sexta-feira, 14 de abril de 2023

O Que Fazem os Sentimentos Quando Ninguém Está a Ver






















O Que  Fazem os Sentimentos Quando Ninguém Está a Ver | Tina Oziewicz e Aleksandra Zajac | Fábula


Há por aqui toda uma paleta sóbria e delicada que nos acolhe em tons cinza, com alguns apontamentos em azul e rosa pálido , tornando este livro um lugar ameno para gente de todas as idades. Um ponto de encontro para graúdos e miúdos poderem conversar sobre a temática em que o próprio título já os introduziu. 























Ao contrário de muitos dos livros que se propõem esta abordagem  junto dos mais pequenos, aqui não nos deparamos com a estereotipada etiquetagem de cores. Os sentimentos não são identificados e rotulados com a paleta utilizada,  antes surgindo sob a forma de uns bicharocos, maioritariamente peludos, com os quais criamos uma relação empática logo na capa. Num cenário limpo e minimalista, são eles que dão corpo aos trinta e um  sentimentos que se enunciam no livro.

 


Altamente expressivas, as magníficas personagens vão-se exibindo ao longo das duplas páginas, enquadradas por frases curtas. Se algumas resultam mais ou menos óbvias,  é o efeito surpresa que, maioritariamente, toca o leitor. Uma boa dose de originalidade e umas pitadas de fino humor acompanham-nos do princípio ao fim do livro.























A Curiosidade é um bicharoco de orelhas grandes e pontiagudas que sobe aos lugares mais altos que consegue: o topo da árvore, o telhado ou a chaminé. A Ansiedade  senta-se numa lata enferrujada, num canto escuro debaixo de um armário. A Nostalgia cheira um velho cachecol numa casa recheada de memórias. O Nervosismo faz malabarismos. O Ódio é personificado por uma personagem roedora de fios, que corta toda e qualquer forma de comunicação. É esse resultado de não conduzir a lado nenhum e de total isolamento face a tudo e a todos que levará as crianças a captar a essência  negativa deste sentimento.

 

Por oposição, os fios estão sempre ligados no amor, sentimento que contrasta com todos os outros pela sua grandeza, dimensão dada por uma enorme lâmpada que está sempre ligada. 
"E onde é que tudo isto vive? Em nós."

























Um livro que se revela uma extraordinária viagem para fazer com os mais pequenos. Com paragem obrigatória em todas as páginas, este é um belo mote para uma conversa  sobre o tanto que cada um consegue sentir dentro de si.


quarta-feira, 29 de março de 2023

A Volta ao Mundo em Papel

 






















A Volta ao Mundo em Papel | Martina Manyà | Orfeu Negro


De pequenino se respeita o papel e esta é uma magnífica forma de explicar aos mais novos como ele lhes vai parar às mãos. Com a vantagem acrescida de, em poucas páginas, terem dado a volta ao mundo e ficado a saber onde nasceu o dito.



A história divide-se em duas partes. Na primeira, os leitores ficam a saber como tudo se processa até à feitura do papel na fábrica. De forma simples e cativante para os destinatários mais pequenos, Manyà dá inicio ao processo com uma nuvem. Tudo começa nela e na chuva com que rega a árvore. Depois, é a vez do sol dar o seu contributo para o crescimento da árvore. Segue-se o corte pelo lenhador, a chegada à fábrica onde se faz a pasta de papel e, finalmente, o papel.

A segunda parte da história faz-se da viagem pelo tempo em busca das origens do papel. Texto e imagens identificam os lugares. A primeira paragem é no Egipto, onde nasce o papiro. Daí damos um salto até à China, onde começou a ser trabalhado. Os indianos e os japoneses seguiram o exemplo. Mas, durante muito tempo, este foi um segredo guardado a muitas chaves. Um dia, o papel fez a sua aparição no Norte de África e daí até à Europa foi um pulo. 











A paisagem é minimalista, parecendo não querer roubar o protagonismo ao papel que se veste de branco. Esta é uma volta ao mundo que permite descobrir a origem do papel e a sua evolução, com a curiosidade de se ficar a saber que para fazer este livro de 56 páginas, se utilizaram 3500 folhas de papel com origem em florestas sustentáveis. 

quinta-feira, 16 de março de 2023

O Pequeno Robot de Madeira e a Princesa de Lenha







O Pequeno Robot de Madeira e a Princesa de Lenha | Tom Gauld | Fábula

"Era uma vez" e "todos viveram felizes para sempre", assim começa e termina esta história povoada por reis, fadas, bruxas, príncipes e princesas. Pelo meio, há um sem número de aventuras que evidenciam o carácter e a coragem das personagens. E, acima de tudo, os laços profundos de amor que os unem.
















Os ingredientes transportam-nos de imediato para o universo dos contos clássicos, mas um olhar mais atento diz-nos que esta é uma história do nosso tempo. Uma rainha negra e um rei branco é o primeiro sinal que o autor dá ao leitor de que a história é bem actual. Gauld delicia-nos não só com a originalidade do conto, mas também com a travessia que faz por alguns dos clássicos que preenchem o nosso imaginário. 
















Tudo se passa num reino encantador, onde o rei e a rainha só não são totalmente felizes porque não têm filhos. Certa noite, o rei foi falar com a inventora real e a rainha encontrou-se com a velha e sábia bruxa que vivia na floresta. Quando chegou a altura dos desejos, ambos pediram o mesmo, um filho. As mulheres não se fizeram rogadas e, usando de toda a mestria, lançaram mãos à obra. A primeira construiu um maravilhoso robot de madeira e a segunda usou toda a sua magia para dar vida a um toro de lenha e transformá-lo numa princesa perfeita. O amor entre pais e filhos nasceu de imediato. Os irmãos brincavam juntos os dias inteiros e eram felizes.


O príncipe era corajoso e gentil. A princesa era corajosa e inteligente, mas tinha um pequeno segredo. Sempre que adormecia voltava a ser apenas um tronco de madeira, tornando-se necessário que alguém a despertasse com as palavras mágicas : acorda, pedacinho de lenha, acorda. Afinal de contas era fruto da magia de uma bruxa.













O despertar da princesa era algo de que o gentil robot se encarregava todos os dias. Numa certa manhã em que o reino recebia a visita de um circo, o entusiasmo falou mais alto e o pequeno príncipe não se lembrou de acordar a irmã. Quando a criada entrou no quarto para o arrumar, deparou-se com um simples tronco de madeira na cama da princesa. Horrorizada, atirou-o pela janela. Por essa altura, já o robot, afogado em remorsos pelo seu esquecimento, voltava ao quarto da irmã. Tarde demais! Ainda avistou o tronco rolando pela íngreme colina do castelo, mas nada pôde fazer para impedir que ele fosse parar ao barco que rumava até ao Norte gelado.










São muitas as aventuras e os perigos que os dois irmãos vão viver. Sim, o Pinóquio também os experienciou, mas imagine-se o que teria sido se ele tivesse uma irmã!  Enquanto o robot de madeira e a princesa de lenha faziam por merecer o seu lugar na história da literatura infantil, os reis viviam momentos de grande angústia e tristeza, tentando tudo para ter os filhos de volta. O amor e a perseverança são recompensados. Já antecipámos que, no final, tudo acaba bem. Ou não existisse na história uma velha e sábia bruxa.
















Gauld, para além de ilustrador, é um conceituado cartoonista e faz aqui uso das suas técnicas. As ilustrações são fabulosas e os leitores apaixonam-se facilmente pelas personagens e pelos lugares. Segredos, magia, perigos, coragem, bondade, determinação e um final feliz. Há de tudo neste delicioso e incrível conto que, ainda que moderno, tem tudo para se tornar um clássico. 


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Verme

 






















Verme | Federico Fernández e Germán González | Kalandraka


Da mesma dupla de autores de Balea, chega um novo livro em formato de acordeão. Desta feita, a baleia mecânica cede lugar a um verme mecânico, capaz de escavar a terra e de proceder a diversas operações de limpeza e tratamento. Os tons verdes do verme contrastam com as cores quentes da terra. Os mergulhadores de fato amarelo que trabalhavam na baleia são agora os operários que zelam pelo funcionamento desta incrível "geringonça" que parece ser a melhor forma de viajar pelas profundezas da terra.


















À semelhança do submarino mecânico,  este gigantesco dispositivo também dispõe de todo um complexo habitacional para os que ali trabalham. O  livro desdobra-se em inúmeros compartimentos, todos eles representando um verdadeiro desafio à imaginação dos leitores. São quase cem janelas que nos permitem espreitar a vida lá dentro e conhecer os hábitos de quem  ali vive e trabalha. Os mais pequenos tentam adivinhar aquele dia a dia, desde a cozinha aos dormitórios, passando pelas conversas da piscina ou pela casa da maquinaria. São muitas as histórias que conseguem criar olhando para esta espécie de máquina robótica, tanto do seu agrado.










Trata-se de uma narrativa estritamente visual, onde a ausência de palavras se transforma num  desafio acrescido  à capacidade criativa dos leitores.  Enquanto vão desdobrando o livro-acordeão de dupla face, vão contando um sem número de histórias. As que vêem e outras tantas que inventam. Tudo, com muito humor à mistura. Um livro interactivo? Um jogo? Ambas as coisas e um excelente exercício de observação bem ao jeito de Onde está Wally?.