quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A Ilha do Avô


Muito do fascínio da infância reside na ténue fronteira entre o real e o imaginário, capaz de fazer a criança experienciar  um encantamento que, tantas vezes, escapa ao entendimento do adulto. Enquanto livreira, não é incomum ouvir frases como esta: "Não sei o que esse livro tem, mas o meu filho não o larga."
Sim, há livros onde a criança entra e que se tornam num lugar onde sempre quer voltar. 


A Ilha do Avô, de Benji Davies, é um desses lugares onde se quer ir muitas vezes. Na companhia de Cid, um pequeno rapaz, e do seu avô, a viagem atravessa uma história feita de  amor e de cumplicidades, mas também de perda e de saudade.


A partilha dos dias é facilitada pela proximidade. A casa do avô situa-se  mesmo ao fundo do jardim de Cid e há sempre uma chave debaixo do  vaso de flores para que o pequeno possa entrar sempre que queira.  Um dia, é surpreendido pela presença do avô no sótão, uma parte da casa que ainda desconhecia. Os sótãos são sempre guardadores de coisas mágicas, de tesouros, de memórias... O do avô não fugia à regra. No meio de todas as coisas que  trouxera de várias partes do mundo, tapada por um lençol, havia uma porta metálica à espera de ser transposta. Como que por magia, num virar de página, os dois protagonistas já se encontram no convés de um grande navio.


À semelhança do primeiro livro, A Baleia, também editado pela Orfeu Negro, Davies opta por um texto curto,  deixando às ilustrações a tarefa de contar grande parte da história. Os seus destinatários agradecem. Prolíferas em detalhes, são elas que nos permitem, mesmo antes de nos aventurarmos pelo mar, conhecer já este avô. Amante de pintura, de livros, de música, dedicado às flores e aos animais, viajante convicto...


Davies utiliza com grande mestria as cores e os jogos de sombras, mostrando, de forma sublime, a paradisíaca ilha onde avô e neto chegam depois de muitas milhas de mar. Os pássaros e toda a espécie de animais, as árvores e flores, a velha cabana... deleitam os leitores de um modo só  comparável ao do pequeno Cid. Para ele, aquele é o lugar perfeito onde queria que ficassem para sempre. Mais uma vez, é surpreendido pelo avô, que lhe comunica a intenção de ficar. 


Acompanhamos o pequeno timoneiro na viagem de regresso. Sem o avô, embora não totalmente sozinho. Uma viagem que parece maior, porque é já feita de saudade. Cid não perde tempo e logo na manhã seguinte volta a casa do avô. A chave estava debaixo do vaso de flores, lembram-se? 


Tudo parecia igual, mas o avô já não estava lá. A grande porta metálica também não. Nem alguns outros pertences que os leitores são, implicitamente, desafiados a descobrir numa página que se repete. Como se de um jogo de diferenças se tratasse.  


Um livro que permite mais do que  uma interpretação. O que cada leitor extrai  dependerá, acima de tudo, de si próprio. Para uns, talvez os mais pequenos, o avô vive, agora, feliz naquela ilha longínqua, rodeado pela natureza e pelas coisas de que gosta. Para outros, a deliciosa subtileza utilizada pelo autor não apagará um cenário de perda deste avô com bengala, que  combina o uso de gravata e pulóver com calças de pijama e chinelos de quarto. Seja como for, o final da história, que deixamos para descobrirem, é um forte tributo à imaginação. E àquela fronteira ténue de que falámos.
Façam o favor de levar as crianças até à ilha!

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Como Funciona La Maestra. Bom ano, com boas leituras!


Setembro é tempo de abrir portas. As crianças estão de volta à escola. Para algumas não é um regresso, é apenas o começo. Para todas há um denominador comum: os professores.

Logo na apresentação, ficamos a saber que a professora tem uma parte da frente, que é a que quase sempre se vê, e uma parte de trás, que se vê quando ela se volta.

Como Funciona La Maestra, com texto de Susanna Mattiangeli e ilustrações de Chiara Carrer, é uma belissíma e divertida homenagem à figura do professor. Em jeito de RX, a professora vai sendo dissecada com irresistiveis doses de criatividade e de humor.

Las maestras pueden tener colores y diseños muy distintos. Pueden ser oscuras, claras, enruladas, lisas, a lunares, floreadas, espiradas, a cuadros y de estampados multicolores. Sobre la maestra a rayas se escribe, sobre la maestra cuadriculada se hacen las cuentas.

Há professoras altas, baixas, gordas, magras, de várias cores e feitios... A diversidade reina na proporção da imagem que as crianças podem ter delas. Ainda assim, os mais pequenos ficam a saber que uma professora pequena não é apenas metade de uma professora, assim como uma muito grande não vale por duas.


Dentro da professora estão os números, as tabuadas, os rios, as montanhas, o relógio, os cinco sentidos, o homem primitivo e muitas outras coisas que, passado pouco tempo, também vão para dentro dos meninos.
Uma imperdível aula de anatomia que não se fica só pelo estudo das características físicas e onde o género masculino não é esquecido. Porque, às vezes, a professora é um homem. 


Maîtresse, teacher, morá...  o elenco da palavra em várias línguas não foi esquecido. Mas não se iludam porque, entre elas, falam o idioma das professoras, que é como o idioma dos adultos, mas mais difícil. Com as crianças falam se-pa-ran-do bem as sí-la-bas, em voz baixa ou GRITANDO.


A mestria do trabalho de Chiara Carrer não surpreende quem a conhece. Desenho, colagem, papéis e texturas diferentes contribuem para um álbum deliciosamente imaginativo que resulta num retrato do professor com que os mais pequenos facilmente se identificam. E que, carinhosamente, transporta o leitor adulto para os bancos de escola. Com a certeza de que mesmo quando o tempo passa e a nossa professora já é a professora de outros, se a voltamos a encontrar sabemos sempre que é ela! Ou que quando é necessário relembrar um poema ou uma velha história ouvida na sala de aula, basta procurar bem e encontramos facilmente o nosso lugar e o de todos os outros, tal como a professora nos tinha colocado!
Este é o livro da semana na Casa dos Hipopómatos. Visitem-nos, venham vê-lo! Bom ano & boas leituras!

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A Bola Amarela. Jogamos?


Há livros de outro planeta! Neste caso, do Planeta Tangerina. Em 2014, a propósito de Daqui Ninguém Passa, escrevemos: É a história de uma revolução, mas também a revolução do próprio livro. É uma brincadeira magnífica, hilariantemente conseguida, que nos faz querer participar! 



Hoje, falamos de A Bola Amarela e continuamos a dizer que o livro se reinventa todos os dias. Com texto de Daniel Fehr e ilustrações de Bernardo Carvalho, o mais recente livro da colecção De Cantos Redondos do Planeta Tangerina é um livro-jogo que, com elevadas doses de diversão e originalidade, leva o leitor a calcorrear 37 páginas para trás e para a frente... para a frente e para trás. As crianças, e não só, deleitam-se com esta aventura! 


Um livro é um lugar. Com dentro e fora, esquerda e direita, perto e longe, princípio e fim, diz a editora a propósito desta colecção. Aqui, o lugar começa por ser um campo de ténis e a acção desencadeia-se quando Luísa e Luís decidem fazer um jogo amigável e, imaginem, a bola acaba por escapulir-se na dobra entre as páginas! 



Aos dois amigos não resta alternativa que não seja procurá-la. E os leitores? Pois, esses têm de segui-los, iniciando uma aventura que os levará a percorrer os mais diversificados e encantadores cenários. Mas não se enganem, não é fácil e a coisa exige alguma forma física. Aqui, não chega virar a página. A numeração não existe para ser seguida ordeiramente. Aqui, é preciso saltitar entre páginas, para trás e para a frente.


De pista em pista, acompanhamos os pequenos no rasto da bola. Atravessamos uma festa, onde todos conhecemos alguns dos convidados, uma savana, um campo com burros, páginas digitais que nos trazem à memória  alguns videojogos e muito mais. Tudo, pela mão de Bernardo Carvalho que, com a qualidade a que já nos habituou, se socorre do desenho e da fotografia, num registo pautado pelo humor.


Uma louca viagem com passagem pelo céu e direito a conhecer um deus muito especial! 
Ufa! Não!! Não descansem porque não podem perder de vista os petizes! E não se deixem enganar, bolas amarelas há muitas...


Livros em papel, interativos e digitais? Nem mais.
Subjacente à colecção, está o conceito de interactividade. Genialmente conseguida, os leitores mergulham literalmente no livro, esgueirando-se pelas dobras ou saltando pelas páginas até conseguirem enxergar a bola amarela. Mas, não se ficam por aí. É um desafio empolgante e irresistível, com um final/recomeço hilariante, feito na companhia dos dois pequenos protagonistas. Ela desfrutando, tal como os leitores, de cada página, ele resmungando com tudo e todos. Até com Deus! Até com os autores do livro! DEVEM ESTAR A GOZAR!!



Há planetas assim. Lugares onde os leitores participam, jogam, brincam, aventuram-se... dentro do livro! Pssst, os miúdos já estão a caminho do campo de ténis? Não?? DEVEM ESTAR A GOZAR!!