quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024
Esta História
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024
Esta História Não é Sobre Uma Gatinha
Esta História Não É Sobre Uma Gatinha | Randall de Sève e Carson Ellis | Fábula
O título deixa o leitor, no mínimo, curioso. Se a história não é sobre uma gatinha, o que faz esta bichana de olhos doces e ar de Calimero a olhar-nos fixamente na capa? Ainda que informados sobre o seu não protagonismo e, antes mesmo de abrir o livro, aos olhos do leitor ela já assumiu o papel principal.
Ao abrir o livro, o leitor dá por si numa zona residencial onde as casas quase se colam umas às outras e as rotinas dos moradores se adivinham. Os detalhes estão todos por ali. Carros e bicicletas estacionados às portas, caixotes do lixo...
O leitor acompanha todas as diligências que se sucedem para a operação de resgate. Desde o inicio que percebe que o pequeno animal se encontra debaixo de um carro, ainda que o texto não lho diga expressamente. Torce para que todas e cada uma das pessoas que vão chegando sejam bem sucedidas. E exulta quando a pequena gata é retirada dali, alimentada e até... baptizada.
A história pode não ser sobre a gatinha, mas é, seguramente, sobre o poder que ela tem de transformar uma comunidade de pessoas praticamente desconhecidas num grupo de bons e unidos vizinhos. Porque é do espírito de entreajuda, de solidariedade e de generosidade que fala esta história. A diversidade que atravessa o grupo é revelada ao leitor pelas magníficas ilustrações de Carson. E deixa-nos a pensar que, nos dias que correm, precisamos de mais gatinhas como esta para abrir as portas dos bairros e conhecermos aqueles com quem partilhamos lugares e rotinas de vida.
De uma dupla de autoras bem conhecidas e premiadas, este é um livro capaz de reunir e cativar leitores de todas as idades. Somos fãs do trabalho de Carson (quem não se lembra do seu Ké Iz Tuk) e congratulamo-nos-nos por a ver chegar até nós através de diversas editoras. Mas como na vida, nem tudo nesta história é simples. O que irá acontecer, agora, a esta gatinha? São muitos e de vária ordem os obstáculos elencados por cada um dos seus novos amigos. Conseguirá ela uma família que a adopte? Cabe ao leitor visitar este bairro de gente boa e descobrir o desfecho desta deliciosa história. Miau!
sexta-feira, 15 de dezembro de 2023
Há Festa na Casa dos Hipopómatos
quinta-feira, 23 de novembro de 2023
As Casas das Coisas
As Casas das Coisas | João Pedro Mésseder e Rachel Caiano | Caminho
Apresenta-se como um livro de prosas pequeninas que desafia a pensar, e onde a diversão e a poesia dão as mãos. À primeira vista, parece pensado para gente pequena. Mas o leitor conhecedor dos seis livros desta série sabe que não é assim. A escrita méssederiana não tem idade. Já aqui escrevemos, a propósito do autor, que a sua escrita intensa e plena de sentidos é um ponto de encontro entre pequenos e grandes leitores.
Talvez por falarem de coisas de todos os dias, os pequenos livros desta série albergam o leitor vagarosa e prazenteiramente, impelindo-o a pensar. Sobre as coisas, sobre a vida. Afinal, esse é o objectivo do autor . As metáforas povoam-lhe o universo, apresentando-se envoltas em subtileza. Assim como algumas das casas que encontra para as coisas.
A casa da luz eléctrica será a escuridão?
E a areia sem-abrigo terá ela casa?
Os livros possuem segunda habitação, de férias?
A delicadeza das ilustrações de Caiano, parceira em todos os livros da série iniciada em 2012, guia-nos por todas estas casas por onde vamos entrando. Com o traço genuíno e puro a que já nos habituou, as páginas vão revelando uma imensa cumplicidade entre imagens e texto. Uma harmonia que respira liberdade. À semelhança do vento que é casa para o cavalo.
Quando é que a bruxa má perde a casa? Será, sem dúvida, uma questão que os mais pequenos gostarão de deslindar. Tal como as casas da Lua, da chuva, dos pássaros... Enquanto isso, nós, leitores mais velhos, vagueamos por este universo, reflectindo sobre outras casas. Como a triste casa do Pai Natal ou a casa que a areia sem-abrigo não tem. Até porque quando iniciámos a viagem, a pergunta já nos ocupava a cabeça : Haverá coisa ou pessoa que não precise de casa, casinha ou casarão?
quinta-feira, 16 de novembro de 2023
Feijão e a Avó
sexta-feira, 10 de novembro de 2023
quinta-feira, 9 de novembro de 2023
Obrigado, Avó Omu!
Obrigado, avó Omu! | Oge Mora | Fábula
A generosidade, o espírito de partilha e a gratidão são os pilares desta história construída pela autora como uma homenagem à sua avó. Vencedor, entre outros prémios, da Caldecott Medal, o livro encerra uma deliciosa e bela abordagem da vida em comunidade, da proximidade com os outros e do altruísmo. Mora já nos tinha encantado com Sábado, um livro de que falámos aqui.
A figura da avó que cozinha um guisado vermelho, convicta de que vai ter o melhor jantar de sempre, os traços de bondade evidenciados no rosto, a panela de enormes proporções e o livro que vai lendo enquanto a comida se apura prendem o leitor no inicio do livro, não o libertando mais. É com água na boca que seguimos o magnífico aroma que ultrapassa o espaço circunscrito da casa, invade todo o bairro e não deixa ninguém indiferente.
Talvez por isso, o leitor não se surpreenda quando um pequeno garoto bate à porta indagando sobre tão delicioso cheiro, MMMMM. Com uma panela de tão grandes dimensões, a avó Omu não teve dúvidas em partilhar com o pequeno o seu guisado. Com ele e com todos os que lhe viriam bater à porta. Claro que só mesmo uma criança poderia desbravar este caminho, sucedendo-lhe, entre outros, uma polícia, um vendedor de cachorros-quentes, um lojista, um taxista, um médico, uma atriz, um advogado, uma bailarina, uma pasteleira, uma artista, um atleta, e até a presidente da câmara! Com todos, Omu partilhou o seu delicioso guisado vermelho.
Com uma estrutura repetitiva, a autora deixa que o leitor antecipe o que lhe pode trazer a página seguinte, mas aguça-lhe a vontade de, sempre que batem, abrir a porta de casa da avó e conhecer cada uma das personagens que se atreveu a seguir o delicioso aroma. E esta inteligente proximidade que cria com os leitores, colocando-os dentro de casa da avó, faz-se tanto com o texto como com as deliciosas ilustrações. A técnica da colagem predomina no universo de Mora e tal como em Sábado, o recurso a papéis padronizados, texturas e a recortes de livros antigos atravessam todo o livro. O mesmo acontecendo com a diversidade racial e cultural, uma marca nos seus livros.
Depois de tanto a ver partilhar, e quando o corrupio de gente à porta termina, o leitor não consegue deixar de sentir a tristeza desta avó, que é também já sua, quando ela percebe que na grande panela não sobeja nada. Fazemos nossa a desilusão estampada no rosto de Omu por já não ter nada para comer daquele que iria ser o seu melhor jantar de sempre. Mas, mais uma vez, o leitor quer ficar lá por casa e festejar o grande e gratificante final que Mora encontrou para a sua história. A avó Omu teve o melhor jantar da sua vida e nós, leitores, um livro para saborear e cheirar muitas vezes.
