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sexta-feira, 19 de abril de 2024

O Ponto Em Que Estamos

 













O Ponto Em Que Estamos | Isabel Minhós Martins e Bernardo P. Carvalho | Planeta Tangerina


A dupla é de peso e o livro também. Aqui é tudo grande. Desde as coisas existentes na natureza às atrocidades cometidas pelos homens. A realidade é dura e o desafio que enfrentamos consiste em saber a velocidade e a proporção com que uns se irão sobrepor aos outros. Há por aqui um grito de alerta. De um planeta (Tangerina) para outro. Para gente de todas as idades. 



Montanhas de saldos, oceanos de promoções, florestas de preços baixos...

Podíamos estar de passagem por um qualquer centro comercial, numa rua amontoada de lojas, numa de muitas superfícies atulhadas de inutilidades... mas estamos nas nossas vivências diárias, na rotina dos nossos dias e conseguimos ver tudo isto quando prestamos atenção. Falar de alterações climáticas já não é só urgente. É preciso actuar, mudar hábitos, renovar mentalidades, sensibilizar os mais novos. E os mais velhos. Este livro é um ponto de encontro obrigatório para todas as gerações. 


Carros mais pesados que hipopómatos, perdão,  que hipopótamos. Telemóveis de novíssima geração, enxames de carregadores avariados, baleias com desconto em cartão, vulcões de sapatos por estrear...

No making of do livro, que podem ler no site da editora, Isabel Minhós Martins conta-nos que a ideia deste livro a acompanhou durante algum tempo.  Queria fazer a comparação entre o tempo da natureza e o tempo das coisas humanas, aquelas que consumimos e se esfumam num instante. No dia em que viu um anúncio de uma conhecida marca de móveis que dizia apenas “Montanhas de saldos”, soube que o livro era para avançar.




A opção pelas coisas grandes existentes na natureza é tão genial quanto os incríveis jogos de palavras que lhe permite obter. O resultado é a gigantesca clareza com que se evidenciam os grandes males de que padece o nosso planeta.  O desperdício ou o consumo desenfreado, por exemplo, são detectados, de imediato, neste pequeno grande livro onde  há arquipélagos de roupa fora de moda, cardumes de bifes, iogurtes, abacates, cascatas de comida abandonada, rebanhos (e mais rebanhos) de embalagens, cordilheiras de copos descartáveis... 






































"O caos do nosso planeta neste livro até consegue ser bonito. As páginas parecem quadros do Miró". 
Foi assim que um dos nossos meninos leitores se referiu às ilustrações de Bernardo P. Carvalho que, misturando desenho e colagem, nos conduz por este universo de entregas super-rápidas de forma empolgante e algo naïf.  A cada página, os múltiplos detalhes vão revelando sinais de uma tragédia anunciada com que todos estamos familiarizados. Objetos abandonados e deixados ao acaso, lixo e iates que parecem nascer no mar, o negro do betão e os automóveis que aparentam multiplicar-se mais do que formigas, jatos e helicópteros que ocupam o lugar das estrelas no céu.





































Na contracapa do livro, em jeito de antecipação, podemos ler: 
"Este talvez seja um livro triste - e as pessoas, sobretudo quando se trata de livros que também são para crianças, quase sempre preferem livros felizes, esperançosos". 
Os autores concordam, a esperança é a coisa mais importante do mundo. Mas não deixam de concluir que "este só é um livre triste se continuar tudo na mesma. Se ninguém pestanejar, se ninguém se incomodar, se ninguém decidir mudar.





































Porque a mudança é mais do que necessária e urgente, façam o favor de se incomodar! Façam-no com as crianças. Este é um livro que não se esquece, que se mantém aberto. Porque os arquipélagos de roupa fora de moda, os vulcões de sapatos ou as constelações de betão não nos saem da cabeça. Pode ser triste, pode ser duro, mas a verdade é que este é o ponto em que estamos.


quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Como Ver Coisas Invisíveis




8. Como ver coisas invisíveis | Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso | Planeta Tangerina

Num mundo com tantos problemas, a imaginação e a criatividade podem ser parte da solução. 
Como chegar até elas?
O que é a imaginação? Será a imaginação irmã ou prima da criatividade? 
Viverão no mesmo planeta ou em planetas diferentes? 
Onde nos leva cada uma?
Estas são apenas algumas das muitas questões levantadas num livro  incrivelmente desafiante que, nas palavras de Minhós Martins, aponta os holofotes à ciência, à arte e à escola. 


























A autora do texto diz-nos que o ponto de partida para este livro foi uma fotografia de Alexander Graham Bell, que a atraiu pelo que continha de brincadeira, jogo, leveza e mistério. E nós sentimo-nos igualmente atraídos pelo admirável resultado dessa observação. Estruturado de forma fascinante, entre observações, experiências e perguntas de artistas, cientistas e outras pessoas com imaginação, o leitor encontra motivos de reflexão em cada página. Aqui contam-se histórias de artistas e cientistas e cada uma termina sempre com uma proposta de experiência. E como viajamos por dentro do processo criativo, são também deixadas 20 sugestões de coisas que podemos fazer pela nossa imaginação e criatividade. Invisíveis?
As ilustrações de Madalena Matoso, as colagens e  as fotografias que utiliza, para além da complementaridade que emprestam ao texto, despertam-nos a vontade de imaginar estes e outros caminhos.







































Há uma pergunta que ainda nos enche a cabeça: o tempo que passamos a brincar enquanto crianças, terá repercussões no que fazemos quando nos tornamos adultos? 
Este é um livro aconselhado a partir dos 11 anos, mas pode e deve ocupar lugar na cabeceira de todos os adultos. Indiscutivelmente, um livro que deixa marca em 2021. 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Daqui Ali



Um livro por dia é uma alegria. Até ao Natal, deixaremos aqui uma sugestão diária de leitura. É o nosso habitual calendário adventício, sempre feito de livros. Com as nossas ou outras sugestões, visitem as livrarias independentes e ofereçam livros. 

1. Daqui Ali|Isabel Minhós Martins e Yara Kono|Planeta Tangerina

Começamos pelos mais pequenos e com este pequeno grande livro do Planeta Tangerina. Um livro sobre os primeiros passos, as primeiras conquistas, os avanços e recuos que caracterizam essa apaixonante fase da vida em que o bebé se vai tornando menino.




















Com uma cadência ritmada pelo texto em verso e umas ilustrações deliciosas, acompanhamos os pequenos progressos, as hesitações, o vai-não-vai próprio desta fase do crescimento. Com a motivação acrescida dos adultos que estão por perto, as mãos largam-se pela primeira vez, para serem agarradas logo a seguir. É o Vai! Vem! que todos conhecemos.






















A simbologia da capa e da contracapa é perfeita, remetendo-nos para uma espécie de jogo da glória, onde os jogadores ora avançam, ora recuam. Os primeiros passos que se dão, os primeiros objetos que se apanham, que se perdem... as pequenas conquistas que se alcançam entre o lado de cá e o de lá. Um pequeno livro capaz de nos fazer sentir todo o encantamento que acompanha o princípio da autonomia por parte da criança. Precioso!
Daqui ali | Toda a tensão... Daqui ali | Revolução.


sexta-feira, 9 de abril de 2021

Tudo Tão Grande. Canção cada vez maior


 






















Abre-se como uma partitura. A musicalidade das palavras e o encantamento das imagens surgem-nos como uma
 celebração da vida. Da sua imensidão. 
















As cores quentes e harmoniosas reforçam o movimento das paisagens que nos esperam a cada dupla página. Tudo é tão grande aqui. Também nós crescemos, ficamos cada vez maiores. Vivemos dias longos, tardes infinitas, avistamos montanhas imensas, rios que transbordam, luas cheias... 















O verão é comprido. As férias são grandes, o mergulho fundo... E a nossa vontade de percorrer este livro é enorme. Queremos respirar o ar livre, o espaço aberto e damos por nós a trautear esta canção. Porque este livro é para cantar. Já dançamos com os pássaros, o sol, o vento...




























Tudo Tão Grande, Canção cada vez maior,  com texto de Isabel Minhós Martins e ilustrações de Bernardo P. Carvalho é o último livro do Planeta Tangerina. Envolto num grande mistério, o do crescimento, deixa as perguntas para os seus destinatários mais directos.

Porque ficamos cada vez maiores? De onde virá a vontade de crescer?








"Estás tão crescido!". Depois de vários meses sem nos vermos, esta é a frase que mais proferimos quando reencontramos as nossas crianças. Este é um livro para visitarmos com elas. Passem uns dias por lá, a cantar! Não esqueçam a sugestão dos "Tangerinas"Inventa uma música para cantares este livro. Se quiserempodem enviá-la para a editora. Nós ainda não parámos de cantar. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Ponham as Mãos nos Livros! Big Bang, diz o Planeta Tangerina


A rentrée do Planeta Tangerina fez-se em dose dupla. As Mãos e os Livros. Que Dança Esta. Que Festa! com texto de Isabel Minhós Martins e ilustrações de Madalena Matoso é o mais recente livro da colecção Cantos Redondos. Os tais. Livros em papel, mas interativos e digitais. 


Nós já andámos por lá a navegar. E enquanto o barco não chegava, os dedos puseram-se a tamborilar. Nas palavras, que nos fazem sentir em casa, e nas ilustrações que nos desafiam, a cada página, a entrar no livro. Uma fantástica homenagem à leitura, ao acto de ler e ao livro, em tudo o que ele pode dar ao leitor.


Porque os livros que falam de livros nos fascinam. Primeiro, avançámos com uma mão, que em determinados momentos, nos pareceu uma tenaz. Percorremos as prateleiras e, quando demos por nós, já o tínhamos agarrado com as duas mãos. Tateámos e cheirámos cada página, ouvimos os sons, fomos tocados pela ventania, dançámos...entrámos na festa!


Sabíamos ao que íamos, já que na contracapa se pode ler:
É isto um livro.
Esta coroa, esta arca,
este bebé recém-nascido,
este vaso tremelicante
feito para andar de mão em mão,
este mapa por onde se passeiam
impressões digitais
de todos os tamanhos
de todos os tempos 
E lugares.
Esta festa!
Levem as crianças até lá para que deixem as suas impressões digitais. É desses gestos que se fazem os pequenos grandes leitores.


Hei, Big Bang! (Ninguém disse que era fácil) com texto de Isabel Minhós Martins e ilustrações de Bernardo P. Carvalho é o segundo livro editado pelo Planeta Tangerina.

Esta é a história de Big Bang, um cavalo que se sente desassossegado, mas desconhece a razão.  Alguma coisa o incomoda, mas ele não sabe o quê. Ter-se-à esquecido de algo importante?


Big Bang decide-se por um passeio até à beira-mar, na esperança de que isso lhe avive a memória. Mas o caminho faz-se de muitos encontros e todos eles acabam  por lhe suscitar ainda mais dúvidas... 
As ideias podem ser difíceis de ver. No início aparecem-nos como uma sombra e escorregam-nos das mãos. Mas se as deixamos correr livremente – como um cavalo corre pela praia fora – pode ser que as consigamos ver com nitidez.


As palavras de Minhós caminham harmoniosamente com as magníficas ilustrações de Bernardo Carvalho. Sentimos vontade de galopar o livro de um só fôlego. Num registo a que o ilustrador já nos habituou, cada página assemelha-se a um magistral arco-íris que deslumbra pequenos e grandes leitores. Galopem, galopem!

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Regressos Festejados


São pequenos tesouros que estão de volta, pela mão da editora Kalandraka. Muitos já os conhecem, mas há quem os abra pela primeira vez e continue a encantar-se.  Com a criançada de férias, vale a pena falar deles. 


Eu Não Fui, de Christian Voltz, é uma divertida e hilariante história, centrada na busca de um culpado para o acidente de percurso que uma destrambelhada camponesa sofre logo no inicio. A culpa, porém, parece  querer morrer solteira já que nem a vaca, nem o burro, nem o pintainho, nem o porco... assumem qualquer responsabilidade. 


Numa história de estrutura encadeada e repetitiva, os bonecos e a linguagem levam os mais pequenos a acompanhar a busca  por entre sonoras gargalhadas. O inesperado e não menos divertido final é um convite à reflexão sobre a culpa, mas também à ponderação sobre o papel  que cada animal desempenha.
Arame e colagem são a base de partida para a construção das geniais personagens, identificadoras do universo deste autor.


Ovelhinha dá-me lã, de Isabel Minhós Martins e Yara Kono, é outro dos livros objecto de reimpressão. Ficamos felizes  porque há vários anos que somos fãs da simpática ovelhinha, de olhos ternos e doces, que parece não envelhecer.


Um livro, também ele, com estrutura encadeada e repetitiva, com um texto rimado que cativa miúdos e graúdos. E sim, na Casa dos Hipopómatos, a ovelhinha dá lã em qualquer estação do ano.


– Ovelhinha, dá-me lã.
              – Para que queres a minha lã? 
          – Para fazer um casaquinho
            e ficar bem aconchegado. 
       Se tapar bem a barriga
      já não fico constipado.




No lote dos regressados, está, entre outros, esse eterno O Balãozinho Vermelho, de Iela Mari. Um livro só de imagens que, nos anos sessenta, revolucionou o universo da literatura infantil. A simplicidade da metamorfose de um balão, de cor vermelha, em diversos objectos atravessa as páginas do livro. Balão, Maçã, Borboleta...



 "De todos os meus livros, este é o preferido das crianças, muito mais do que os outros; Entram nele sem nenhum problema. Os adultos, em geral, dizem que não compreendem nada”, dizia a autora.


De frente para trás ou de trás para a frente, este é um clássico que  tem acompanhado várias gerações. Em semana da Páscoa, não esqueçam que os livros também podem ser doces e não estragam os dentes.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Metade, Metade. Genial por inteiro


O formato é pequeno, mas dentro é tudo grande. Porque a paixão não é coisa de meias- tintas, o vermelho da capa é forte e quente. No intenso verde da contracapa, ficamos a saber que metade deste livro fala de amor e a outra metade também. Gostamos das duas.


A meia voz, a meia luz, sem meias palavras nem meios termos, um menino faz a sua primeira declaração de amor.  E, tal como o ritmo do seu coração, a toada das palavras e o jogo que Isabel Minhós Martins  faz com elas também são palpitantes. 
Passei a manhã a meio gás. Meia carcaça numa bochecha, meio copo de leite na outra, perdido, meio cá, meio lá, pois nada em mim queria saber do mundo, quanto mais de carcaças ou de leite (só de ti).



O jogo estende-se às ilustrações, que têm a assinatura de Madalena Matoso. A criatividade da ilustradora espraia-se pelas páginas de fundo branco, alternando formas e letras, metades e o todo. Acima de tudo, conferindo ao pequeno livro uma requintada unicidade. Há lugares onde se podem esconder pensamentos. Meios ou inteiros. 
É de meios, de metades, de cinquenta, cinquenta que se faz o todo, que se faz  esta história.  O rapaz continua apaixonado e determinado. Ainda que suspeitemos que possa tratar-se de um meia-leca, no momento certo não hesitou.
A meia distância, a meia voz, sem meias palavras, disse-te: És a minha cara-metade.
Metade agora, metade depois? Não, é para ler de uma assentada. 

terça-feira, 29 de maio de 2018

Atlas das Viagens e dos Exploradores. As Viagens dos Monges, Naturalistas e Outros Viajantes de Todos os Tempos e Lugares

É mais uma sugestão Hipopómatos para quem anda pela Feira do Livro de Lisboa.



A capa, fortemente apelativa, já seria suficiente para não nos deixar passar por ele sem o abrir. O longo título, (adoramos títulos longoooos!) ao invés de saciar, engorda a nossa curiosidade. Sério? Monges, naturalistas e outros viajantes… Jamais conseguiríamos deixar de conhecer de perto tais exploradores. Uma vez aberto, caros leitores, esqueçam lá essas coisas de internet, goole maps e quejandos. Ninguém vai querer sair daqui sem fazer as viagens todas, guiando-se pelos vários mapas que encontra, e sem percorrer as rotas, uma a uma…da primeira à última página.


Pytheas, Giovanni da Pian del Carpini, Ibn Battuta, Jeanne Baret... Provavelmente, nunca terão ouvido falar de muitos deles. Ou, pelo menos, não tanto como de Darwin, Cristovão Colombo ou Bartolomeu Dias. Mas sim, todos têm em comum o facto de terem sido, há séculos, grandes viajantes e exploradores. As histórias destas vidas e viagens são absolutamente fascinantes. E aprendemos tanto!


As viagens são traçadas a preto e branco e entre cada uma delas há um separador de cor, digno de figurar em qualquer museu. Com ilustrações de Bernardo P. Carvalho e texto de Isabel Minhós Martins, esta é uma viagem imperdível. 



Vão, explorem o mundo de hoje à boleia de quem o desbravou. Para miúdos, para graúdos, para ler em família. Será sempre uma viagem única. É mais um livro apaixonante, com marca Planeta Tangerina.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O Livro dos Quintais. Gatuno & vizinhança estão de volta!


Editado pela primeira vez em 2010, O Livro dos Quintais regressa, agora, em novo formato. Nós somos suspeitos, porque desde essa altura que entrámos por ali adentro e nunca mais deixámos de ser visita assídua do bairro e dos seus moradores. 


Sempre que podemos, agarramos na criançada e vamos até aos quintais. Revemos o Sr. Catarino, a D. Otilia, as meninas Lopes, a Patrícia e as amigas, o Sr. Juvenal, a D. Manuela, o Sr. Inácio e... dê por onde der, o Gatuno!


Ainda que nunca tenhamos entrado em casa destas pessoas, sentimos que as conhecemos. Sabemos particularidades de todos e de cada um, do seu quotidiano, das suas rotinas cá de fora... Tudo nos é familiar. 


O Gatuno? Ah, esse é o gato preto que se passeia pelos oito quintais, escolhendo a seu belo prazer, os cantos e recantos de que mais gosta. As preferências mudam consoante a época do ano. A maior sombra quando está calor, o lugar mais ensolarado em dias frios, o chão com mais espinhas de sardinhas...


A cada dupla página corresponde um mês do ano e a forma como cada um, cada família, organiza as suas rotinas no exterior. O natal, o verão e a praia, as sardinhadas, a chegada da primavera, o que se semeia, o que se colhe...Com uma vista panorâmica sobre os oito quintais, vemos o óbvio, adivinhamos o provável e descobrimos o oculto.


Saber as rotinas do Gatuno é talvez um pouco mais complexo. Mas, é tarefa que os mais pequenos abraçam com imenso prazer. A cada virar de página, os olhos passeiam-se pelos inúmeros detalhes que enchem os espaços, em busca do gato. Por onde anda ele em Março? E em Maio? É um delicioso jogo de que todos gostamos muito. A parafernália de pormenores obriga a muitas leituras. Mas ninguém se faz rogado, porque em cada uma delas há sempre algo de novo que se descobre sobre esta gente! E sobre o Gatuno! Mas é preciso chegar ao fim do livro para compreender a origem do nome do bichano, cujo mês preferido é junho. Descubram porquê!


As cores vivas e alegres das ilustrações, pintadas a feltro e com um traço com que os mais pequenos se identificam de imediato, tenta-os a deitar mãos à obra. O resultado é, muitas vezes, o prolongamento deste bairro do Planeta Tangerina, de autoria da Isabel Minhós Martins e do Bernardo P. Carvalho. Um livro que continua a apaixonar-nos. Em qualquer mês do ano.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Cem Sementes que Voaram


Esperar por outro momento importante, é uma grande especialidade de todas as árvores.


Esta é a história de uma árvore que estava à espera. De esperanças. Esperava o dia mais que perfeito, o dia certo, o dia tal! Por isso, deixou passar os dia frios. Os dias de chuva. Os dias incertos. Esperou pelo calor e finalmente viu as suas sementes soltarem-se. Voarem!


O momento não podia ser mais oportuno. Nunca se terá falado tanto da nossa floresta, nunca se terá prestado tanta atenção às nossas árvores como agora. A tragédia que devastou o país, pintando quilómetros e quilómetros de tonalidades verdes com tons negros e feios, reacendeu também inquietudes e preocupações. Delas, não ficaram arredadas as crianças. Falar-lhes do respeito e da sensibilidade que a mãe natureza espera de nós, é um imperativo.


Cem Sementes que Voaram, o livro agora editado pelo Planeta Tangerina, com texto de Isabel Minhós Martins e ilustrações de Yara Kono, é merecedor do nosso aplauso. 


No rasto das cem sementes lançadas pelo sábio pinheiro, as autoras conduzem-nos num percurso onde se somam imprevistos (serão?), mas onde a palavra de ordem é a subtracção. Das 100, 10 acabaram numa autoestrada, 20 mergulharam num rio e foram comidas pelos peixes, 10 caíram em solo rochoso, 25 foram bicadas pelos pássaros... umas desapareceram no papo de um melro guloso, outras foram comidas por um trinca-pinhões, outras houve que aterraram na barriga de um esquilo ou que foram levadas por um menino, algumas até serviram de ninho a dois insectos apaixonados...


Página a página, vamos fazendo contas às que restam. Alimentando a esperança de que as páginas seguintes sejam apenas portadoras de boas notícias. Mas não é isso que acontece. Uma certa angústia apodera-se de nós, leitores. Pequenos e grandes. Porque este é um livro para todas as idades. O ritmo parece alucinante... Restará alguma? No rosto dos mais pequenos surgem riscos de apreensão, de tristeza...



Mas este é um livro com marca Planeta Tangerina. Logo, tudo pode acontecer. Até, imaginem, fazer uma pausa, um parênteses.  São as próprias autoras que o dizem:
(E agora sentamo-nos um pouco a chorar...
Porque, caramba, isto já começa a ser demasiado triste!)


A história poderia acabar mal? Sim, podia. À semelhança de algumas histórias da vida. Mas a natureza também nos ensina que nada se perde, tudo se transforma e as surpresas estão aí. A relembrar-nos que a grande especialidade das árvores é esperar por outro momento importante. Na esperança de que tudo corra bem. 
No final, encontramos algumas das sementes que germinaram a imaginação das autoras para fazer um livro que celebra a resistência das sementes e a inteligência das árvores e da natureza.
Um livro inteligente, acrescentamos nós, que celebra muito do que um livro pode ser. Seguramente, um dos livros do ano para os Hipopómatos.