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quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Gato Comum




Gato Comum | Joana Estrela | Planeta Tangerina


Tudo por aqui aparenta ser comum. O gato, a família, a casa, as rotinas. O que nada tem de comum é a mestria com que Joana Estrela, alicerçada na simplicidade das coisas de todos os dias,  constrói uma história intensa e tocante, levando o leitor a apropriar-se desta ou daquela vivência. Quem tem animais domésticos conhece a inevitabilidade da dor quando chega o momento de nos deixarem. Nesta história, a longevidade do gato faz adivinhar a proximidade do fim.



 



Manel, o gato da casa, tem a mesma idade de Cristina, a adolescente de 17 anos, filha única da família. É ela que abre as portas da casa para contar o que o leitor cedo percebe serem os últimos dias de vida do gato. O relato da rapariga é feito de memórias, de cumplicidades, de hábitos e rotinas, do muito que o Manel deu e recebeu, das suas manias, dos seus dias. Enquanto a morte não chega há por aqui a celebração de toda uma vida.







































A história do Manel é também a história das pessoas com quem partilha a vida, Cristina e os pais. O leitor conhece um pouco de cada um. Do que os une, do que os separa. O livro chegará ao fim e os dias do Manel também. A terrível frase que nunca queremos ouvir está mesmo atrás da porta: O Manel já não tem qualidade de vida. 
São dias amargos e tristes. A decisão tem de ser tomada, mas não é consensual nem constante. Porque muito dela se toma com o coração.







































"É sábado de manhã. O gato ainda está vivo. Mas também ainda está a morrer." 

Há muito para reflectir enquanto nos demoramos nesta casa. Dor, luto, morte, eutanásia. Retalhos de uma vida que se celebra, retratos da adolescência, o amor incondicional pelos animais que adotamos, as indecisões e a coragem sempre necessárias nos momentos difíceis, o fortalecimento da família... Há por aqui muitas histórias dentro da história.
O livro integra a coleção Dois Passos e Um Salto, onde a autora já assinou "Aqui é um Bom Lugar"(a meias com Ana Pessoa) e "Pardalita". Num tempo em que continuamos a ouvir recorrentemente que as nossas crianças se perdem para a leitura à medida que vão "adolescendo", estes são preciosos incentivos a que, seguramente, não ficarão indiferentes.







































Neste regresso de Estrela à BD, um reino  que parece seu por direito próprio, aplausos para este excepcional gato comum.


quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Menino, Menina. E se ler um livro por dia fôr uma vacina contra a pandemia?

4. Menino, menina, de Joana Estrela | Planeta Tangerina

A estranheza dos dias que correm não se deve apenas à pandemia. O mundo parece atacado de  alguns "vírus" de índole diferente, assentes no ódio, na mentira, na maldade... Cada vez é mais urgente transmitir às nossas crianças os valores que alicerçam um mundo livre, justo e igualitário. Consolidá-los juntos. Quando um livro nos ajuda a fazê-lo, de forma simples e aberta, só podemos aplaudir. É o que acontece com o livro que escolhemos hoje, da autoria de Joana Estrela e editado pelo Planeta Tangerina, um lugar onde um livro nunca é só um livro. Começando por introduzir a questão da identidade, à medida que lhe vamos virando as páginas ele transforma-se numa celebração da diversidade, da liberdade, do respeito por cada um e por todos. 

As perguntas são lançadas. Algumas, já as ouvimos até à exaustão. Menino ou menina? Azul ou rosa? Calção ou vestido? Mas depois vêm as outras, as que nos fazem pensar. Precisas de saber se é rapariga ou rapaz? E se não é nem uma coisa nem outra?


Menino ou menina, rapariga ou rapaz, homem ou mulher? As perguntas pedem reflexão. Poderá aquilo que somos ser assim tão redutor? Não seremos todos  a soma de muito mais do que isso? A autora acompanha-nos. A espaços, vai deixando a sua opinião. Num registo puro e genuíno, com que os seus leitores rapidamente se identificam.

Um registo que se estende às ilustrações. Estrela já nos habituou ao seu traço de menina onde os mais novos facilmente se revêem e que continua a encantar os leitores mais crescidos. Dono de  uma boa dose de sensibilidade e algum humor, este é um livro para entrar de mãos dadas com a pequenada. Dito de outra forma, é uma lufada de ar fresco  de que bem precisamos. 



 
Menino ou menina? E se não é nem uma coisa nem outra? Uma coisa parece certa. A resposta não está debaixo da roupa.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Coisas de Manas

Não estranhem os leitores encontrar páginas riscadas, autocolantes colados ou desenhos rabiscados sobre as páginas deste livro: uma irmã mais nova passou por aqui... e deixou um rasto de destruição à sua passagem...


O aviso pode ler-se na contracapa do livro MANA, da autoria de Joana Estrela, vencedor do I Prémio Internacional de Serpa para Álbum Ilustrado e recentemente editado pelo Planeta Tangerina.


Não há muito tempo escrevemos aqui sobre O Que Aconteceu À Minha Irmã, editado pela Orfeu Negro. Uma deliciosa e divertida abordagem sobre a chegada à adolescência e o inevitável crescimento vistos, na perspectiva de uma irmã mais nova, convicta de que a sua irmã fora trocada. Por sua vez,  MANA é uma história narrada pela irmã mais velha, que surge em forma de carta endereçada à irmã à mais nova, retratada como um  ser extraterrestre que nem os "aliens" conseguiram aguentar por ser tão “chata”.


A narradora vai familiarizando o leitor com uma parafernália de tropelias que tipifica o comportamento da pequena e, no qual, muitos dos leitores acabam por se rever. Brinquedos partidos, livros riscados... o tal rasto de destruição para que fomos alertados. 


Escrita e ilustrada com grande dose de humor, a carta acaba por nos tornar íntimos das duas irmãs e permitir adivinhar, sem grande dificuldade, o batuque do dia a dia lá por casa. 


Ao mesmo tempo que nos elucida sobre a opinião da narradora em relação àquele estranho ser que, apesar de não saber falar nunca se cala, que apesar de ser a herdeira natural das suas roupas (onde já vimos isto???) prefere usar as do pai... As lutas, o olho por olho ou, se preferirem, o braço pelo dente são o espelho onde os mais pequenos, gargalhando, se vêem reflectidos.


A toada da carta acaba por ser inteligentemente marcada pelo crescente amenizar dos "conflitos latentes" entre ambas, subtilmente secundarizados pelo afecto e carinho que sempre acabam por falar mais alto. Para tal é determinante a partilha do dia a dia, dos objectos, dos sentimentos e até mesmo... da varicela. As afinidades são sempre em maior número do que as diferenças, à semelhança das histórias e das meias que acabam por misturar-se.


O próprio livro é o exemplo acabado, ao incluir também alguns desenhos de Mónica, esse o nome escolhido pela própria narradora para a irmã. Visualmente apelativo, com desenhos que fazem delirar os mais pequenos, com algumas piscadelas de olho à banda desenhada, fundos lisos, quadriculados ou de riscas ... A deliciosa mistura resulta numa magnífica e original história para pequenos (e grandes leitores) que, página a página, reconhecem o tanto da manta que vão pintando em casa. Coisas de todos os dias. Afinal, coisas de manas!