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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Os Príncipes e os Anjos dos Nossos Avós





A sugestão é óbvia: título e ilustração remetem-nos para uma outra história que bem conhecemos, A Bela Adormecida. Na busca da similitude, um rapaz conta-nos que a avó dorme, o dia todo, há mais de um mês. A sua mãe diz que ela é como a Bela Adormecida, à espera de um príncipe encantado que a desperte com um beijo.


Intuímos rapidamente que esta é uma abordagem metafórica e rica em subtilezas de temas tão duros como a morte ou a doença.  As perdas são inevitáveis e a vida continuará para além delas. Mas a forma como encaramos essa inevitabilidade e a transmitimos às crianças nunca é simples e, raramente, apaziguadora. Talvez seja isso que nos toca tão de perto nesta história que o italiano Roberto Parmeggiani dedica à sua avó e à memória de uma relação próxima com muitos momentos partilhados. Um lugar onde a doença é um tempo de coisas estranhas e a morte é, afinal, um príncipe encantado. 


Contada pelo neto, é uma história a três tempos. O momento presente, correspondente ao do sono em que a avó mergulhou, é antecedido de um outro em que a avó andava a fazer coisas um pouco estranhas. 



A subtileza e a força da história dispensam qualquer referência expressa à doença de que padece a avó. Somos nós, leitores, que lhe detectamos os sintomas através das metáforas escritas e visuais.



O neto relembra ainda um outro tempo. Aquele em que a avó o abraçava a toda a hora e ele desaparecia no seu amor. O tempo dos muitos livros que liam juntos, das muitas histórias que ela lhe contava, dos cromos que lhe comprava, da piza que fazia para o lanche... Ela, a avó, que fazia o melhor esparguete à bolonhesa do mundo.  Antes de adormecer e também antes de fazer coisas estranhas. 



Sabemos que o príncipe encantado está a chegar e que, inevitavelmente, a avó partirá com ele. Mas as partilhas e as cumplicidades, essas, permanecerão muito para além do sono em que mergulhou. As ilustrações de João Vaz de Carvalho relembram-no a cada dupla página. É uma avó alegre e divertida que atravessa a história em todos os momentos. O sorriso que exibe, enquanto dorme, parece ser, ele próprio, a invocação da memória de tudo o que fica.


À subtileza do texto, o ilustrador junta a das imagens. Quando o rapaz confessa sentir muito a falta da avó,  todos parecemos tornar-nos cúmplices desta relação, reinventando as leituras, as histórias e o amor. Ou atravessando esse mar que percorre todo o quarto.  Ou contemplando as semelhanças entre o cabelo enovelado da avó e o fumo das chaminés da casa e do barco.


Um livro que já abrimos muitas vezes. Talvez por saber que, um dia, o príncipe encantado das nossas avós também vai chegar.

(A avó adormecida, de Roberto Parmeggiani e João Vaz de Carvalho, ed. Kalandraka)


Em O Anjo da Guarda do Avô, de Jutta Bauer, editado pela Gatafunho, a temática da morte volta a estar presente. Também aqui, a história se alicerça na relação próxima entre um avô e o neto, que o visita no hospital. 


Do mesmo modo,  o leitor intui rapidamente a inevitabilidade da finitude da vida.  O meu avô gostava de contar histórias. Contava sempre alguma coisa quando eu ia visitá-lo
"Ninguém me segurava!" é o mote do avô para o relato da história da sua própria vida. 


O humor é indissociável  dos livros de Bauer e, ao contrário do que se poderia pensar, este não é excepção. No inicio da história, o avô conta: No meio da Praça, havia uma estátua grande, de um anjo. Eu nem sequer olhava para elatinha de me apressar, porque a minha mochila pesava muito".


Através das deliciosas e divertidas aguarelas de Bauer, que lembram o universo Sempé,   constatamos que o anjo esteve presente em todas os momentos da vida do avô, protegendo-o dos vários perigos que surgiam no seu caminho. 


Um caminho que não foi fácil e que podemos acompanhar desde as  peripécias da infância à guerra, ao nazismo, à  perda de amigos, à fome... 


Apesar das dificuldades, o avô não parece guardar queixas da vida:  Apaixonei-me... fui pai, construí uma casa... comprei um carro... e fui avô. Na verdade, a minha vida foi bela... direi mesmo que foi extraordinária. Tive muita sorte. 
Nós, leitores, sabemos que ele nunca teve tempo para olhar para o anjo...


Este é o quarto livro de Jutta Bauer editado em Portugal, depois de A Rainha das Cores, Quando a Mãe Grita e Selma. A autora alemã comprova mais uma vez que os temas difíceis também podem ser tratados com  humor e  subtileza.  


De forma tranquila, é o ciclo da vida que se completa. Mas não se pense que o anjo fica desocupado...


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Livros Em Dia de São Valentim

João Vaz de Carvalho

E porque o amor anda por aí, não esqueçam que hoje é dia de oferecer um livro. Porquê oferecer um livro no Dia de São Valentim? Não encontramos melhor resposta do que a de Jackie French, prestigiada autora australiana que, associando-se ao International Book Giving Day, escreveu um magnífico texto (ler na íntegra aqui) onde podemos ler: 
"A book can lead you to paradise or rebellion.
What do you give someone who has everything? A book.
What do you give someone who has nothing? A book. A book can give them hope, the power to dream of what life might be".

Escolham um livro para oferecer. Nós já escolhemos dois e estamos à vossa espera aqui.
Bom dia de São Valentim.

quinta-feira, 7 de março de 2013

João Vaz de Carvalho

E o ilustrador é... João Vaz de Carvalho! 


Óbvio, sem margem para dúvida, os olhos da galinha são inconfundíveis, naturalmente... os comentários foram unânimes!  
Sim, é um estilo inconfundível. João Vaz de Carvalho tem um universo muito próprio, povoado de figuras com características únicas, de que são exemplo os olhos vidrados das personagens a que dá vida. A paleta de cores, entre o pastel e os tons terra, é outra evidência. Sabíamos que os olhos vítreos da galinha denunciariam desde logo a autoria, mas não era  esse o nosso propósito? 
Saber até que ponto conhecemos determinado ilustrador e como podem as nossas crianças começar a identificar-se com o seu trabalho. Por cá, os Hipopómatos mais pequenos também dizem evidente, quando se trata de João Vaz de Carvalho!
Obrigada a todos os que alinharam no desafio. Esperamos por vocês no próximo...
Ao João Vaz de Carvalho, o nosso  enorme obrigada pela disponibilidade e pela magnífica ilustração!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Era Uma Vez Um Cão

TCHARAN!

Era Uma Vez Um Cão que esteve quase a não ter história! Porquê? Ora, porque há muitos pais que não sabem histórias sobre cães... É o caso daquele a quem, no livro escrito por Adélia Carvalho, é pedido para contar a uma história.


É claro que sabe muitas outras, como a do jacaré que só tinha um pé, a do leão que tinha muita comichão, a do porco que tinha o nariz torto ou a da vaca que cheirava a caca... 

 
Mas de que serve isso, quando página a página, o pedido formulado é sempre o mesmo:
- A do jacaré não, quero a do cão.
- A do cão não sei.
- A do leão não, quero a do cão.
- A do cão não sei.

O desfile de animais vai acontecendo ao mesmo tempo que as rimas se sucedem repetida e ritmicamente ... Mas  não são uns animais quaisquer, uma vez que são desenhados por João Vaz de Carvalho. São fantásticos! 

A história até pode vir a ser do cão, mas nela não falta um burro que sabia tudo, uma serpente que só tinha um dente e um peru que, em vez de dizer eu, dizia tu. 

Uma história atravessada da primeira à última página por um pequeno cão, que num processo mimético vai construindo a sua própria história até atingir o protagonismo final. Afinal, havia mesmo um cão, de bom coração...
Inteligentemente repleta de humor, esta é uma história cheiinha de ingredientes para encantar a criançada... e não só! Quando chegamos ao fim, também nos apetece imitar o menino que o que mais gostava era de contar até três, e pedir: - Vá lá, pai, conta outra vez!
Era uma vez um cão...

No sábado à tarde, autora e ilustrador estiveram na Fnac Chiado para o lançamento do livro. A apresentação foi feita por Eduardo Filipe, o comissário da Ilustrarte. Os Hipopómatos disseram presente!