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sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Terra de Ninguém

 




Terra de Ninguém | María José Floriano e Federico Delicado | Kalandraka


Fica a cerca de 15 Km de Madrid, uma curta viagem de carro até à capital espanhola. Mas poucos serão os que já ouviram falar de Cañada Real, considerado o maior bairro da lata da Europa. Em 2018, iniciou-se o desmantelamento da parte tida como núcleo, El Gallinero. Voltámos a ouvir falar do bairro dois anos depois, quando a imprensa noticiou que se encontrava sem electricidade há mais de um ano. Água quente, aquecimento, luz e todas as pequenas e grandes coisas que dela dependem não existiam por ali. Existiria alguma coisa? Em plena época pandémica, as crianças não conseguiam acompanhar a escola porque não tinham como carregar os poucos dispositivos electrónicos que permitiam segui-la. Será possível excluir ainda mais os que já nasceram excluídos?



Em Novembro do ano passado,  a TSF, através da sua correspondente em Madrid,  fazia uma grande reportagem sobre Cañada Real, os seus moradores e as condições miseráveis que lhes escurecem os dias. A electricidade tinha sido cortada em Outubro de 2020. Mais de quatro mil pessoas, das quais 1800 crianças, viviam assim há mais de 400 dias.  As autoridades que procederam ao corte da electricidade invocaram o consumo excessivo devido à existência de várias plantações de cannabis. Os moradores não negavam saber da sua existência, mas nunca tinham assistido a qualquer intervenção policial para lhes pôr termo. A coincidência no tempo de novos projectos de construção para áreas circundantes levantou suspeitas. O realojamento anunciava-se para alguns. Uma espécie de "dança de coxos" onde os desfavorecidos nunca deixam de o ser.




















Quando abrimos este livro e percebemos o tributo às crianças de El Gallinero, temos dificuldade em fechá-lo ou esquecê-lo. Maria José Floriano, para além de escritora, é também jornalista. A dedicatória do seu livro parece conter toda a história:

Ao jornalismo, ofício trémulo. À infância, no seu olhar vivem todas as artes.



















A história é contada por um pequeno rapaz. Consciente do lugar onde vive mas que não escolheu, é pela sua voz que conhecemos todos os perigos, riscos, medos... Mas também a esperança de que a vida possa não ser só isto. 
















Uma esperança que ecoa à medida que vai metaforizando a vida. No seu olhar de menino, alimentado pela imaginação, o bairro é um circo onde há toda a espécie de artistas. Acrobatas, trapezistas, contorcionistas... ali todos têm uma profissão. Caminhar por entre vidros é uma arte para algumas estrelas de circo.  As crianças de Cañada Real não lhes ficam atrás. Têm igual destreza quando se desviam das ratazanas, das seringas...  quando procuram o equilíbrio entre os fios de cobre... quando assobiam ao vento em cima dos carris do comboio. São igualmente bons quando saltam os muros de algumas casas, pulam por cima dos carros da polícia ou se contorcem pelos buracos das vedações.
















Ao pai do rapaz está reservado o papel de Mágico. Há muito que prepara o Grande Truque, algo para que necessita de uma série de candeeiros e de lâmpadas especiais. Mas isso é um segredo. Por sua vez, a mãe é a Mulher- Bala. Para além de refúgio do pequeno, é aquela que acalenta o sonho de se projectar para além dos muros e  alcançar a Lua. Não gosta nada da ideia do tal truque com que o pai ocupa o tempo naquele campo verde com portas.



O rapaz conta-nos que, um dia, o bairro ficou sem luz. Os artistas sofreram. O espectáculo também. O pai teve de abandonar os planos do grande truque. Já não tem de dormir no armazém cheio de plantas, iluminado pelas tais luzes que mais pareciam um fogo de artifício.  Agora que terá de mudar de ofício, gostaria que ele se tornasse palhaço.




















Só a imaginação e a criatividade dos pequenos artistas não parece intimidar-se com a escuridão. É nelas que se alicerça a resiliência daqueles miúdos. A porta de uma máquina de lavar, um sofá, um chapéu... são suficientes para montar o cenário, a brincadeira. Mascaram-se de qualquer coisa, fazem mímica, montam o espectáculo. Há quem diga que, em breve, terão de mudar para outro lugar. O rapaz tem medo e alguma esperança. Continuarão acrobatas, malabaristas, contorcionistas? 










Delicado dispensa apresentações. Conhecemos-lhe o magnífico traço realista de muitos outros livros como Ícaro, Uma Longa Viagem ou O Bolero de Ravel. Aqui, mostra-nos a vida tal como ela é para estas gentes. Para as crianças de  El Gallinero e de todos os Cañada Reais. Contar a sua história não faz com que sejam menos desfavorecidos, mas faz com que sejam menos esquecidos. Partilhá-la com os mais novos, mais do que  alertá-los para a pobreza e marginalidade dos que vivem em situação de exclusão, é mostrar-lhes que há um caminho feito de solidariedade que, desde cedo, devemos percorrer. Para lutar por um mundo mais justo e inclusivo.


segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Agente X.99. O inesgotável encantamento de ler Rodari


 











Volvidos mais de quarenta anos sobre a primeira publicação das histórias e aventuras pelo espaço deste Agente X.99,  elas continua a deliciar leitores de todas as idades. O que não espantará, se pensarmos que o seu autor se chama Gianni Rodari. O livro, recentemente publicado pela editora Kalandraka, integra a colecção Sete Léguas e é magnificamente ilustrado por Federico Delicado, de quem já falámos várias vezes.

Sim, senhor jornalista, vivi durante anos como um eremita naquele pequeno asteróide, do qual vem o meu nome de guerra: X.99. O nosso universo tem para mim poucos segredos. Conheci mundos muito mais desenvolvidos do que o nosso e outros mais atrasados. Conheci também misturas bastante singulares de progresso e subdesenvolvimento. 




É nesta conversa com um jornalista que o ex-guardião de um asteróide relata as inúmeras e fantásticas aventuras que viveu no espaço, na companhia da sua cabra Renata. Tendo sido guardião de radiofarol no asteróide X.99, uma bola rochosa na qual o sol se levantava e se punha  vinte vezes durante o dia, foram muitas as missões de que foi incumbido no tempo em que por lá viveu. O Planeta dos Brinquedos, o Planeta Osíris, o Planeta Parco, o Planeta Miro... A cada um corresponde um capítulo onde são reveladas ao leitor as aventuras vividas pelo astronauta e pela cabra Renata. O espaço não tem segredos para eles. 


Mais do que simples histórias, as memórias deste agente revelam experiências tão peculiares quanto incríveis. Num planeta, o agente ensina os macacos que o habitam a fazer fogo e estes rapidamente se tornam famosos pela sua indústria alimentar. Noutro, aprende a falar com as árvores, terminando com os mitos sobre árvores assassinas... Abelhas luminosas e inteligentes, teias de aranhas magnéticas,  estranhos desaparecimentos de astronaves, inesperados jogos de batalha naval, estranhos homens com ideias perigosas, costumes bizarros e absurdos... há de tudo para contar. 





O nosso planeta preferido é, sem qualquer dúvida, o dos Brinquedos. Povoado apenas por crianças, mas onde não há escolas. Nele, as crianças fazem o que lhes apetece, desde construir as casas onde vivem, fazer a comida que comem, ler em cima das árvores, desenvolver os mais variados e criativos projetos... No planeta onde há milhares de bicicletas diferentes porque cada menino gosta de inventar o seu próprio modelo, não há adultos. Surpreendente? Não, se nos lembrarmos do brilhante e genial pedagogo que foi Gianni Rodari. A par da pedagogia, o autor embrenha-nos com grande subtileza em temáticas tão variadas como a natureza, o progresso ou o totalitarismo. É com naturalidade que vemos aparecer a referência a um possível "Hitler da Via Láctea". Este é um livro para os mais novos, para os mais velhos, para toda a família...























Terminada a entrevista e a fabulosa descrição das peripécias espaciais do agente X.99, o final do livro ainda reserva ao leitor os divertidos Poemas para Rir do Planeta das Árvores de Natal (obra publicada em 1962), aqui recuperados pelo autor por coincidirem na temática espacial, na exploração e na descoberta inesperada. As magníficas ilustrações de Delicado, que optou por caricaturar várias personagens, completam brilhantemente  a fantástica viagem pelo desconhecido. De tal modo contagiante que também nós vamos viajar. Ainda não nos decidimos pelo planeta, mas sabemos que voltamos em setembro. 

Até lá, boas férias, boas viagens & boas leituras!


segunda-feira, 16 de novembro de 2020

O Bolero de Ravel. E se ler um livro por dia fôr uma vacina contra a pandemia?

Não somos cientistas, mas acreditamos que ler um livro por dia pode ser uma vacina contra a pandemia. Escolher o lugar e o tempo certos para viajar à boleia de um livro é um acto de sanidade mental. É um conforto para o corpo e um aconchego para a alma. Em dias de confinamento, ler com e para as crianças é levá-las a passear. Entre histórias, percorrem outros lugares, conhecem outras vidas, habitam novos mundos. Dito de outra forma, saem de casa. 
Para os que não são praticantes e se atrevam a experimentar, este pode tornar-se um novo hábito para amenizar os dias estranhos e pesados que vivemos. Os que já são leitores, conhecem bem as vantagens da receita. Em jeito de calendário adventício antecipado, uma vez que o nosso é sempre feito de livros, deixaremos aqui, até ao Natal, uma sugestão diária de leitura. Com as nossas ou outras sugestões, este Natal, escolham livros. Visitem uma livraria independente perto de vocês e ofereçam livros. A miúdos e graúdos. Boas leituras! 
1. O Bolero de Ravel, de José Antonio Abad Varela e Federico Delicado | edição Kalandraka.

Composto em 1928, a pedido da bailarina russa Ida Rubinstein, o Bolero tornar-se-ia a obra mais famosa do compositor francês Maurice Ravel. Ao contrário do que poderia pensar-se, por se tratar de uma música repetitiva e exclusiva para orquestra, a fama e a popularidade uniram-se em torno da obra. 


Música, maestro! Ponham o Bolero de Ravel a tocar. Entrem na vila onde a orquestra convidada se prepara para atuar e deliciem-se com o espectáculo. Os músicos acabaram de chegar e estão por todo o lado. Como uma delicada e bela partitura, cada página apresenta-nos um instrumento e os seus músicos. Mas esta não é uma orquestra qualquer. A escolha dos protagonistas recai sobre animais oriundos de algumas espécies ameaçadas de extinção. Delicado humanizou-os e desenhou-os de forma imaculada. Texto e ilustrações convergem numa desconcertante e tocante harmonia, proporcionando aos leitores um concerto inesquecível.


Delicado, cujo livro mais conhecido entre nós é Ícaro, obra vencedora do VII Prémio Internacional Compostela para Álbuns Ilustrados, é um daqueles artistas de quem costumamos dizer que pintam os silêncios e nos envolvem na sua musicalidade com absoluta magia. Em O Bolero de Ravel, música e silêncios respeitam-se com uma mestria capaz de nos fazer ouvir o timbre da cada um dos instrumentos, numa magistral orquestração.





Um livro que se revela um sóbrio festim de cores e luz que irradiam de cada recanto da vila.  Este é um concerto que, seguramente, vai deslumbrar leitores de todas as idades. Não imaginamos melhor forma de iniciar as crianças na aprendizagem dos instrumentos musicais de uma orquestra, nem de a música vos entrar em casa este Natal. Não deixem a orquestra partir sem dançar ao ritmo do Bolero. Não deixem de fazer parte. Repetimos, de um concerto único e inesquecível.



 Num ano tão negro, esta é, indiscutivelmente, uma das escolhas dos Hipopómatos.


sábado, 10 de novembro de 2018

Temas Difíceis em Tempos de Desassossego


Será a literatura infantil território propício para acolher histórias de guerra ou histórias duras de vida como as dos milhares de migrantes e refugiados que todos os dias nos entram em casa  carregando a vida às costas, sem horizontes definidos?


 
A GUERRA ENTRISTECE, ESMAGA E CALA.

A mediatização do mundo transformou em lugar comum a expressão "tudo está ao alcance de um clique". A criança de hoje cedo convive com acontecimentos trágicos sem que, muitas vezes, o adulto ao seu lado disso se aperceba. Não há censura possível sempre que temos uma televisão ligada e as imagens de destruição e violência, de que os conflitos e as guerras se alimentam, nos entram em casa. O livro pode acordar os seus medos, é certo, mas também a faz pensar, questionar e refletir sobre realidades que, mais cedo ou mais tarde, irá  conhecer. Afinal, não é nisso, que todos nós, adultos, acreditamos? Que o poder da literatura, enquanto geradora de um fazer pensar e de um fazer questionar,  é formar pessoas que saibam pensar por si, com capacidade para dizer não e transformar o mundo num lugar melhor? 

A GUERRA TOMA A FORMA BRUTAL DE TODOS OS MEDOS

As crianças devem saber que o mundo está povoado também de coisas más e estar preparadas para elas. A frase é de Tomi Ungerer, nome grande da LIJ. Não há temas  proibidos na literatura, o leitor tem de ser respeitado, independentemente do seu tamanho ou idade. Maurice Sendak, outro vulto da literatura, afirmava que não podemos subestimar a inteligência das criançasA sua capacidade de assimilar informação, de a  pensar à sua maneira, de questionar tudo e todos com genuína curiosidade.

A GUERRA NUNCA FOI CAPAZ DE CONTAR HISTÓRIAS

A Guerra, com texto de José Jorge Letria e ilustrações de André Letria ( ed. Pato Lógico) é um desses livros onde ninguém deve ficar à porta. Crianças, jovens e leitores adultos têm aqui uma ponte de excelência para um dos temas mais inquietantes da humanidade. Recentemente seleccionado para o White Ravens 2018, catálogo anual da Biblioteca Internacional da Juventude, a maior e mais prestigiada biblioteca de literatura infanto-juvenil do mundo, o livro transporta-nos numa viagem sombria e solitária. 




A GUERRA NÃO OUVE, NÃO VÊ E NÃO SENTE.


O texto compõe-se de 17 frases curtas, onde tudo parece caber, dispostas a cada dupla página e começando  invariavelmente  por " A Guerra...". As poderosas e magistrais ilustrações de André Letria, em tons sombrios e negros, vão contando, em paralelo, a essência da guerra. A paleta de cores esgota-se com os castanhos e cinzas que mostram os seus efeitos devastadores. Porque a guerra tem todos os rostos da maldade que impõe. Não há rostosNão há tempo nem lugar determinados. Pelo meio, há silêncios. 




A GUERRA TEM SONHOS DE GLÓRIA QUE TUDO INCENDEIAM.

É um livro poderoso. Que nos deixa, progressivamente, sem fôlego. A cada virar de página, o leitor é confrontado com um cenário onde pontificam bombas, aviões, armas...  Mas também com a sua pequenez, a sua  impotência perante a destruição. De livros, de florestas, de cidades, de gentes. Seguramente, uma das nossas escolhas em 2018.

UMA LONGA VIAGEM



Reflectir sobre a guerra e sobre todo o mal que ela pode causar é, muitas vezes, a forma mais  assertiva de responder às questões colocadas pelos mais novos sobre as razões que levam milhões de pessoas a migrar, deixando para trás família, amigos, casa, escola, pertences... 

– É hora de partir, pequena.
– Porquê, mamã? – 
O frio está a chegar e não podemos ficar aqui.
– Então para onde vamos?

– Para sul
Uma Longa Viagem, com texto de Daniel H. Chambers e ilustrações de Federico Delicado, editado pela Kalandraka, é um livro que nos inquieta da primeira à ultima página. Silenciosamente, o leitor percebe, desde o inicio, que esta é uma história de duas famílias, de duas viagens que se iniciam em paralelo. 


– Preparem-se, temos que ir embora!
Para onde papá?

– Não sei, mas para algum sítio longe daqui.

– Porquê?
– Porque a guerra já começou.

Os destinos são diferentes. Enquanto a mãe gansa e a sua cria rumam para Sul fugindo ao inverno rigoroso, uma família inicia a sua fuga da guerra, em direcção ao Norte. O sentido contrário da rota não exclui, antes evidencia, as coincidências entre os voos e os passos destes viajantes perante as intempéries e as adversidades que vão encontrar. Desde logo, o medo e a recusa dos mais pequenos em partir. Mas também o tempo, a fome, o cansaço, os encontros indesejados...  A viagem, porém, vai clareando as diferenças na forma de solucionar as contrariedades.  



A intensidade e o realismo das ilustrações de Federico Delicado, que já conhecemos de Ícaro, também editado pela Kalandraka, levam o leitor a percorrer, cá em baixo, os anseios, a tristeza, a fome, o cansaço, a angústia, o desalento... que marcam definitivamente o percurso das famílias em fuga. Mas também a voar à boleia das asas das aves que, naturalmente, buscam um novo paradeiro. 


Uma viagem repleta de metáforas, que evidenciam a luta e a coragem de quem é obrigado a trilhar estes caminhos. Em busca de paz. Em busca de um lugar que os mais pequenos possam voltar a chamar de casa. Onde ainda caibam os sonhos. 


Por fim, a chegada ao mar. O ponto para onde ambas as rotas convergem e se cruzam. O  medo volta a tomar conta de todos. Ao leitor resta uma única certeza. Embora  todos alcancem a margem que ansiavam, aquilo que os espera será completamente diferente. 
Um livro marcante, para partilhar com leitores de todas as idades. Uma das nossas escolhas em 2018.

A VIAGEM


Como será deixar tudo para trás e percorrer quilómetros e quilómetros rumo a um destino longínquo e estranho?
A interrogação pode ler-se na contracapa do livro A Viagem, de Francesca Sanna, editada entre nós pela Fábula. Um livro tão delicado quanto intenso, que nos desassossega e comove da primeira à última página. Um relato  emocionante de uma mãe que, fugindo da guerra,  parte com os dois filhos numa viagem feita de medos, perigos e incertezas.  


Costumavam ser uma família igual a tantas outras. Viviam numa cidade junto ao mar, iam à praia aos fins de semana... Um dia, a guerra chegou e tudo se desmoronou. Sem aviso, levou-lhes o pai. Contada por uma das crianças, esta é uma história como a de tantas outras famílias que atravessam o Mediterrâneo rumo à Europa.


Magistralmente ilustrada, é pela leitura visual que ficamos a conhecer grande parte dos detalhes dos dias que antecederam a fuga, como a busca que a mãe faz para se documentar sobre o novo país para onde leva os filhos, a dolorosa despedida do gato... 


Carro, bicicleta, camioneta, a pé...  são as imagens que, mais uma vez, nos dão conta do  sofrimento que vão experienciando, escondidos de tudo e de todos nas florestas das noites escuras. Mas também da coragem de que necessitam. Para enfrentar o medo, aqui tão bem personificado por esse assustador guarda gigante que os manda de volta à floresta, e toda a espécie de perigos.


À noite, as crianças redobram os medos. Os braços da mãe, que não tem medo de nada, são o seu porto seguro. Mas, ao leitor não passa despercebida, através de uma notável dupla de imagens, o momento em que as crianças adormecem e a mãe pode finalmente chorar. 


A Viagem é, na verdade, uma história sobre muitas viagens, e c começou com a história de duas raparigas que conheci num campo de refugiados em Itália. Depois de as conhecer, apercebi-me de que havia algo muito poderoso por trás da sua viagem. 
O pequeno texto consta de uma nota da autora, onde Senna termina, acrescentando: 
Quase todos os dias ouvimos nas notícias as palavras "migrantes" e "refugiados", mas raramente se fala das viagens pessoais que eles tiveram de fazer. Este livro é uma colagem de todas essas histórias de vida e da extraordinária força dos seus protagonistas. 



A esperança resiste. À espera do dia em que voltem a encontrar uma casa, onde possam recomeçar a sua história, as suas vidas. 
Também aqui os pássaros os acompanham, migrando para outro destino. A diferença, como se diz no texto, é que eles não têm de atravessar fronteiras.  
A Viagem é uma das nossas escolhas em 2018. Acima de tudo, é um livro que passámos a acompanhar em permanência junto dos nossos leitores de todas as idades.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Ícaro



O título e a capa dizem-nos que a história já começou, mesmo antes de abrir o livro. O nome escolhido, o posicionamento dos pássaros na montra, coarctados na sua liberdade, e o rosto enigmático do rapaz que os contempla incutem-nos uma imensa vontade de desvendar um mistério mais do que provável.




A primeira associação conduz-nos, sem demora, a Ícaro, figura da mitologia grega, que um dia, na companhia do pai e munido das asas que este havia construído, voou em busca da liberdade. Todos conhecemos o desfecho da história do mito, cuja ânsia, ou sonho, de voar mais longe e mais alto acabaria por matá-lo.



A curiosidade engorda, muito antes das primeiras páginas. Terá este Ícaro, de Federico Delicado, semelhanças com o outro? Será esta uma história com asas, rumo à liberdade? Tratar-se-à de um Ícaro moderno, um símbolo de liberdade, capaz de concretizar o seu sonho?


A história revela-se uma alegoria à liberdade. À liberdade individual, que cada um pode experimentar soltando as amarras decorrentes de censuras e julgamentos alheios. Mas também ao sonho, à capacidade de nos evadirmos, em todos os momentos, para um qualquer lugar. Basta imaginar.



Uma metáfora gigante, alimentada por muitas outras, que resulta num livro belo e enigmático. Com o enorme mérito de deixar ao leitor a liberdade de escolher e de fantasiar as leituras possíveis. De enaltecer a forma como a forte componente metafórica habita tanto na linguagem textual como na pictórica. As deslumbrantes ilustrações de Federico Delicado remetem-nos para o universo do artista americano Edward Hopper. Curiosamente, o mesmo que Maurizio Quarello invoca numa das ilustrações de O autocarro de Rosa Parks, o último livro de que falámos. São assim os livros...



Tal como os pássaros da ilustração que dá rosto à capa do livro, a história começa com o pequeno rapaz privado de liberdade a ser questionado num centro de acolhimento. Não admira, portanto, que seja um início marcado por tons cinzas e sombrios. As fortes suspeitas de que o rapaz possa ter sido abandonado pelos pais, de que seja vítima de maus tratos, manifestam-se na postura da técnica que conduz o interrogatório.
Ícaro é, antes de mais, um rapaz inteligente, conhecedor do pensamento dos adultos e resiste, enquanto pode, a revelar o paradeiro dos pais. Está certo de que não vão acreditar nele. Quando, finalmente, cede e os localiza no Polo Norte, o leitor mais crédulo ainda acalenta a esperança de que tudo se possa esclarecer. Por pouco tempo, porém. 
À pergunta da técnica: "Por acaso os teus pais são cientistas?"
o  pequeno responde sem qualquer assombro: "Não, os meus pais são pássaros!"


Este é o mote para o inicio de outra história, que decorrerá paralelamente. Contada na primeira pessoa, com cores vivas e alegres, à semelhança dos bons momentos  vividos em família. Uma família que, através da genial subtileza do autor, descobrimos pobre mas feliz. A mãe costumava fazer um estufado que o rapaz não perdia por nada deste mundo. Batatas, água, uma pitada de sal e muito mistério.



Ícaro começa por relatar o dia em que o pai soube que a transformação já tinha começado. A alegria que invadiu a casa e como foi partilhada pelos três. Puxando o fio à meada, acaba desenrolando  a história de toda a famíliaDe todos os que conseguiram, um dia, dar asas ao sonho e se transformaram em pássaros. Ou não, como é o caso da tia Gregória!
  


A esta altura do livro fizemos já outra associação. São óbvias as coincidências com a obra de Kafka, A Metamorfose. Tal como a tia Gregória, também Gregor Samsa, a personagem criada por Kafka, acordou um dia com várias patas que o impediam sequer de se arrastar. O sofá onde se aninha o pai de Ícaro, a lembrar aquele outro que Kafka descreve existir no quarto de Gregor, bem como o lençol que utilizava para se ocultar não são, obviamente, coincidências.




À semelhança do que separa  o seu Ícaro do mito grego, o autor também aqui impõe as diferenças, abrindo a porta à esperança e ao sonho. Enquanto a personagem de Kafka, é votada ao abandono e à incompreensão por parte da família, só conseguindo  libertar-se através da morte, o pai de Ícaro é entusiasticamente apoiado pela mulher e pelo filho.




Talvez porque na família de Gregor Samsa não existissem crianças. O medo, a cobardia, a vergonha e os preconceitos estabelecidos que nortearam a família kafkiana cedem lugar, no livro de Federico Delicado, ao sonho, à coragem e à aceitação da diferença. 



Sentimentos que nos invadem a nós, leitores,  quando regressamos ao centro e à realidade do momento vivido pelo pequeno Ícaro. É notável e sublime o pormenor da gravidez da técnica que com uma das mãos parece proteger o feto de todas as atrocidades que está convencida terem sido cometidas contra Ícaro.



As crianças não têm de conhecer Ícaro ou ser íntimas de Kafka. Têm de conhecer livros fantásticos! Elas, que são, por regra, voadores exímios. 
Vencedor do VII Prémio Internacional de Compostela para Álbuns IlustradosÍcaro é um livro inteligente, construído de forma sublime, no que expressamente diz e no que deixa para imaginar. Uma das nossas escolhas 2014.



Acreditamos que, ainda que por fugazes momentos, todas as crianças têm um pai pássaro! Aqui fica o conselho do pai de Ícaro: "Nunca tenhas medo de voar."