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quarta-feira, 18 de março de 2015

Porquê?


Serge Bloch


Porque é que os espelhos estão do avesso?
Porque é que os limões não são doces?
Porque é que as lesmas não têm concha como os caracóis?
Porque é que o B vem depois do A?
Porque é que as formigas são tão pequenas?
Porque é que as cenouras não crescem nas árvores?
Porque é que o Alfredo é alto?
Porque é que os arco-íris não entram em casa?
Porque é que não se frita o leite-creme?
Porque é que os morcegos se penduram de pernas para o ar?
Porque é que as cebolas não choram?
Porque é que amanhã não é hoje?
Porque é que as cabeças têm cabelo?
Porque é que uma urtiga não é uma rosa?
Porque é que os círculos não são quadrados?
Porque é que os cavalos não mugem como as vacas?
Porque é que Julho não é Maio?
Porque é que tens as mãos nos ouvidos?
Porque é que te estás a ir embora...?

Richard Edwards, in O Tigre Na Rua e Outros Poemas, bruaá editora, 2012


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Apologia do Buraco


Gostamos de livros com buracos. De qualquer tamanho. Com ou sem bicho. Bom, também gostamos de buracos com livros. Provavelmente, devemos tudo isso a Peter Newell que, em 1908, se lembrou de escrever O Livro do Buraco. Alheio ao peso moralista que  os supostos livros para crianças transportavam no início daquele século, Newell parecia gostar de brincar com o próprio conceito de livro, fazendo disso uma forma de despertar a curiosidade dos mais pequenos. The Rocket Book, Topsys and Turvys e o Livro Inclinado, editado entre nós pela Orfeu Negro, são outros exemplos disso.

No caso de O Livro do Buraco, o dito fica a dever-se a uma bala disparada, inadvertidamente,  por Tom Potts, um pequeno rapaz. Página a página,  assistimos à sucessão de desastres que a mesma vai provocando ao longo de uma atribulada e hilariante viagem. A irreverência, quer a nível do texto quer das ilustrações, parece ser a palavra de ordem do autor. Volvidos mais de cem anos, a história, que muitos apelidaram de politicamente incorrecta, mantém incólume o sucesso.


 



Uma constante e infinita interrogação sobre as origens do Homem. Assim se poderia definir Et avant, o livro escrito por CharlElie Couture e ilustrado por Serge Bloch. Dele falámos aqui.

As ilustrações de Bloch, de traço minimalista, emergem em torno de um buraco circular existente no centro de cada página. Elemento visual preponderante, vai-se transformando e ajustando a cada momento da história. Ponto de interrogação, sol, balão, boca, ventre materno... 

Simbolizando simultaneamente a passagem para um outro tempo e o próprio meio para voltar às origens, através dele vamos recuando no tempo. 


 




Em Le Trou, na versão inglesa The Hole, de Øyvind Torseter
voltamos a cruzar-nos com um pequeno buraco que atravessa todo o livro.              

Ao mudar-se para um novo apartamento, esta criatura descobre a existência de um buraco, que parece mover-se por todas as dependências da casa... O mistério ocupa-lhe a cabeça e decide pedir ajuda. O laboratório aconselha-o a levar o buraco para análise. Nós, leitores, acompanhamos a hilariante viagem pela cidade...
O desenho minimalista contribui para evidenciar em cada página a existência do buraco.  Uma história  genialmente construída  que,  simultaneamente nos diverte e questiona. 

Este é um tema a que voltaremos. Não por os buracos estarem na moda, mas porque andam por aí outros livros esburacados a que não resistimos...

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Et avant Serge Bloch?

Desde Setembro que o francês Serge Bloch é o Ilustrador convidado do Cria Cria. Devotos do seu trabalho, os Hipopómatos não têm perdido pitada da conversa. E, claro, estão a adorar! Hoje, partilhamos o último livro do ilustrador que há uns meses veio parar à nossa biblioteca.



Uma constante e infinita interrogação sobre as origens do Homem. Assim se poderia definir Et avant, o livro escrito por CharlElie Couture, que Bloch ilustrou.


Do alto de uma torre, em Manhattan, um homem observa as gentes que, em baixo, correm de um lado para o outro. Partindo da constatação de que parecem saber para onde vão, a primeira das suas interrogações é se saberão de onde vêm.



Uma voz estabelece então um diálogo com o homem, ritmado pela cadência da quase invariável pergunta:  e antes, onde estavas? As respostas vão construindo a sua história, que é, afinal, também a do povo judeu.  A cada página,  remonta-se a um tempo cada vez mais longínquo.



                                   

As ilustrações de Bloch, de traço minimalista, emergem em torno de um buraco circular existente no centro de cada página. Elemento visual preponderante,  vai-se transformando e ajustando a cada momento da história. Ponto de interrogação, sol, balão, boca, ventre materno... 


Simbolizando simultaneamente a passagem para um outro tempo e o próprio meio para voltar às origens,  através dele vamos recuando no tempo.  


                                         



O traço preto e fino da ilustração de Serge Bloch, apenas acompanhado aqui e ali pelo azul celeste, reforça e engrandece o texto poético de Couture.


Este é um livro que põe gente pequena e grande a pensar. Saberemos todos de onde vimos?


Vocês sabem?