por Jorge Rico Ródenas e ilustrada por Anna Laura Cantone.


Tomás, o traquinas, é um menino que adora disfarçar-se para assustar as visitas lá de casa. Dono de uma grande criatividade, em pouco tempo, o rapaz consegue virar crocodilo, leão, touro ou qualquer outra criatura, improvável de encontrarmos em casa de quem quer que seja.


Escrito em rima e ilustrado com o estilo inconfundível de Anna Laura Cantone, o livro arranca sonoras gargalhadas tanto a miúdos como a graúdos. 



Certo, certo, é que quem passa lá por casa não parece achar grande piada às traquinices do rapaz. Foi o caso da tia Roberta, que ficou duas horas de boca aberta, do veterinário, que ficou alguns dia no armário e... e... Tenham coragem e batam à porta do Tomás!


Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti... O que este rapaz não sabia é que as suas partidas tinham os dias contados. Afinal, não é assim tão difícil passarmos de assustadores a assustados. 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

É Natal, é Natal! Há tesouros a chegar!

8. João e Mais Oito, Um Livro Para Contar


Há livros que nos acompanham há tanto tempo... Quase nos esquecemos que nunca os lemos em português! Depois, há um dia em que chegam e somos inundados por uma onda de felicidade. E sim, festejamos! Muito! 


Os dois livros de Maurice Sendak, agora publicados pela Kalandraka, acompanharam certamente o crescimento de muitas gerações desde os anos 60, altura da sua primeira publicação. O que faz deles pequenos tesouros é o facto de continuarem, hoje, a encantar as crianças que têm o privilégio de os abrir.


Aprender a contar ou a soletrar as letras do alfabeto na companhia de Sendak, poder rir a cada página com o humor inteligente das suas deliciosas ilustrações, é algo a que todas as crianças deviam ter acesso. 


João, rapaz amante de sossego, vê-se subitamente invadido por uma quantidade de criaturas sem medo que lhe transformam a casa num autêntico caos. De 1 a 10, os inusitados visitantes vão surgindo ao ritmo de cada dupla página. De forma rimada, o rato, o gato, o cão, a tartaruga, o macaco... esgotam a paciência do pequeno, até então absorto na leitura de um livro. 


Mas João não vai em conversas e não se deixa intimidar por toda aquela prole que jamais seria capaz de convidar. 
Sabem o que tenho em mente? Vou contar de trás para a frente...
Desta feita, por ordem decrescente, sem se fazerem rogados, voltam a sair todos os que não tinham sido convidados. De porta fechada, a leitura é, finalmente, retomada. Bravo, João!

9. Vida de Crocodilo, Um Alfabeto


Foram muitas as vezes que brincámos ao alfabeto de Sendak. Chegámos mesmo a fazê-lo aqui.  À boleia desta simpática e divertida família de crocodilos, as crianças fazem uma visita guiada pelas letras do alfabeto.


Com frases curtas, a irreverência de mestre Sendak passeia-se, pincelada de subtilezas, ao longo das ilustrações. Esta pode não ser uma família muito tradicional, mas é, seguramente, uma daquelas que os miúdos adoram imitar. Todos juntos, Fazem a festa e Gozam à grande.


Estes são os dois primeiros livros de uma série que viria a ser distinguida pela Associação
de Bibliotecas Americanas e adaptada pelo própio autor para o musical Really Rosie de 1975. 


Verdadeiramente vaidosos, já estamos à espera dos próximos que nem uns gulosos!

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A Janela de Kenny. O Sonho pela mão de Sendak


Apanhámos boleia de Maurice Sendak, entrámos no sonho de Kenny e permanecemos à janela. A bater palmas, enquanto Kenny passava montado num cavalo negro e brilhante.  Bater palmas é o que fazemos sempre que a Kalandraka nos enriquece com mais um livro do autor e nos permite ir completando a sua obra em português.


A Janela de Kenny, publicado pela primeira vez em 1956, foi o primeiro livro de Maurice Sendak como ilustrador e autor de texto. Onde Vivem os Monstros surgiu sete anos mais tarde. Pelo meio, ainda houve lugar a outros, como O Recado de Rosie. Feitas as contas, percebemos que a fascinante história de Kenny foi escrita há cerca de sessenta anos, o que diz bem da genialidade deste vulto maior da literatura.


Os livros de Sendak são misteriosos.  Por vezes perturbadores, quase sempre irreverentes e até subversivos, sempre geniais e brilhantes. Neles, a realidade e a imaginação misturam-se, surgem baralhadas como só acontece no mundo das crianças. Alheias a polémicas, estas identificam-se com as personagens e vivenciam experiências, abrindo todas as janelas da imaginação. De A Janela de Kenny diz-se ser o mais filosófico de todos os livros do autor, ou não fosse ele integralmente dedicado ao universo dos sonhos.


Kenny acorda a meio de um sonho e lembra-se de de um jardim onde havia uma árvore coberta de flores brancas. Recorda-se do seu desejo de lá viver. Mas também do encontro com um viajante invulgar, um galo de quatro patas, que lhe entregara um papel com sete perguntas para as quais deveria encontrar resposta.


À medida que as tenta resolver, é visitado por dúvidas, incertezas. Sobre factos, mas acima de tudo, sobre sentimentos.  As sete questões, por um lado, e a janela, por outro, são os pólos  desta narrativa onírica vivida por Kenny e pelos leitores que, nunca saindo fisicamente do quarto do rapaz,  se sentem capazes de com ele percorrer os vales da Suíça. 


Uma aprendizagem sobre temas como o amor, a solidão e até mesmo a incompreensão. Uma busca de si próprio. Temas que, afinal, viriam a  percorrer toda a obra sendakiana, de que  temos falado aqui várias vezes.



Delicadas e reveladoras de uma extrema sensibilidade, as ilustrações são um grandioso contributo para fazer de A Janela de Kenny  um livro inesgotável, onde queremos voltar sempre. A  janela, chave para a descoberta do mundo, está aberta. Deixem os miúdos espreitar! E sonhar, à boleia de Sendak.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

O Recado de Rosie e A Impossibilidade de Não Ser Sendakiano


A infância passada em Brooklyn terá inspirado Maurice Sendak a escrever esta hilariante e sempre actual história sobre as brincadeiras de um grupo de crianças vizinhas. O inesgotável poder de imaginação destas criaturas leva-as a encontrar formas fabulosas e desconcertantes de ocupar o tempo. E conduzem-nos a nós, leitores crescidos, a lugares onde já fomos meninos.



Há três anos escrevíamos aqui sobre um dos livros de Maurice Sendak que nos acompanha desde sempre e pelo qual nutrimos um carinho muito especial. Hoje, a boa notícia é que The Sign On Rosie's Door, no título original, chegou finalmente a Portugal! Entrapámo-nos e festejámos! Mais uma vez, dizemos: Obrigada, Kalandraka!



Um livro onde o real e a fantasia se baralham e misturam como só é possível no mundo da criança. Onde Sendak fala de crianças reais com quem se terá cruzado e que, de alguma forma, simbolizaram figuras lutadoras e inconformadas. Não deixem de espreitar! Espreitem igualmente o vídeo onde Meryl Streep fala de O Recado de Rosie. Uma bonita homenagem a Sendak,  no seu  80º aniversário. 

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Urso Pequeno já fala português


As histórias são antigas cá por casa. Temos por elas um carinho especial. A estrutura simples e o vocabulário acessível fizeram com que o idioma nunca fosse barreira para as partilharmos com os mais novos. Não raro, funcionaram  simultaneamente como incentivo para uma maior familiaridade com o inglês. Mas, poder, finalmente, ler os livros de Urso Pequeno em português é motivo para festejar.


Em 1957, a dinamarquesa Else Holmelund Minarik publicava o primeiro de uma série de seis livros dedicados a este pequeno protagonista. Cinco seriam ilustrados por Maurice Sendak e é no âmbito da edição da obra do autor, que a Kalandraka os traz  agora para Portugal.
Adaptadas para televisão nos anos 90, as histórias de Urso Pequeno fizeram parte da infância de várias gerações, encantando pela simplicidade e doçura das suas narrativas. Características espelhadas, na perfeição, nas ilustrações de Sendak, que acabam transformando o leitor num profundo conhecedor do quotidiano da pequena personagem, com ela vivenciando uma relação de grande proximidade.
Recorrendo a um estilo inspirado nas gravuras antigas, o traço simples e elegante de Sendak transporta-nos para o
universo familiar em que se desenrola o dia a dia da personagem, passeia-nos por caminhos encantados, descreve-nos  aventuras e brincadeiras,  apresenta-nos familiares e amigos.

A humanização das personagens, a linguagem acessível, os diálogos curtos e de estrutura repetitiva, a descrição de situações comuns na vida dos mais pequenos operam uma imediata identificação com a figura do ingénuo e sonhador urso. 

                                                          
Com excepção de Um Beijo Para Urso Pequeno, os livros         dividem-se em quatro contos, harmoniosamente sequenciais, que acabam por unir-se, no final, num desafio vivo à memória dos pequenos leitores. Propícios a despoletar o tão conhecido "outra vez!", cada conto fornece detalhes e momentos de uma infância feliz onde,  de forma serena e tranquila, há lugar para a imaginação e para o sonho, mas também para as dúvidas e para a inquietude que a atravessam. 
A Galinha, o Pato, o Gato e o Mocho são os amigos de todos os dias. É com eles que partilha sonhos e aventuras, num cenário exterior que se assemelha a um bosque encantado.   Paralelamente, as histórias decorrem num ambiente familiar onde o afecto e o amor predominam. 




No primeiro livro da série,  destaca-se a figura materna, relevando-se o papel de mãe âncora, presente em todos os momentos da vida do pequeno urso. Em Pai Urso Está de Volta as quatro histórias convergem  para a figura do pai. O regresso a casa e as expectativas geradas pelo reencontro, o carinho dos abraços, o presente não esquecido... são alguns dos tópicos da abordagem  em torno de uma personagem que intuímos serena e sábia. Quando for grande quero ser como o meu pai é uma aspiração muito comum aos pequenos leitores, o que desperta desde logo a sua empatia. O resto fica por conta da imaginação e, no caso do nosso protagonista , ela consegue mesmo conduzi-lo a bordo de um grande barco, num oceano imenso e longínquo, onde se conseguem pescar enormes peixes e até mesmo sereias!


Gostava de olhar para todas aquelas coisas bonitas: os quadros, as flores da Avó, o boneco duende do Avô, que dava saltos dentro de um frasco. Num universo seguro como é o dos afectos, os avós também marcam presença. A magia dos pequenos momentos revela-se nas histórias que se contam, naquilo que se transmite, no respeito e no cuidado mútuos, nas cumplicidades, nas recordações... Na visita que faz aos avós, Urso Pequeno deleita-se a ouvir histórias vividas pela Mãe Ursa enquanto criança. Numa envolvência de amor incondicional, a memória de acontecimentos passados funciona como elo de ligação.



Num cenário natural,  carregado de grande realismo, Sendak utiliza cores suaves que acentuam o tom delicado que nos impregna os sentidos com as memórias de uma infância feliz. 



– Gosto mesmo deste desenho – disse o Urso Pequeno. – Olá, Galinha. Este desenho é para a Avó.
– Podes levá-lo?
– Claro – disse a Galinha.
A Avó ficou contente e disse:
– Este beijo é para o Urso Pequeno. – Podes levá-lo, Galinha?
– Com muito gosto. 
Assim se inicia a viagem de um beijo, que vai sendo transmitido de animal para animal, até chegar ao seu destinatário, o Urso Pequeno. A galinha passa ao sapo, que por sua vez passa ao gato... Pelo caminho, o itinerante beijo vai deixando ramificações, culminando mesmo num casamento muito especial. Uma história carregada de humor, capaz de provocar grandes doses de hilaridade nos mais pequenos.

























E é, também, arriscamos  dizer, a mais "sendakiana" de todas. Com efeito, há alguns detalhes  que nos lembram o lado mais irreverente do autor:
- O magnífico desenho que Urso Pequeno oferece à avó: um monstro.
- A habitual doçura da expressão das personagens que se esbate aqui e além, como é exemplo a da avó no momento em que recebe o desenho. De certa forma, invoca-nos uma avó mais próxima da do Capuchinho Vermelho. 
- O divertido jogo de escondidas  que Urso Pequeno enceta, alguns pormenores da festa de casamento onde se reúnem todas as personagens que atravessam os vários livros; o uso de uma só cor, o hilariante final. 


                                                         
Em Os Amigos de Urso Pequeno, no título original Little Bear's Friend, o verão é marcado por um notável acontecimento, o aparecimento de uma nova amiga. Desta feita, uma criança.  Emília e a sua boneca irão marcar o coração de Urso Pequeno e de todos os seus amigos. Um hino à amizade, que mais uma vez faz sobressair valores tão caros os mais pequenos. 

Uma história onde a tristeza da despedida é atenuada pela sabedoria materna. Afinal, aos amigos pode-se sempre escrever.



Avessos a rótulos, não queremos dizer que são obrigatórios. Mas depois de tanto esperarmos por eles e do encantamento que ainda hoje nos provocam, não deixaremos de ficar felizes por todas as crianças que podem, agora, desfrutar da companhia de Urso Pequeno

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Chico-Chorão. Podes crer!


Trinta anos mediaram entre O Que Está Lá Fora (livro que completa a trilogia de que fazem parte Onde Vivem os Monstros e Na Cozinha da Noite) e Chico-Chorão, último álbum escrito e ilustrado por Maurice Sendak. Com a sua publicação, em 2011, reacenderam-se polémicas, ressuscitaram-se dúvidas sobre se as crianças seriam os destinatários certos dos seus livros, e voltaram a destapar-se rótulos como "um livro perturbador para as crianças, sob vários aspectos". 
Considerado por muitos o mais genial e imaginativo criador na área da literatura infantil, aos 83 anos, Sendak evidenciava continuar senhor de toda a sua genialidade. Aos admiradores e defensores convictos, restava desejar, profundamente, que este não fosse o seu último livro… Infelizmente, viria a morrer um ano depois.


Originalmente concebido como animação sobre o algarismo 9, no âmbito da colaboração que manteve com a sobejamente conhecida Rua Sésamo, Sendak levou cerca de três anos a concluir Chico-Chorão. Ao som de Verdi, as personagens deixaram de ser pessoas e cederam lugar a porcos humanizados. Numa entrevista em que foi questionado sobre o porquê da mudança, o irreverente autor respondia assim: "I’ve always loved pigs: the shape of them, the look of them, and the fact that they are so intelligent. I think I like them more than I like little human boys." 
Subversivos, irreverentes, terríficos, inadequados, geniais ou brilhantes... À semelhança do seu criador, os mais de 90 livros de Sendak ocupam lugar de destaque na história da literatura.


Através de um delicioso e irresistível  prólogo em rima, o leitor fica a saber que este  porquinho, já com 9 anos, vai festejar pela primeira vez o seu aniversário. Por razões que nos escusamos a contar, os seus progenitores nunca viram motivo para os festejar. Depois de órfão, a sorte muda quando, na sua vida, surge uma tia tão afectuosa quanto anafada. Um bolo e um fato de cowboy são prendas arrebatadoras. Mas os olhos de Chico-Chorão e a expressão dos animais que o circundam fazem adivinhar algo mais. Uma festa inesquecível,  talvez para compensar?


Com oito anos de comemorações em atraso, o pequeno Chico não parece disposto a deixar o evento em mãos alheias. Enquanto a tia vai trabalhar, chama a si a organização de uma festa de máscaras, distribuindo convites por alguns porquinhos imundos. 


O que se segue é o caos. Uma alucinante balbúrdia, bem ao jeito de Mestre Sendak. Uma espécie de parada de máscaras bizarras, folcloricamente coloridas, vai desfilando, a um ritmo frenético, até encher por completo as páginas do livro. A cadência do texto rimado,  e algo alucinado, dizemos nós, partilha o mesmo frenesim. Os espaços em branco vão desaparecendo à medida que a festa vai atingindo o seu auge. Ninguém parece ter faltado, como atestam as duplas páginas superlotadas de personagens e de cor.


Há porcos mascarados de índios, de cowboys, de xerifes, de monstros... E até a morte parece não ter querido perder o festim. Criaturas loucas  e seres mais ou menos assustadores, afinal como como os que povoam o mundo real das crianças e de quem, dizia Sendak, não as podemos defender. Apesar dos instintos de superproteção de que padecemos. Até ao regresso prematuro da tia, obviamente em polvorosa, também nós, leitores, andamos por ali, estonteados e sem fôlego. Perdidos no meio de uma multidão em êxtase, que suspeitamos integrar mais estranhos do que amigos.


Um cartaz em que lemos a pergunta "Para Onde Vamos Agora?" expressa bem a desorientação. A mesma que, por vezes, as crianças experienciam silenciosamente. Com alguns elementos recrutados à banda desenhada, hábito reiterado na sua obra, Sendak distribui um sem número de mensagens por cartazes ou objectos carregados pelas próprias personagens, que, por sua vez, se desdobram em múltiplas referências culturais, alusões  ou críticas mordazes.  Como a do jornal que Chico-Chorão tem na mão, onde se lê "Lemos Livros Proibidos".


Temas como a rejeição, o alheamento ou a incompreensão dos adultos pela infância atravessam a obra do autor. Quase sempre apaziguados pelo zelo e amor incondicional de um parente próximo. À semelhança da irmã em O Que Está Lá Fora, esse papel é aqui desempenhado pela tia.  Ainda assim, incapazes de eliminar totalmente a insegurança, os medos ou as dúvidas de quem sentiu a rejeição ou a incompreensão. No caso de Chico-Chorão, o pequeno porco que falhou oito aniversários, essas sequelas são retratadas de forma gloriosamente irónica e subtil nas duas últimas páginas do livro. Podes crer!


Esta é uma festa a que nunca faltaríamos. Empunhamos um cartaz de profundo agradecimento à Kalandraka pela chegada de mais um livro de Maurice Sendak! Ainda que tardiamente, aos poucos a sua obra vai chegando. Goste-se ou não, certo é que ninguém lhe fica indiferente.