terça-feira, 17 de março de 2026

Grande e pequena


 






















Grande e pequena | Arianna Squilloni e Raquel Catalina | Kalandraka


Obra vencedora do XVIII Premio Internacional Compostela para Álbuns Ilustrados, Grande e pequena oferece-nos uma poética e tocante abordagem sobre o decurso do tempo. A vida de uma mulher, desde a infância até à velhice, é o ponto de partida para uma bela e metafórica viagem pelo ciclo da vida que envolve o leitor da primeira à última página.























Natália nasceu numa pequena casa junto a um bosque. Por ali foi crescendo até que a casa se tornou pequena para ela. O novo destino escolhido foi a grande cidade, onde viveu muitos e muitos anos. Com a natureza no coração, tornou-se pintora. Celebrou a vida de muitas formas.





































Mais do que no texto, é nas imagens que esta vida cheia e inspiradora se revela ao leitor. Ainda na pequenita casa, conhecemos-lhe o hábito da leitura. Pela vida fora, acompanhamo-la nas  exposições, nos espectáculos, nas suas viagens... Natália é uma artista. Uma mulher criativa,  livre e inspiradora com quem criamos uma forte empatia.




























O tempo não para e, um dia, Natália percebe que a cidade se tinha tornado demasiado grande para si. Até porque estava a encolher. Com noventa anos e cada vez mais pequena, decide voltar às origens e retorna à sua pequenina casa do bosque. 































Ao contrário dos tempos idos, também a casa do bosque se revela, agora, grande. Natália encolhe cada vez mais, ficando tão pequena que ninguém a consegue ver. Há mesmo quem pense que a casa do bosque está assombrada, que é habitada por um fantasma. Ninguém se aproxima mais da casa e não parece haver quem se preocupe com Natália. A vida cheia e inspiradora de outrora cede lugar à velhice e à solidão. Até ao dia em que surge uma inesperada companhia. Alguém que, como ela, já perdera quase tudo na vida. A arte e a natureza vão acabar por os juntar. 








































Este é um livro habitado por um álbum de memórias, onde à poesia do curto texto se junta a sensibilidade das ilustrações, cujos detalhes nos prendem demoradamente a cada capítulo da vida desta mulher. Raquel Catalina,  que acaba de vencer o prestigiado Bologna Ragazzi Awards 2026 na categoria de Ficção, com o livro Ingrávida, chega até nós através de diversas editoras. Para além desta magnífica obra editada pela Kalandraka, também as editoras Bruaá e Akiara já publicaram livros da ilustradora espanhola. Nós somos fãs, gostamos de todos. E vocês?




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Viagens de Comboio em Primeira Classe


 




















Viagens de Comboio em Primeira Classe | Dani Torrent | Orfeu Negro


Clementina fora educada pelo pai para se tornar uma dama da alta sociedade. Funcionário público com alguns relacionamentos no meio, o homem sonhava com um bom casamento para a filha, esforçando-se por lhe ensinar as boas maneiras e a etiqueta exigíveis. O resto já a rapariga tinha. Possuía um porte aristocrático, elegância e uma beleza mesclada de languidez, capazes de despertar grandes paixões. 
























Um dia, a guerra rebentou e o mundo da rapariga ruiu. A guerra levou-lhe o pai, a casa, os planos. Clementina ficou sozinha, perdida nos escombros da destruição e sem encontrar a porta para o futuro. Mas é nas situações de maior desespero que o ser humano tem de se reerguer e o primeiro dia de primavera devolveu a Clementina a lucidez para reorganizar os planos do pai e ir em busca de um bom casamento. Usou as poucas poupanças que o pai deixara e gastou metade num fino e elegante conjunto de seda verde-hortelã e numa enorme capelina às riscas que lhe devolveram o seu ar distinto. Com a outra metade, comprou um bilhete anual de comboio em primeira classe. Era esse o lugar certo para conhecer os cavalheiros mais abastados. Um ano deveria ser suficiente para concretizar o sonho do pai. Mas seria esse, também, o de Clementina?
























Seguindo a estrutura dos contos clássicos, Torrent acaba por oferecer ao leitor uma fábula feminista e uma visão crítica de uma realidade que não está assim tão distante dos nossos dias. As ilustrações, marcadas sobretudo pelo grafite e pelos pastéis, chegam-nos difusas, talvez um pouco à semelhança da vida da protagonista. A tonalidade creme do papel utilizado acolhe-as, oferecendo ao livro um certo toque de passado. Será esta uma história impossível de ser vivida pelas mulheres de hoje? 




Instalada na primeira classe daquele comboio, Clementina tem um ano para prosseguir o sonho do pai. Nas três estações do ano que se avizinham, conhece três cavalheiros abastados, cada um mais rico do que o outro. Um banqueiro, um general e um príncipe. Todos lhe oferecem o mundo. Mas o silvo do primeiro comboio da manhã parecia fazer desperta-la de um sonho que não era seu e que não queria. Clementina partiu sempre, deixando para trás apenas o suave aroma a hortelã. A cada regresso reencontrava Otto, o rapaz que lhe transportava a mala e que viria a tornar-se maquinista. O mesmo que manifestava o desejo de que a viagem fosse interminável. 























O ano chegava ao fim. E os planos que, noutro tempo, o pai fizera para ela, também. A viagem permitiu-lhe conhecer o mundo e conhecer-se melhor a si própria. As mordomias e os bens materiais que os homens que conhecera lhe quiseram dar não a tinham seduzido. Tinha descoberto um bem maior, a liberdade. Clementina tornou-se uma mulher determinada e independente. Agarrou o destino com as suas próprias mãos, agora com a certeza de que aquele era o lugar de onde nunca mais se quer partir. 























Este é um livro simultaneamente poderoso e delicado. Texto e ilustrações coabitam numa desalinhada e desconcertante harmonia. Há ilustrações de dupla página sem texto, há páginas só com texto, há opções intermédias. Os silêncios, os pensamentos, os vazios, as personagens e o seu posicionamento, os jogos de luz... tudo se espraia pelo papel como se fosse um convite ao leitor para entrar num qualquer museu. Um livro com várias velocidades de leitura. Afinal, ainda que em primeira classe, a viagem é longa. Não a percam, a única certeza é que Clementina estará por lá.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A Bruxinha Avelã, Um Ano na Floresta



A Bruxinha Avelã, Um Ano na Floresta | Phoebe Wahl | Fábula

Nestes dias trágicos que estamos a viver, todos gostaríamos de ter por perto uma bruxinha como esta. Longe da figura estereotipada das bruxas, Avelã apresenta uma pequena e robusta estatura. Do alto das suas tranças compridas, exibe uma aparência simples e até despreocupada quando nos revela as pernas cheias de pêlos. Quando a conhecemos, ficamos a saber que é generosa, determinada e corajosa. Vive para ajudar os outros e não há um único habitante na sua esplendorosa floresta que não possa contar com ela.
























A floresta não parece ter segredos para esta guerreira.  Desde a sua acolhedora casa, construída num tronco de árvore, percorre qualquer distância para ajudar quem dela precise. Avelã é parteira, curandeira, conselheira... é pau para toda a obra. Tanto a vemos em casa dos Esquilos a tratar da dor de dentes de um dos pequenotes, como a tirar um espinho da pata de uma toupeira ou junto à família dos Coelhos a pesar os recém-nascidos.
























Whal estruturou o livro em quatro histórias, uma para cada estação do ano. Na primavera, Avelã resgata um ovo de coruja órfão e acolhe-o em sua casa até a pequena criatura, de seu nome Óscar, ter condições de se mudar para o seu habitat. No outono, socorre um troll solitário e assustado, ajudando-o a integrar-se na comunidade. O leitor é, assim, convidado a passar um ano na floresta, acompanhando o dia a dia da comunidade e deslumbrando-nos com os cantos e recantos de um cenário encantador. A loja da aldeia, a sapateira, os correios, a biblioteca pública do verde-musgo, a terra das fadas, o lago são alguns dos lugares maravilhosos que fazem com que, independentemente da idade, todos queiramos permanecer na magnífica floresta. 




 

































aqui falámos do quanto gostamos do trabalho de Wahl e da coerência de que os seus livros sempre se revestem. Neste, os tons terra, os verdes, os laranja avermelhados harmonizam-se exaltando a beleza da natureza. Os habitantes espelham a diversidade de uma comunidade a que gostaríamos de pertencer. Gnomos, fadas, dríades coabitam com toda a espécie de animais, na sua maioria humanizados. Várias cores de pele reflectem que aqui há lugar para todos. Os detalhes transportam-nos para a vida real. Tanto encontramos um gnomo em cadeira de rodas como um pai de avental florido e biberão na mão, exausto de cuidar dos filhotes. Há uma parafernália de pormenores que exemplifica, em simultâneo, a rotina de cada um e o espírito da vida em comunidade. Por todo o lado, há apontamentos deliciosos e cheios de humor, como os óculos das manas toupeiras.









































Avelã é destemida e não mede esforços quando se trata de prestar auxílio. E se for ela a precisar, existirá alguém pronto a socorrê-la? Será o seu esforço reconhecido e retribuído? Esta é a altura do leitor se embrenhar na floresta e descobrir. 







































Um livro que é uma bonita ode à natureza, à amizade e ao espírito de entreajuda, cada vez mais necessário. Só boas razões para admirar esta bruxinha que, ainda por cima, é leitora!

"Com mil cogumelos", todos deviam conhecer e ter por perto uma Avelã! Vivam as Avelãs!