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sexta-feira, 11 de março de 2022

O Rapaz e o Gorila


 

O Rapaz e o Gorila | Jackie Azúa Kramer e Cindy Berby | Orfeu Negro


Esta é uma história sobre a morte, o turbilhão de emoções e o sofrimento que ela pode causar numa criança que acaba de perder a mãe. Aparece, entre nós, no momento em que as histórias reais do sofrimento de um povo que nos é próximo nos atormentam. Todos os dias choramos com e pelas crianças que vemos no terrífico cenário de guerra.  Repetimos até à exaustão que tudo isto era inimaginável. Mas, o que não se podia imaginar tornou-se realidade. O livro foi feito e publicado antes da guerra mas, quando o habitamos, torna-se impossível não pensar em todas as crianças que vão perder entes queridos e no sofrimento que isso lhes causará. Inimaginável, sim. 


Um cenário sombrio e de profunda tristeza aguarda o leitor, tornando-o parte dos momentos finais de despedida e de homenagem à mãe do menino. Tanto no cemitério como em casa, a dor é visível. Nas posturas e nos silêncios. É um inicio sem palavras porque estes são momentos em que elas nada acrescentam. Visível é também a presença do gorila. A sua cor e tamanho parecem simbolizar a dimensão da tristeza do rapazinho. Primeiro, vemo-lo a uma distância considerável, mas, na página seguinte, ele já enche a casa. Como se pertencesse ali. Uma espécie de vigilante. 




Percebemos a necessidade do menino em sair de casa. De procurar refúgio no jardim, um dos lugares da sua mãe. De ficar sozinho. É aqui que o diálogo se inicia. 

- O jardim da tua mãe é muito bonito. Posso ajudar?

A sensibilidade e o carinho do suposto amigo imaginário não parecem ter tamanho. A conversa vai tecendo a proximidade com o menino. Na mesma proporção que o leitor vai conhecendo os estados de alma e as legítimas questões que lhe invadem a cabeça. 



A figura do pai está sempre por perto, mas a ausência e o alheamento são notórios. É com o gorila que o menino fala. É com ele que vai fazendo o luto. Falar sobre as coisas ajuda-nos a encará-las. As perguntas são de peso. Como é que sabemos que uma pessoa morreu? Para onde é que foi a mamã? A minha mãe não pode voltar para casa? Porque é que ela teve de morrer?
O gorila parece ter o tempo todo do mundo. De forma sábia e serena, vai encontrando as respostas.  Com a honestidade de que carecem as situações imutáveis.  A morte não tem volta.


Quando é que vou sentir-me melhor? / Quando perceberes que ela ainda está contigo. / Como quando fazemos as bolachas da Mamã? / Sim, cada trinca é uma memória.

Lentamente, a criança parece ir descobrindo como lidar com os sentimentos até agora desconhecidos. A ajuda do gorila verte-se em pequenos gestos que lhe recordam o amor da mãe. Ao mesmo tempo que prepara a aproximação da criança ao pai e a sua saída de cena. É nesse conforto que o menino encontra alento para confessar ao pai que sente a falta da mamã.  E trazê-lo de volta. É nesse amor que ambos encontram a força para o recomeço.



O avassalador turbilhão de sentimentos do menino é transmitido ao leitor tanto pelo curto e sábio texto como pelas aguarelas de Derby, a ilustradora de O Mundo Cá Dentro. As cores escolhidas, as pinceladas, os jogos de sombras são magnificamente cuidados e pensados. Este é um livro onde o tempo tem tempo. Onde até o leitor sabe esperar. É assim o luto. Sofrido e demorado. Algo que nenhuma criança deveria viver, mas que para muitas é real.


quinta-feira, 7 de outubro de 2021

O Mundo Cá Dentro



A capa é um convite. Quando entramos, somos envoltos na beleza que se espraia por cada página, estonteando-nos os sentidos. Olhamos cada pequeno detalhe em que se reflete este hino à natureza. Sabemos que é um lugar que queremos habitar. Desejamos conhecer cada caminho, descansar em cada recanto, passear-nos demoradamente. Tocamos os ramos, as folhas, conversamos com os pássaros, saboreamos as cores. Voltamos vezes sem conta para esse reencontro.




Recentemente editado pela Orfeu Negro, O Mundo Cá Dentro, com texto de Deborah Underwood, é brilhantemente ilustrado por Cindy Derby, um nome que nos enche de alegria ver por cá. Autora de vários livros e alguns prémios, Derby deslumbra todos os que a seguem com o uso que faz da aguarela. Aqui, juntou-lhe a grafite em pó sobre papel prensado a frio e utilizou hastes de flores secas e fio embebido em tinta. O resultado é um requintado festim para os olhos de todos os que têm o privilégio de por cá passar.  
The New York Times refere-se  ao seu trabalho como “profound” and “wonderfully out of control". Não podíamos estar mais de acordo.



Dantes, nós éramos parte do mundo e o mundo era parte de nós. Nada havia a dividir-nos. Agora, até quando estamos lá fora... estamos cá dentro.
Partindo desta premissa, as autoras encontram uma forma poética e encantatória de nos mostrar como nos esquecemos de olhar e valorar o que nos rodeia. No carro, no rotineiro circuito do dia a dia, em casa... esquecem-nos, amiúde, de que o mundo existe. E é ele que nos relembra, entrando-nos em casa das mais variadas formas, mesmo que tenha de utilizar alguns truques de magia.


 
O mundo não desiste de nós. Um ramo que bate na janela, os chilreios dos pássaros, os cheiros, uma teia de aranha, o pão e os frutos que a terra nos põe em casa... É assim que nos relembra que está à nossa espera.



E nós vamos ao seu encontro. À boleia de de um magnífico jogo de perspectivas, de luzes e sombras que, como por magia, nos faz querer abraçar o mundo em todas as estações do ano.