segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Inventário Dos Animais Com Cauda


Depois do precioso Inventário das Árvores, de que falámos aqui, chega agora, da autoria da mesma dupla,  o Inventário dos Animais Com Cauda.

Afinal, para que serve a cauda dos animais?


Ornitorrinco usa a cauda, uma espécie de manta dobrada contra a barriga, para manter os ovos quentes.
Gliptodonte, animal que viveu ao mesmo tempo que os humanos e desapareceu há dez mil anos, usava  a sua cauda, coberta de anéis ósseos e espinhos, para se defender dos predadores.
Poderíamos continuar desvendando inúmeras curiosidades... Enxota-moscas, pá do lixo, guarda-sol... Sua excelência a cauda, assume várias funções, tamanhos e cores. Descobrir tudo isso com os mais pequenos é algo de fantástico.




Neste inventário, os animais são classificados de acordo com o papel que a sua cauda desempenha: deslocação, equilíbrio, comunicação, sedução, combate e outras. Vale a pena entrar!



Sabiam que a Preguiça-gigante  se apoia na cauda para chegar aos pontos mais altos? Que, sem a sua, o Pica-pau-preto talvez não se fizesse ouvir de forma tão ritmada?




Que, para muitos, ela funciona como arma? É o caso do Lagarto-de-cauda espinhosa ou lagarto-das-palmeiras  que desencoraja os predadores com as suas escamas espinhosas.


Que outros há que a utilizam como arma, mas de sedução? São os que se servem dela para chamar e cativar os parceiros, como é o caso do Galo-lira.

Os Inventários são editados pela Faktoria de Livros, uma chancela da Kalandraka. Gostamos de os levar lá para fora. Gostamos da forma como nos fazem sentir mais perto da natureza. Venha o próximo!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

A Minha Professora É Um Monstro! (Não Sou, Não).


Monstro bate o pé? Bate. Monstro ruge? Ruge. A Dona Lurdes, professora do Frederico, faz tudo isso! E muito mais!



Não admira pois que Frederico, um rapazinho de cabelo sempre em pé e com especial predilecção por aviões de papel em sala de aula, tenha um grande problema na escola. O problema tem nome: Dona Lurdes, um monstro!


Peter Brown presenteia-nos com uma história cheia de humor e sensibilidade em torno do binómio professor-aluno, das relações entre ambos,  mostrando como as aparências tantas vezes enganam. Como, sem nos darmos conta, os aspectos secundários se apoderam, não raro, do nosso dia a dia, sobrepondo-se ao que é verdadeiramente essencial. Por isso, não é de estranhar que a história seja dedicada a "professores incompreendidos" e a "alunos incompreendidos".


Na nossa história tudo muda quando, num sábado, Frederico e a sua monstruosa professora se encontram, por acaso, fora da escola. Contrafeito com tal aparição, Frederico percebe que não pode evitar o encontro. A atrapalhação inicial, o pouco à vontade, a intimidação que a figura do (ainda) monstro lhe provoca são visíveis no pequeno.


O desconforto da situação acaba, todavia, por ser ultrapassado por uma ajuda exterior, uma rajada de vento. O lindo chapéu da Dona Lurdes , oferecido pela avó (as professoras também têm avós!) voa e é salvo por Frederico.



É notável o trabalho de Brown no que toca às ilustrações. Na verdade, tratando-se de uma história com pouco texto, é através delas que assistimos, sem necessidade de qualquer explicação, à transformação da professora. À medida que a aproximação entre ambos se estreita, a mudança de cor e de alguns detalhes físicos, vão revelando a progressiva   humanização da Dona Lurdes. As emoções e reações estão patentes em ambos os rostos.


 




A sua cor verde, típica da figura de ogre que nos é apresentada inicialmente por Frederico, vai lentamente cedendo lugar à verdadeira cor de pele da Dona Lurdes, os dentes afiados deixam de o ser, as narinas vão adquirindo um formato normal...

                                       
                              
As barreiras ultrapassam-se, o desconforto dilui-se e Frederico até acaba por convidar a Dona Lurdes para conhecer o seu sítio preferido no parque. Lá, o rapaz rende-se!  Porque a sua professora teve uma ideia magnífica!

Será que a história perde o seu monstro? Pelo menos, naquele sábado, os olhos de Frederico, agora bem mais perto do coração, parecem ter deixado de o ver. Será este encontro suficiente para mudar as coisas em sala de aula? Pois, queridos professores e alunos, incompreendidos ou não, leiam o livro e descubram vocês mesmos! 


Nós apenas garantimos que a Dona Lurdes continua a bater o pé e a rugir (embora não esqueçamos que também adora grasnar!).


Numa altura do ano em que já devem existir por aí muitos monstros e, provavelmente, o tráfego de aviões de papel estará a congestionar algumas salas de aula, este é um livro obrigatório!


Porque todos nós, algum dia, gostaríamos de nos ter cruzado com as Donas Lurdes das nossas vidas e ouvi-las dizer, tratando-nos pelo diminutivo: És o meu herói!

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Tudo É Sempre Outra Coisa


A leitura deste livro pode começar por qualquer página. Mas, se se começar pelo princípio, descobre-se que há aqui alguém que gosta de ver o que há do outro lado.


As palavras do poeta fervilham-nos na cabeça. Espreitamos o outro lado do muro. Curiosos, queremos ver, ouvir, sentir... as outras coisas que todas as coisas são. Começámos pelo princípio. 


João Pedro Mésseder escreve que este é o seu primeiro livro (sem ser) de poesia. Porque tudo é sempre outra coisa, é a poesia das duas linguagens, textual e imagética, que nos faz permanecer no muro. Imaginando.


Por entre a delicadeza das ilustrações de Rachel Caiano não resistimos a  tentar agarrar essa linha que separa e liga os dois mundos. A duas cores, é nelas que, por vezes,  buscamos o sentido das palavras do poeta.




Somos fãs do trabalho de Rachel Caiano. Gostamos muito dos seus meninos de carvão, da pureza que emana dos seus rostos, do olhar doce e penetrante que nos fascina ao ponto de lhes querer dar vida, de os imaginar a correr por ruas largas e calmas, sem saída.




É como diz  o próprio João Pedro MéssederOs pintores roubam a beleza do mundo - embora eles digam que não, que lhes vem tudo da cabeça. Mas a verdade também é que o mundo não chega a perder essa beleza. Parece é que os pintores a multiplicam nos seus quadros. Talvez por isso, são os únicos ladrões que ninguém se importa que andem por aí, em liberdade.




Qual manta de retalhos, o poeta solta o pensamento pelas páginas do livro. Tentamos acompanhá-lo. Escutamos  a memória  desse menino poeta, que ainda não sabia o que era um poema, vemos os cachecóis que, na primavera, emigram para países mais ao norte, as barrigas dos egoístas que crescem para dentro, comprimindo-lhes o coração, ou a bandeira pendurada no mastro, que em dias sem vento, é como um avô adormecido no seu sofá...



Voltamos a espreitar o lado de lá do muro.  Aquilo que parecia uma manta de retalhos é agora outra coisa. O livro é também companheiro de todos os dias, unindo Hipopómatos grandes e pequenos à volta de questões como esta:
Será que os corrimões das escadas também se cansam menos a descer do que a subir?  


As coisas não passam de coisas? Ou são coisas e alguma coisa mais? A pergunta é do anterior livro desta dupla, O Pequeno Livro das Coisas, de que falámos aqui


Afinal, tudo é sempre outra coisa. Há livros assim.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A Caminho...





E o vencedor do sorteio é... Pedro Tomaz. Parabéns, Pedro! Solicitamos a morada. Obrigada a todos os que participaram!

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

ART & MAX

Welcome to Portugal, Mr. David Wiesner! Há muito que esperávamos por si!


Um dos nomes mais conceituados da literatura infantil, o autor americano já venceu por três vezes a prestigiada Caldecott Medal, a primeira das quais em 1992, e arrecadou outras tantas Caldecott Honors.  Palmarés apenas ultrapassado por Marcia Brown.


Sem grande alarido, David Wiesner chegou por estes dias às nossas livrarias. Trazido pela Orfeu Negro,  Art & Max é o penúltimo livro do autor, numa linha algo diferente do fabuloso Flotsam (só de imagens) que o antecedeu. 


Mas nem por isso menos fabuloso!  Art & Max  é um livro sobre arte. Brilhantemente imaginativo e original, conduz-nos numa alucinante viagem por dentro do processo de criação artística, explorando métodos e técnicas, evidenciando resultados possíveis. A originalidade da obra reside no facto de Weisner  nos oferecer a possibilidade de acompanhar o processo de ilustração através da sua própria desconstrução.


O arranque da história coincide com o momento do encontro de Art(ur) e Max, os dois répteis que aqui vemos. Arthur é pintor, aparentemente metódico e disciplinado, um pouco  convencido e algo arrogante. Max também quer ser pintor. A arte parece exercer sobre ele um fascínio desmedido e, como todos os principiantes, tem o ímpeto de "meter a mão na massa". Algo voluntarioso como qualquer bom aprendiz, tem determinação q.b..


Max interpreta literalmente a sugestão de Artur e decide pintá-lo! Talvez as técnicas utilizadas não sejam as mais correctas... ou a pele de réptil não seja dos materiais mais fáceis...



O que não impede que, de imediato, fiquemos contagiados pelas cores quentes e  fortes que utiliza, lhe admiremos a arte e até nos apeteça formar um CLUBE DE FÃS do Max.  


Mesmo quando Artur aparenta explodir, projectando-se em manchas de tinta que se transformam numa dança de arco-íris aos nossos olhos.


Como se de duas histórias se tratasse, unidas pela forte componente visual, assistimos às reacções de cada um, à medida que o processo de criação vai sendo desmontado, ou se preferirmos, à medida que Art se vai reduzindo. O momento alto do trabalho de Max revela-se na generosidade do copo de água que oferece a Art quando este se sente esquisito e que conduz à diluição de toda a aguarela que ainda o cobria, vendo-se reduzido ao simples traço.



Hilariante é pouco para descrever a série de esforços que Max enceta com vista à reconstrução de  Art.  A linha que Max segura, para além do que resta daquele, consubstancia agora o fio condutor de toda a história. Quando Max decide refazer o mestre, as surpresas não param mais.



Acrílico,  pastel, aguarela... Art vai ficando sem forma. Os esforços são agora inversos. Max necessita recrear Art, e embora já tenhamos percebido que não passa de um amador, a paixão e o instinto  irão guiá-lo até ao fim.  Até lá, os olhos dos mais pequenos estarão esbugalhados e o riso andará à solta. 


     

De forma notável, ao aparente nonsense da arte de Max, que se confunde com o do próprio livro, e à bizarria resultante de tudo o que aquele faz, Wiesner contrapõe o realismo das expressões faciais e corporais, fazendo-nos esquecer que de répteis se trata num cenário nu de deserto que atravessa todas as páginas. 

    


À semelhança do próprio Max, esta é uma história desconcertantemente contagiante, provocando-nos a todos, pequenos e grandes, o ímpeto de meter mãos à obra. Viva a liberdade de criação!
Numa entrevista que podem ver aqui, David Weisner diz pensar que ambos os seus répteis aprenderam alguma coisa: estar aberto a novas ideias e possibilidades.

  

Nós estamos! Enquanto pintamos tudo o que encontramos por aqui, tentamos adivinhar quando chegará  o seu próximo livro. Obrigada, Orfeu Negro!