quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Ilustre Sintra, um Festival para Todos


 




















CELEBRAMOS O PODER DA ILUSTRAÇÃO E A MAGIA DE SINTRA.
O primeiro Festival de Ilustração de Sintra realiza-se entre os dias 15, 16 17 de Setembro e prolonga-se até 7 de outubro

Consultem o programa e mais informações em ilustresintra.com e nas redes sociais. Contamos com vocês! Até Setembro.

Ilustração: Susa Monteiro

Design: Catarina Correia Marques

Curadoria: Nazaré de Sousa e Renata Bueno (Hipopómatos na Lua)

Produção: Hipopómatos na Lua

Apoio: Câmara Municipal de Sintra, Cultursintra, Parques de Sintra

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Os Reflexos da Henriqueta




Os Reflexos da Henriqueta | Marion Kadi | Fábula

Vencedor do  Prémio Opera Prima, em Bolonha, este é um livro singular sobre a temática do crescimento e da identidade. Pintado com cores fortes e apelativas, percorrer as suas páginas acarreta ao leitor a sensação de estar a visitar um qualquer museu. 




Quando um velho leão morre, o seu reflexo fica aborrecido e desocupado. As alternativas à sua volta não são tentadoras. Não lhe apetece ser reflexo de uma flor ou de um simples pato e decide partir em busca de novos ambientes.




A viagem termina quando descobre a casa de Henriqueta, uma menina tímida que não gosta da escola. Não teve dúvidas, queria ser o seu reflexo. Sem perder tempo, surpreende-a na primeira poça de água. Como num golpe de magia, a timidez da menina cede lugar à audácia.




Na escola, o silêncio e o medo de participar na aula pertencem ao passado. Henriqueta diverte-se e diverte os que estão à sua volta. O dia foi fantástico e a menina sente-se mais forte do que nunca. Mal pode esperar pelo dia seguinte. Mas não há dias iguais... e as altas expectativas de Henriqueta viriam a sair frustradas. Entre brincadeiras de feras selvagens e rugidos na sala de aula, o descontrolo foi total. Tudo somado, a pequena foi contemplada com um senhor raspanete. Só ela, claro.




A alegria do dia anterior foi substituída por alguma tristeza. Entre pensamentos, Henriqueta duvida se o reflexo de um leão será o melhor para si. A verdade é que nem é parecida com um leão. Lembrou-se, então, do seu antigo reflexo. Esse sim, parecido com ela. Depois de muito procurar, encontrou-o escondido num lugar incrível. Afinal, não é todos os dias que o reflexo de uma menina se cruza com o reflexo de um leão. O medo é compreensível...
Desenganem-se, leitores, se pensam que Henriqueta expulsou o reflexo do leão da sua vida. Haverá divertimento maior do que viver com dois reflexos? O seu próprio e o de um leão? 

sexta-feira, 23 de junho de 2023

O Pirilampo Muito Só

 


O Pirilampo Muito Só | Eric Carle | Kalandraka

Um verão sem pirilampos é algo inimaginável. Quem vive no campo e tem por hábito organizar as noites de pirilampos, sabe do que falamos. Por isso, não podia ser mais oportuna a chegada deste pequeno, cartonado e precioso livro de Mr. Eric Carle. Pouco interessa a sua idade, porque os livros de Carle são intemporais e serão sempre fantásticos companheiros de crescimento para os mais pequenos.

A história narra o voo de um pequeno pirilampo, acabado de nascer, em busca dos seus pares e do seu lugar. A cada página, o pirilampo descobre uma luz que julga ser proveniente de outros pirilampos. Mas, entre lâmpadas, lanternas, faróis de automóveis, o reflexo nos olhos de alguns animais ou até fogo de artifício, o pirilampo vai lidando com a frustração.



A noite revela-se longa e atribulada, mas o pequeno não desiste. E, claro, acaba recompensado pela sua persistência e coragem, encontrando, finalmente, os outros pirilampos. Só boas razões para levar as crianças lá para fora e deixá-las observar a noite e os pirilampos. 



A chegada de mais um livro do autor será sempre motivo de agradecimento à Kalandraka, a editora responsável pelo deleite dos mais pequenos e de todos os que são fãs da obra do mestre da cor.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Haja Paciência








































Haja Paciência | Gonçalo Viana | Orfeu Negro


Não é todos os dias que abrimos um livro e somos recebidos por uma personagem inconformada 
com a sorte, ou melhor, o azar que lhe calhou. Morar num livro, ser o anfitrião de um lugar onde todos esperam que lhe seja contada uma história, pode ser algo de muito desgastante. Sim, porque o livro abre-se todos os dias, a qualquer hora. É um lugar que o leitor frequenta não olhando a feriados, sábados ou domingos. Não podemos deixar de dizer que entendemos o ponto de vista de quem está do lado de lá. Haja paciência!






Sim, leitores, se estão à espera de ouvir uma história, desistam. Definitivamente, esta personagem já não está para aí virada. Não foi sempre assim e o nosso interlocutor não tem qualquer problema em contar que a sua vida foi um conto de fadas. Fez de tudo neste mundo encantado. Foi Pinóquio, Cinderela, Capitão Gancho ou Branca de Neve. Mas convenhamos que já não é uma criança e isto de andar preso pelas linhas do texto é extremamente cansativo. Levantar-se da cama a qualquer hora para ser Pinóquio ou Capuchinho Vermelho, atravessando uma floresta e ainda ter de se defrontar com o lobo, é demais. Por isso, chegou a altura de mudar de vida. E de prateleira, claro. Haja paciência!



O sonho era acabar os dias num dicionário, um sítio sossegado e com muitas páginas. Mas nem sempre a vida corre como desejamos e acabou por aqui, neste bairro, que até é simpático. A vizinhança não é má,  mas o sossego continua a não existir. Porque nós, leitores, abrimos o livro a qualquer hora e continuamos à espera... Para já não falar da moral da história que a toda a hora lhe bate à porta e o atormenta. Haja paciência!




O leitor mais céptico já se terá interrogado o que faz num livro onde o único contador de histórias se recusa a contá-las. Para os que têm dificuldade em aceitar um não, esta "não história" pode exigir um pouco mais de persistência. Mas bastará um pouco de empatia e de boa vontade para com a personagem, para concordar que até ela tem direito ao descanso, talvez já mesmo à reforma. Haja respeito! Chegado a esta altura da vida, é normal que sinta vontade de inverter os papéis. É chegado o momento não de contar, mas de ouvir!







































Viana oferece-nos uma história hilariante, levando-nos, através de magníficas ilustrações, por um cenário algo surreal, ou não fosse esta a casa de um contador de histórias que já viveu por dentro de todos os contos de fadas. Uma não história que nos faz revisitar alguns contos bem familiares, ao mesmo tempo que nos permite reflectir sobre os direitos dos outros. Ainda que os outros possam ser meras personagens. Haja imaginação!


quinta-feira, 25 de maio de 2023

Perdido



Perdido | Mariajo Ilustrajo | Fábula


O título e o inicio do livro não deixam dúvidas aos leitores. Nesta história, há um urso polar perdido na grande cidade. Não sabe como aqui chegou, nem em que parte do percurso se enganou. Mas os altos arranha-céus, a multidão e a agitação rapidamente o levam a concluir que está perdido. Resta-lhe tentar encontrar o caminho de volta para casa.











Através dos pensamentos e das falas do urso, o leitor vai acompanhando a tarefa que não se adivinha fácil. À sua volta, todos lhe parecem demasiado ocupados ou abstraídos para o ajudar.  Provavelmente,  também estarão perdidos, pensa o urso. Talvez seja essa a razão para ninguém lhe prestar atenção. As filas são muitas. Decide aguardar numa, na esperança de ser a certa para recolher a informação de que precisa. O máximo que consegue é uma bebida da qual nem gosta... 














Quando, finalmente, chega ao balcão das informações, a pessoa responsável pelo atendimento nem sequer olha para ele, entregando-lhe simplesmente um mapa. Apesar de lhe terem dito que contém toda a informação, não consegue encontrar nele a mínima pista para voltar ao Pólo Norte. Sem perceber bem como, já se encontra no metro. Mas as suspeitas de que o mesmo não o levará de volta a casa são imensas. Um grande plano da carruagem, divido em quadros, mostra ao leitor cenas que lhe são sobejamente familiares. Entre telemóveis, jornais, auscultadores... ninguém dá pela presença do enorme animal. 

















Num metro apinhado de gente, a sensação de solidão pode ser esmagadora. Mas, eis que, finalmente, uma menina de cabelo ruivo, abraçada a um coelho de peluche,  lhe lança um "Olá, Urso!" A cor do cabelo fá-la destacar-se no meio daquela carruagem de gente tão igualA sequência de imagens a partir daqui é extraordinária. A menina decide levar o urso para casa. Afinal, é o que ele quer! Uma mão dada ao urso e a outra à mãe que, completamente absorta no telemóvel, nem  dá pela presença do novo amigo. 























Uma vez instalados, sem que os pais se apercebam de alguma coisa, a menina faz tudo o que pode para que o amigo se sinta em casa. Inicia-se uma verdadeira relação de amizade. A pequena brinca com ele, alimenta-o, dá-lhe banho... O urso aprecia a simpatia e a generosidade da nova amiga, mas começa a desconfiar que ela não faz a mínima ideia de onde fica o Pólo Norte. Só quando chega a hora da história, nos tranquilizamos. Nós e o Urso. Podemos ver as estantes de livros, onde a autora inclui um exemplar do seu A Inundação e um livro sobre o Pólo Norte, de imediato reconhecido pelo urso. Com ele pode, por fim, mostrar a sua casa, o lugar onde nada, o que comem os ursos (e não, não é pizza!), a sua família... Adivinhamos o final. É para isso que servem os amigos, para nos ajudar a voltar a casa.
























O segundo livro de Mariajo volta a ter como cenário a grande cidade. Mas, enquanto em  A Inundação, de que falámos aqui, se aborda o espirito de equipa, a entreajuda e a solidariedade que permitem salvar a cidade inundada, aqui a temática é bem diferente. A indiferença da grande cidade, o alheamento da multidão e a frieza que pode caracterizar os grandes centros urbanos. Curiosamente, os dois livros exercem a mesma magia na hora de prender os leitores.




As ilustrações são magníficas. Há todo um jogo de cores e de sombras que marcam o contraste das situações vividas. O texto é curto e é a componente imagética que nos vai revelando todos os pequenos grandes detalhes da viagem do urso desde que se perde até chegar a casa. Uma história que se inicia e termina nas guardas. O grande plano de abertura com os arranha-céus e o nariz do urso é soberbo. A primeira parte do livro é marcada pelos tons cinzas com que a autora transmite a frieza dos lugares. A carruagem do metro é gigantesca e Mariajo divide-a por vários quadros para que o leitor aperceba as grandes dimensões e a quantidade de pessoas que nela viajam... As cores amenizam-se na casa da menina e, até o urso é acometido de um fino humor. O final feliz avizinha-se. 



A autora é espanhola e há algum tempo passou a viver no Reino Unido. Facto que não é, seguramente, alheio a esta história sobre a indiferença e a hostilidade que podemos sentir quando estamos longe de casa. Mas esta é, também, uma história sobre amizade, atenção e carinho dispensados ao outro. 
Como é que o Urso regressou ao Pólo Norte? Abram o livro, é a vossa vez de se perderem por lá!

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Se choras como uma fonte


 





















Se Choras Como Uma Fonte | Noemi Vola| Planeta Tangerina


Este é um livro onde se pode chorar à vontade, mas do qual ninguém sai imune a umas boas gargalhadas. Já todos experienciámos a situação de estar perante uma criança e tentar, a todo o custo, que a sua vontade de chorar não descambe em pranto. E quem não provou já o fracasso  da missão? Nesta história, é o narrador que chama a si tal tarefa, nunca se dando por vencido.


O diálogo entre o narrador e a minhoca que assume o protagonismo da história obedece a uma toada em crescendo, que vai prendendo os leitores ávidos de saber como se vai desenrolar a lacrimal trama. O argumento inicial é de peso. Perante uma minhoca com toques de calimero, o narrador invoca que não se pode iniciar o livro com uma cara tão tristonha. Resultado?



Os olhos  da pobre minhoca vão denotando uma maior vontade de chorar, enquanto a sua postura é reveladora do enorme esforço feito para evitar que isso aconteça. A verdade é que só aguenta quatro páginas até  a primeira lágrima se soltar. Segue-se o pranto e a subida da água até um bom nível da página. O narrador vai fazendo uso de todos os argumentos possíveis, desde os mais drásticos, como o perigo de afogamento, aos mais convencionais, como chorar não serve de nada. Tudo em vão. Ainda assim, continua determinado a virar a história a seu favor.







































A solução encontrada surpreende tanto a minhoca como os leitores. Chorar, afinal, serve para muita coisa. E a minhoca até pode chorar à vontade, tem é de chorar melhor. Começa, então, um desfile de personagens, mais ou menos conhecidas, que dão forma aos diversos exemplos de como se pode fazer um melhor aproveitamento do choro. Ao mesmo tempo, a autora brinda-nos com um elenco de  situações hilariantes e, por vezes, até inusitadas. Chorar como uma fonte pode fazer  todos os pombos felizes, chorar para dentro de uma panela pode fazer uma bela massa, chorar na sala e usar um bocadinho de detergente...



A minhoca vai-se recompondo. O narrador vai levando a água ao seu moinho. Entusiasma-se. Explica-lhe que todos choramos. Polícias, super-heróis, jogadores de futebol, formigas, pedras... Que as lágrimas podem apagar pequenos e grandes fogos. Que podemos chorar em qualquer estação do ano. Sozinhos ou acompanhados. Que chorar é uma língua universal que até se entende melhor que o inglês. Que, afinal, o mundo até seria trágico sem lágrimas. Os sapos, por exemplo, acabariam por explodir, os rios ficariam secos.... O ânimo da protagonista é agora diferente.



Com uma paleta de cores alegres e uns desenhos com que os mais pequenos facilmente se identificam, Vola presenteia-nos com uma história que tem tanto de divertida (quem resiste a uma compota de pera 100% fruta e lágrimas?)  como de preciosa. Afinal, é de sentimentos e de estados de alma que falamos.
A esta altura, a minhoca parece outra. Tiramos o chapéu ao hábil e astuto narrador, embora todos saibamos que as próximas lágrimas não tardarão a chegar. Mas isso são outras inundações... Para os mais distraídos, que não se tenham ainda interrogado do porquê de tanta tristeza e choro no inicio do livro, só podemos recomendar que o abram e descubram. Porque esta história é de rir e de chorar por mais... 


sexta-feira, 5 de maio de 2023