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terça-feira, 4 de novembro de 2025

Lembras-te?

 























Lembras-te? | Sydney Smith | Fábula


O presente entrelaça-se, de forma bela e poética, com as preciosas memórias de um passado não muito longínquo.  Um tempo que se revela feliz é agora lembrado por mãe e filho que parecem alicerçar nele a força para  viver o presente e construir o futuro. 








































Num cenário envolto em tons escuros, vários planos dos rostos, das mãos e dos pés mostram os dois protagonistas deitados, num aconchego feito de proximidade, recordando nostalgicamente o que ficou para trás. É através da evocação dessas memórias que o leitor fica a conhecer melhor a vida que já tiveram. O lugar onde viviam, o tempo passado em família com o pai e o avô, pequenos grandes momentos reveladores do afecto e do amor que preenchiam os seus dias. Uma história de vida contada a partir da dicotomia passado e presente.








































A pergunta que dá título ao livro está presente a cada dupla página, situando o leitor no momento presente e partilhando com ele as recordações de mãe e filho. As falas de ambos são assinaladas por cores diferentes, permitindo-nos identificar quem lembra o quê.
Os tons escuros que pintam  os silêncios e a nostalgia das memórias,  contrastam com as cores usadas nas vinhetas que ilustram, sequencialmente, alguns momentos do passado: dias de piquenique, de aniversário,  a primeira bicicleta e a primeira queda, a casa do avô... 








































Depois do incrível Ser Pequeno na Cidade, o seu livro estreia a solo, o autor volta a deslumbrar-nos com um livro onde o peso da partida e da separação se debate com a esperança de novos recomeços. Afinal, uma temática que é, hoje, coisa de todos os dias. O estilo de Smith, já aqui o dissemos, é indissociável do seu gosto pelas vinhetas, pelos quadros em que distende sequencialmente as suas histórias, pelas manchas de toque impressionista, mas sempre fornecendo ao leitor retratos fiéis da realidade. Este livro, dedicado à sua mãe, não é excepção. 








































Não sabemos as razões que motivaram a partida, que deixaram o pai e o avô para trás, mas intuímos a força que os dois precisam para enfrentar tamanha mudança. No final, o rapaz mostra-se confiante, dando ao leitor uma informação adicional: aqui não têm que estar preocupados ou assustados. Como que por magia, o sol nasce sobre a casa nova e o cheiro da padaria do outro lado da rua mistura-se com a certeza de que no novo caminho tudo vai correr bem. Os momentos de agora transformar-se-ão, também eles, em preciosas e alegres memórias. 
Uma já existe. A viagem que os trouxe até aqui.  À cidade onde se perderam, acabando guiados pelo ursinho de peluche que o pai lhe tinha dado. Lembras-te?

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Eu Falo Como Um Rio
























O P de pinheiro cria raízes que se enredam na minha língua. O C é um corvo que crava as garras no fundo da minha garganta. O M da madrugada lança um feitiço que prende os meus lábios num murmúrio.

É assim que o pequeno protagonista desta história nos descreve a sua gaguez. Cedo lhe adivinhamos a solidão e a luta que marcam cada nascer do dia. Num registo intenso e intimista, texto e imagens entrelaçam-se, oferecendo aos leitores um livro belo e tocante.
















O ritual é penoso, mas ele não nos oculta nada. Conta-nos que todas as manhãs acorda com aqueles sons de palavras encravados na boca. Permanece silencioso como uma pedra e prepara-se para cada novo dia sem palavras. Depois, chega a hora da escola.  Esconde-se no fundo da sala, desejando com todas as suas forças que não o vejam. Para não ter de falar. 


 





















Mas nem sempre isso acontece. Há dias mais difíceis  do que outros. As manhãs são sempre terríveis, mas a de hoje parece pior. O professor dirige-se a ele, é chegada a sua vez de falar. É o momento em que todos os outros olhos se fixam no menino a quem as palavras se encravam na boca. Hoje, está mais encravado que nunca. Só vê as bocas dos outros. Essas não encravam. Enchem-se de risos para troçar dele. Sabe que não vai conseguir. Só quer ir para casa.























É apenas um "dia não" para falar, diz o pai quando o vai buscar. O leitor acompanha-os até ao sítio mais tranquilo que aquele pai escolhe para apaziguar o seu menino. É aqui, no rio, que sentimos a sua tristeza, que vemos os seus olhos cheios de chuva, ainda que não lhe consigamos ver o rosto. Ficamos aliviados quando o braço do pai pousa no seu ombro, porque há já várias páginas que o queríamos abraçar. Ficamos felizes quando sentimos que o peso metafórico das palavras usadas se apresenta como um desbloqueio.

- Vês como a água se move? É assim que tu falas. Sim, o menino consegue ver a água a borbulhar, a agitar-se, a redemoinhar e a embater. Agora, sabe que fala como um rio. E é disso que se vai lembrar, sempre que tiver medo ou vontade de chorar. 























Eu Falo Como Um Rio, recentemente editado entre nós pela Fábula, tem texto de Jordan Scott e ilustrações do já nosso conhecido Sydney Smith, de quem falámos aqui. Scott é um poeta canadiano que parte da sua própria experiência para esta primeira incursão no universo da literatura infantil, ainda que a temática não seja nova no conjunto da sua obra. O seu texto é intenso, comovente e feito dessa dureza que é ser real. As ilustrações de Smith conferem-lhe uma dimensão extraordinária, justificando mais do que nunca as manchas, as imagens difusas e o toque impressionista, tão presentes no seu trabalho. O desdobrável que assinala o momento alto desta história abre-se aos olhos do leitor, recordando-lhe a imensidão da tristeza que experienciou com o menino. Ao mesmo tempo que lhe traz a imensidão do mar e de uma certa libertação. É um livro belo. 

Na contracapa lê-se que "este é um livro para quem se sente diferente, solitário ou incapaz de se integrar". Nós atrevemo-nos a acrescentar que é um livro para todos, sobretudo para os que têm dificuldade em aceitar a diferença.


segunda-feira, 29 de março de 2021

Ser Pequeno na Cidade























Intenso, comovente, ambíguo e maravilhosamente desafiador. É assim Ser Pequeno na Cidade, do canadiano Sydney Smith, trazido para Portugal pela mão da Fábula. É a estreia de Smith como autor de texto e ilustração.  Mas, enquanto ilustrador, o seu trabalho  sempre deslumbrou quem o segue de perto. Os prémios recolhidos falam por si. Por cá, conhecemos  Flores Mágicas, editado pela Livros Horizonte. Fãs incondicionais, há muito que aguardávamos festejar uma nova visita. 

Ser Pequeno na Cidade é uma narrativa quase cinematográfica que nos prende logo na capa. O olhar enigmático  de uma criança para lá do vidro de uma janela de autocarro, os prédios em fundo,  as luzes vermelhas dos faróis dos carros, os pequenos flocos de neve e a aparente obviedade do  título chamam o leitor para o livro mesmo antes de o abrir. O estilo de Smith é indissociável do seu gosto pelas vinhetas, pelos quadros em que distende sequencialmente as suas histórias. Aqui e além, as ilustrações surgem-nos como manchas, relembrando-nos algumas obras impressionistas, sem nunca deixar de nos fornecer um retrato imponente e bem real da cidade. Os candeeiros, as passadeiras, os letreiros, os cabos eléctricos, as sombras... são múltiplos e desconcertantes os detalhes que o autor nos oferece. Um inicio silencioso e nostálgico, através de uma dupla página de observação da vida na cidade, deixa antever algum mistério. A acção parece começar com o gesto da criança ao levantar-se para sinalizar que sairá na paragem seguinte. 

                                                                                                                                                                        




















A saída do autocarro é feita para uma dupla página onde a cidade se agiganta. Pessoas, prédios de grandes dimensões, carros, gruas,  semáforos... compõem o cenário , algo intimidatório, onde chega a pequena criança carregando a sua mochila. Pela primeira vez, surgem algumas palavras. Ao leitor, soam reconfortantes: "Eu sei como é ser pequeno na cidade". Percorremos o caminho com a criança. Não lhe conhecemos nome, não sabemos se é rapaz ou rapariga. Devidamente equipada para o dia de inverno que enfrenta, apreendemos-lhe apenas a pequena estatura e o olhar profundo. Como leitores, a curiosidade é grande, as interrogações são muitas. De uma forma ou de outra, já todos vivenciamos esta experiência e sabemos como pode ser difícil ser pequeno na cidade. A solidão, o medo e o perigo parecem continuar a atravessar  o livro.  
























A neve  aumenta de intensidade, o entardecer avizinha-se. Só a voz o continua a acompanhar, redobrando agora os conselhos. Os becos podem ser bons atalhos. Mas não vás por este. É demasiado escuro. Neste quintal, três cães grandes... se eu fosse a ti... não passava nem perto. Há  muitos sítios onde te podes esconder

A esta altura, é legítimo ao leitor pensar que esta foi a forma encontrada pelo autor para que a criança não enfrentasse tudo sozinha, para que a travessia não fosse tão dura. Há um narrador que a acompanha, que a aconselha, que lhe diz por onde deve ou não deve ir, com quem pode e com quem não deve falar, que lhe indica os lugares mais seguros. 
























Apesar do barulho da cidade, um intenso silêncio parece envolver a criança e os leitores numa mesma teia. Paramos muitas vezes. Vislumbramos os perigos. Sentimo-nos igualmente inseguros. Tememos por aquela criança. A meio, paramos, confusos. Por que razão uma criança pedirá um peixe ou se esconderá no cimo de uma nogueira? Por que razão dormirá uma soneca junto ao vapor quente de uma lavandaria ou se aninhará no colo de alguém? Mas não queremos perder qualquer passo, qualquer gesto. Depois, chega o momento. Há uma espécie de magia na viragem da história. Não na história de Smith, mas na historia que o leitor foi construindo na sua cabeça. É aqui que percebemos que os conselhos não são para a criança, que não há o tal narrador que procurávamos desde o começo, que provavelmente vamos ter de percorrer este caminho uma e outra vez! Porque muita coisa nos terá escapado. Porque não procurámos o suficiente, não estávamos avisados. Este não é só um caminho feito de medos e inseguranças. É também um caminho feito de perda. Mas isso só Smith sabia. O que ele fez foi desafiar os leitores para um jogo de ambiguidade e subtileza. Nós aceitámos. Agora é a vossa vez!
























Com uma viragem tão inesperada quanto surpreendente e um final em aberto, este é um livro brilhantemente construído. Com alguns apontamentos a lembrar uma das confessas inspirações do autor, Edward Gorey. Mas também aqui e além, invocando esse outro grande livro Um Dia de Neve, do autor que dá o nome ao prémio com que foi galardoado, Ezra Jack Keats.  Pode não nevar nas nossas cidades, mas as ruas são igualmente feitas de perigos e incertezas.  Esta é uma caminhada que pequenos e grandes não podem perder.