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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Não Te Afastes


O leitor experimenta uma ávida vontade de chegar ao final do livro. Tem pressa em saber como termina a história, depois de acompanhar Tomás, o pequeno protagonista de 12 anos,  na grande viagem que este decide empreender. O ritmo da narrativa é intenso, a sucessão de acontecimentos é vertiginosa, como se na vida do rapaz tudo acontecesse num abrir e fechar de olhos. Sentimos um intenso desejo de estar ao seu lado nos medos que sente e admiramos-lhe a determinação e a coragem com que os vai enfrentando. Enquanto vive os acontecimentos presentes, o leitor vai sendo informado do passado através dos pensamentos do rapaz, expressos em itálico em páginas alternadas. Não Te Afastes, o último livro de David Machado, é uma história  fantástica que não nos abandona a cabeça por muitos e muitos dias.
Tudo começa com a fuga de Tomás. A morte do pai, que acredita ser culpa sua, fá-lo deixar a mãe e partir para  longe dos amigos.  "Onde eu estou acontecem sempre coisas más" é um pensamento recorrente que o leva a querer afastar-se de quem tanto ama. O rapaz vê a sua crença reforçada quando, chegado à cidade, o país é atingido por um furacão. Sozinho, desesperado, com saudades de casa e da mãe, enfrenta um catastrófico cenário de destruição  onde todos os perigos são possíveis. Com uma coragem quase incomum para a sua idade, Tomás vai ultrapassando o impossível na luta pela sobrevivência. É nesse trajecto que se dá o encontro com um pequeno rinoceronte, acabando ambos por entender que juntos terão mais probabilidades de sobreviver. O precioso amigo acabará por ter um papel determinante no regresso a casa e o muito que vivem juntos leva Tomás a perceber que talvez as coisas más que acontecem à sua volta não sejam responsabilidade sua.
Não Te Afastes é um exímio exemplo de proximidade entre o jovem leitor e o livro. Apetece pedir: Próximo!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Eu Acredito


David Machado parece determinado a aumentar o nosso índice médio de felicidade. Desta feita, numa preciosa parceria com Alex Gozblau. Eu Acredito é um daqueles livros que nos acompanha pela casa toda durante vários dias.


Eu acredito é o mote para a estrutura repetitiva do texto que, de forma metafórica e poética, a cada página desafia a memória de uma infância já vivida e desperta a magia de algo que está por acontecer.


Uma magia espelhada e redimensionada nas ilustrações de Gozblau, que nos conduzem por um universo misterioso e algo fantasmagórico. À semelhança do protagonista, nunca deixamos de procurar o que suspeitamos estar escondido.


O menino que acredita é um menino que, às vezes, parece homem.  Enverga roupas que não são de agora e vive rodeado de móveis e objectos de um indecifrável passado. Por companheiro, tem um gato preto. Com eles, visitamos um tempo que, tal como a crença, não tem idade.


O gato parece assumir papel de mero espectador, quase sempre adoptando a mesma postura do rapaz, mas há momentos em que se nos afigura a personificação da própria crença.

Eu acredito que os fantasmas acreditam que eu também sou fantasma. 

Um fantástico jogo de sombras contrasta, na perfeição, no azul escolhido por Alex Gozblau para retratar o enigmático, o inquietante, o mágico... 

Eu acredito que à noite, para adormecer, os carneiros contam pessoas.

Talvez seja essa inquietude que, ao mesmo tempo que nos impede de fechar o livro, nos recorda Edward GoreyO papel de parede, os cortinados, os móveis austeros, os retratos de parede e até alguns traços fisionómicos do rapaz...


Um livro magnífico, onde é possível acreditar que dentro do escuro há monstros, mas também há fadas. Que os peixes podem nadar até à lua.  Ou até na força do sopro dos gigantes que vivem do outro lado do mundo. 


Nós acreditamos. Em livros que genialmente nos desassossegam!