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segunda-feira, 13 de abril de 2015

E O Céu Não Pode Esperar?

Há dias assim. Hoje demos um pulo até ao Porto e ainda mal o carro iniciava viagem,  já a  notícia da morte de Günter Grass chegava. No final do dia, quando iniciávamos o regresso, soubemos que Eduardo Galeano tinha morrido. Há dias assim. Em que parece que o céu não pode esperar.


De imediato, a cabeça encheu-se de sonhos. Dos sonhos de Helena. O sublime livro que Eduardo Galeano escreveu e Isidro Ferrer ilustrou. 


O livro é dedicado a Helena, sua mulher. Porque é dos sonhos dela que fala. Em jeito de explicação, Galeano diz:  "Helena me humilla cada mañana, a la hora del desayuno, contándome sus sueños prodigiosos. Ella entra en la noche como en un cine, y cada noche un sueño nuevo la espera. Mientras ella cuenta, yo bebo mi café en silencio. Más me valle callar. Los pocos sueños míos que consigo recordar son de una bochornosa estupidez. Para vengarme, escribo los sueños que ella vuela.


Ella quería ver cómo crecía la noche, y cómo viajaban la luna y las estrellas.

Alguien le había dicho que los astros se mueven, y a veces se caen, y que el cielo va cambiando de color mientras la noche anda.


Aquella noche, noche de la revelación de la noche, Helena miraba sin parpadear.


Le dolía el pescuezo, lo dolían los ojos, y se estrujaba los párpados y volvía a mirar.


Y miró y miró y siguió mirando, y el cielo no cambiaba y la luna y las estrellas continuaban quietas en su sitio.


Le despertaron las luces del amanecer. Helena lagrimeó.


 Después, se consoló pensando que a la noche no legista que le espíen los secretos.


Acordados, sonhamos os sonhos de Helena. E lembramos Galeano pela partilha de todos os seus sonhos.



terça-feira, 14 de maio de 2013

Árboles

La modestia de los árboles es infinita.
Cuando la brisa matinal los acaricia,
ellos dejan caer dos hojas tiernas.
Assim começa o poema de Mario Benedetti, ilustrado por Javier Zabala e editado pela editora catalã Libros Del Zorro Rojo. O livro integra a extraordinária colecção infantil intitulada Libros de Cordel, que reúne nomes grandes da Literatura, como Frederico Garcia Lorca, Eduardo Galeano ou Saramago, ilustrados por nomes igualmente conhecidos. 
Alguns têm edição em português, pela mão da Kalandraka e da Caminho.
O poema é uma espécie de ode às árvores, uma reflexão carregada de sensibilidade que parece traduzir-se num desvendar da sua essência e da existência silenciosa que partilham. 
À modéstia junta-se a força com que enfrentam a adversidade do tempo, a paz com que detectan con curiosidad as suas próprias diferenças (porque há árvores de muitos tipos) e recebem os pássaros, hermanos traviesos que les traen noticias de otros frondosos colegas.
Porque é da vida que falamos, há excepções. Às corujas e cegonhas,  do alto dos campanários,  pouco importam as árvores. Perante a indiferença, elas buscam consolo nas suas velhas raízes.
À semelhança dos pássaros, também a maioria dos humanos se dá bem com as árvores, con su sombra protectora, con su frescura.
A excepção, desta feita, são os lenhadores, que por oficio son los asesinos de los árboles y éstos les temen más que al rayo.
Mas esta existência silenciosa, e por vezes resignada,  não é única. É o próprio poeta quem a partilha quando se torna  perceptível que a sua linguagem e a dos pássaros são diferentes.
Pero no lo entiendo porque no conozco el idioma de los pájaros, y no le respondo porque él no conoce el lenguaje de los hombres.
Este é o momento em que a árvore, cuja copa adquire forma humana, se transforma no ser solidário em que o poeta se apoia e revê,  enquanto testemunha silenciosa dessa incomunicabilidade. 
Javier Zabala, de quem já falámos aqui e aqui, é reincidente. As ilustrações do livro de Francisco Garcia Lorca, Santiago, também têm a sua assinatura. Ainda que conhecendo bem o seu trabalho, é impossível não sentirmos um absoluto deslumbre pela forma como transforma o livro num poema a duas vozes.
Mário Benedetti, escritor e poeta uruguaio, morreu em Maio de 2009. Recordem-no com as crianças, ainda que silenciosamente...