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terça-feira, 9 de junho de 2026

Sua Alteza, a Princesa do Lodo

 






















Sua Alteza, a Princesa do Lodo | Beatrice Alemagna | Orfeu Negro


Sua Alteza, Beatrice Alemagna está de volta. Pela mão da Orfeu Negro, chega mais um livro da prestigiada e aclamada autora. Sem surpresa, ainda que se trate de um dos mais recentes, soma já vários prémios. O fascínio da obra desta "fazedora de livros", como se auto intitula, parece inesgotável.






















Em 2015, escrevíamos aqui que a obra de Alemagna parece estar sempre aberta aos mais fracos, aos mais desprotegidos, aos mais incompreendidos, aos mais pequenos... E é essa componente filosófica que a torna ainda mais encantadora. A aceitação das diferenças ou a forma como moldamos a existência, assente nas nossas próprias fragilidades, confere-lhe ainda um pendor existencialista, onde acabamos por nos rever e encontrar.























O seu mundo é povoado de personagens que, não só expõem as suas fragilidades, como, com naturalidade, acabam por encontrar forma de lidar com elas. À semelhança das histórias, as figuras criadas por Alemagna exibem sempre algo de poeticamente real. Algo que nos faz regressar à infância e deambular pelos retalhos da memória que dela guardamos. 























Yuki, a miúda que narra esta história, tem a certeza de que o irmão não gosta dela. E também não tem dúvidas de que isso se deve ao facto de ser  malcriada, capaz de chorar, gritar e de dar murros no chão. Não vislumbra outra razão para o irmão a ir buscar à escola e, praticamente, não lhe dirigir a palavra. Segundo ela, o rapaz "fecha-se dentro do capuz", comportando-se como uma autêntica múmia. Irritada com tanto silêncio, acaba atirando as chaves de casa para dentro de uma caixa de esgoto que encontra destapada. O arrependimento é imediato, mas não lhe resta alternativa que não seja descer ao mundo subterrâneo. É o início de uma extraordinária  viagem, que nada fica a dever à magia de outras que atravessam o nosso imaginário.























Depois da longa descida, a anfitriã do mundo do lodo aguarda-a. É enorme, suja, e pinga lama por todos os lados. Com arbustos em vez de cabelo e raízes no lugar das mãos, Sua Alteza, a Princesa do Lodo propõe-se fazer uma visita guiada pelo seu mundo pegajoso. Por entre várias aventuras, Yuki é conduzida pela Floresta das Sombras, ficando a conhecer lugares como o Museu da Fúria ou a Raivoteca.  No primeiro, estão todas as coisas que as pessoas atiram quando estão furiosas e, no segundo, a quantidade e a diversidade de raivas guardadas deixam a nossa miúda incrédula. O humor está presente ao longo das páginas, mostrando que, até nas alturas difíceis da vida,  ele é importante.






















Sua Alteza tem um papel preponderante nas descobertas que Yuki acaba por fazer no mundo lamacento. Acerca de si, do irmão, da complexidade dos sentimentos, da forma como gerimos as emoções... Yuki acaba a aventura quase tão suja como a Princesa, mas também é verdade que regressa ao mundo de cima bem mais confiante e feliz. 

























Com uma paleta de cores única e inconfundível, que só ela parece conseguir, Alemagna faz aqui um uso preponderante e mais do que apropriado dos seus tons de terra, atravessados pela beleza do azul e com alguns apontamentos de vermelho e amarelo.  Como sempre, há toda uma harmoniosa simbiose entre palavras e ilustrações, que faz com que o seu trabalho denote uma coerência e uma estética inconfundíveis. Nunca ficando defraudado, o leitor volta a deslumbrar-se com a entrada num mundo encantador e mágico em todos os sentidos. Que venha o próximo!


segunda-feira, 4 de novembro de 2024

A Gigantesca Pequena Coisa




 







A Gigantesca Pequena Coisa | Beatrice Alemagna | Orfeu Negro


É um luxo ver os livros de Beatrice Alemagna por cá, e logo em dose dupla! Num curto espaço de tempo, fomos presenteados com dois magníficos livros trazidos pela mão das editoras Orfeu Negro e Kalandraka. Depois de uma anterior edição, há muito esgotada, da Bags of Books, está de volta essa incrível Gigantesca Pequena Coisa.







































Uma coisa que passou mesmo ao lado dos pés do pequeno Sebastião, que uma menina tentou apanhar como se apanha uma mosca, que alguns esperam durante muito tempo sem conseguir encontrar ou reconhecer... Há quem tenha medo dela, feche as portas, construa muros ou quem a tente comprar. 
De modo sublime, enigmático e nostálgico, Alemagna constrói uma narrativa em torno de algo que atravessa todo o livro, mas que só no final é revelado ao leitor. Algo transversal a todas as personagens que percorrem as páginas. Homens ou mulheres, velhos ou novos. 







































Que coisa é essa? Há quem a encontre nos cheiros, nos olhares, nos braços de alguém. E também há quem chegue a encontrá-la num simples floco de neve, no meio da chuva ou numa lágrima. Momentos tão fugazes quanto maravilhosos. Não podemos retê-la, não a podemos guardar, mas, de uma forma ou de outra, procuramo-la.




























Pintado de cores que parecem sempre ser só suas, a autora é dona de um universo feito de poesia, beleza, delicadeza e com uma forte componente filosófica. Através de uma harmoniosa simbiose entre palavras e ilustrações, o seu trabalho denota uma coerência e uma estética inconfundíveis. 
Não hesitem. São razões mais do que suficientes para querer habitar os livros desta nossa autora de eleição.  Abram as páginas todas e vão lá desvendar que gigantesca pequena coisa é essa. Para nós é impossível e impensável não abrir qualquer um dos livros de Alemagna e ficar por lá, sentindo essa imperfeita perfeição.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Um e Sete

 





Um e Sete | Gianni Rodari e Beatrice Alemagna | Kalandraka


Quando Gianni Rodari escreveu este conto, que integra os Contos ao Telefone, talvez não suspeitasse que volvidos mais de 60 anos, ele fosse tão adequado aos tempos negros que vivemos e passível de tocar tão intensamente leitores de todas as idades. Magistralmente ilustrado por Beatrice Alemagna, esta ode à paz e à diversidade transforma-se num relato de esperança e amor que percorre a infância até à idade adulta. 



É a história de um rapaz que era sete meninos num só. Viviam em lugares distintos (grandes cidades capitais do mundo), falavam línguas diversas, mas quando riam, faziam-no na mesma língua. Sete meninos diferentes, afinal um só. Os pais têm profissões distintas, mas os meninos têm hábitos iguais. Todos sabem ler e  escrever, andar de bicicleta sem mãos, brincar, ser criança... 
Todos diferentes, todos iguais.



























Uma história tocante, de uma extrema sensibilidade que percorre  texto e ilustração. Mais do que actual, necessária. Este é um daqueles livros que sempre nos acompanha. Pena que os homens que, entretanto foram crescendo em tamanho, não tenham crescido em cabeça e coração e não o queiram, também eles, por companhia. 
















Era uma vez um rapaz que era sete meninos num só. Muito mais o que os une do que aquilo que os separa, quando crescem, no seu mundo, não há lugar para a guerra. Afinal são um só. Gostamos deste mundo e, tal como escrevemos aqui em 2017, há muito que fizemos a nossa reserva. 

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Un et Sept. Leituras de Fora


Un et Sept, de Gianni Rodari e Beatrice Alemagna, é o livro da semana na Casa dos Hipopómatos. 



Magistralmente ilustrado por Beatrice Alemagna, a história de Rodari é uma ode à paz. Sete meninos diferentes, afinal um só. Vivem em distintas cidades do mundo, falam línguas diversas,  mas o sorriso é o mesmo.


Os pais têm profissões distintas, mas os meninos têm hábitos iguais. Aprendem a ler e a escrever, a andar de bicicleta, a brincar, a ser criança... Todos diferentes, todos iguais. 


Muito mais o que os une do que aquilo que os separa, quando crescem, no seu mundo, não há lugar para a guerra. Afinal são um só. Gostamos desse mundo e já fizemos a nossa reserva. Celebramos o Dia da Criança todos os dias.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Beatrice Alemagna


Os seus livros colam-se às mãos com a mesma intensidade com que as histórias nos invadem a cabeça e aí passam a residir. Sempre que nos cruzamos com um, como aconteceu recentemente em Madrid, não resistimos a apossar-nos dele. Falamos dos livros de Beatrice Alemagna.


Los Cinco Desastres, no original I Cinque Malfatti, é um livro surpreendente e hilariante, onde, mais uma vez, as aparências sucumbem perante a essência. Ainda que esta se revele através  de seres imperfeitos e bastante trapalhões, como é timbre da autora.


Peculiar, algo trapalhão e semeado de belas imperfeições, assim é o universo de Beatrice Alemagna. Afinal, como a vida. 


Um mundo povoado de personagens que não só expõem as suas fragilidades como, com naturalidade, acabam por encontrar forma de lidar com elas. À semelhança das histórias, as figuras criadas por Alemagna exibem sempre algo de poeticamente real. 

Ilustração de Meu Amor, Bags of Books, 2010

Algo que nos faz regressar à infância e deambular pelos retalhos da memória que dela guardamos. 

Ilustração de Gisèle de Verre, Éditions du Seuil, 2002

Na sua maioria, as histórias de Alemagna caminham sob o mote da diferença. Ou melhor, das diferenças. É assim, por exemplo, em O Meu Amor ou em Gisèle de Verre, um dos nossos livros preferidos.

Gisèle de Verre, Éditions du Seuil, 2002


Gisèle  de Verre relata a magnífica história de uma menina que, tendo nascido de vidro e transparente, se determina a percorrer o seu próprio caminho, alheia ao preconceito.

Ilustração de Gisèle de Verre, Éditions du Seuil, 2002

A obra de Beatrice Alemagna parece estar sempre aberta aos mais fracos, mais desprotegidos, mais incompreendidos, mais pequenos... E é essa componente filosófica que a torna ainda mais encantadora.

Ilustração de Karl Ibou,  Éditions Autrement, 2008

A aceitação das diferenças ou a forma como moldamos a existência, assente nas nossas próprias fragilidades, confere-lhe ainda um pendor existencialista, onde acabamos por nos rever e encontrar.

Ilustração de Karl Ibou,  Éditions Autrement, 2008

Através de uma harmoniosa simbiose entre palavras e ilustrações de que sempre se revestem todos e cada um dos livros, o seu trabalho denota uma coerência e uma estética inconfundíveis.

Ilustração de Histoire Courte D'Une Goutte, Éditions Autrement, 2004

O livro que agora trouxemos não foge à regra. Esta casa, suficientemente periclitante para poder desabar em qualquer momento, é habitada por cinco desastres que nunca fizeram nada na vida. Nem têm qualquer vontade de fazer. Amiúde, discutem sobre qual dos cinco é o mais desastrado e isso diverte-os bastante.


A chegada de uma criatura sensacional, parece, contudo, indiciar uma mudança dos contornos da história. Por contraposição aos cinco desastres, é esta a descrição da dita  criatura: Era bello, liso, perfecto. Tenía la nariz en el lugar de la nariz, un hermoso cuerpo erguido, ni un agujero de más en la barriga, y una preciosa melena.


É fabuloso o final escolhido pela autora para os seus cinco desastres no momento em que o Senhor Perfeição, enfadado,  conclui que eles não servem mesmo para nada, que são um zero à esquerda. 


Apenas vos dizemos que, a esta altura, eles estão mais contentes do que nunca. E nós também. Porque é com naturalidade que assim ficamos, sempre que lemos um livro de Beatrice Alemagna.


 Ilustração de Un et Sept, Éditions du Seuil, 2001

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Che cos'è un bambino?

Hoje é o melhor dia do mundo, ou o dia do melhor do mundo, ou o melhor mundo do dia…!?!?!? Já estamos a confundir tudo. É da emoção.
Já temos o dia, mas saberemos nós O que é uma criança? Sabemos responder a o que é um carro?, o que é uma casa? ou o que é uma dor de barriga? Mas o que é uma criança?


 
Beatrice Alemagna fez um estudo muito atento sobre o assunto. Este livro é pura beleza dedicada ao conhecimento deste ser ainda indecifrável. Chegaremos a alguma conclusão? Não podemos garantir. Mas apostamos que se vão deliciar. Atenção às adaptações! Não resistimos a este texto e tivemos de o copiar, ainda que adulterado (lá está, coisas de adultos).
Já descobrimos várias coisas:



Uma criança é uma pessoa pequena. É pequena só por um bocadinho, pois torna-se grande. Cresce sem ninguém fazer caso disso. Piano piano e em silêncio, o seu corpo vai alongando. Uma criança não é uma criança para sempre. Um belo dia muda.
Uma criança tem mãos pequenas, pés pequenos, orelhas pequenas…mas nem por isso tem ideias pequenas. As ideias das crianças, na volta, são enormíssimas, divertem os crescidos, fazem-nos abrir a boca e dizer: “AH!”




As crianças têm desejos estranhos: usar sapatos brilhantes, comer algodão doce ao pequeno-almoço e ouvir a mesma história vezes sem conta.



Também as ideias dos grandes são, por vezes, estranhas para os pequenos: tomar banho todos os dias, cozinhar feijão-verde em manteiga e dormir sem o cão amarelo. «Como é possível?», questionam os meninos.




Beatrice Alemagna traça um retrato fiel da criança, captando cada pormenor que, normalmente,  passa despercebido. Principalmente aos mais crescidos. Mas há ainda uma pontinha de esperança para todos os cãezinhos amarelos... as crianças que decidem não crescer mais. Aquelas que guardam um mistério dentro de si e que ainda se comovem com as pequenas coisas, como um raio de sol ou um floco de neve.


É isto uma criança! Continuam na mesma? Sem uma resposta concreta? Pois nós sabemosmuitobemoqueé…é que nós ainda não acabamos de crescer. Não nos está a apetecer. Feliz dia da criança.


(Se o quiserem muito, podem comprá-lo aqui.)