sexta-feira, 19 de maio de 2017

Olhos Tropeçando em Nuvens e Outras Coisas. Amanhã.


Os olhos tropeçam na beleza das palavras e das imagens que, como velhos amigos, percorrem as páginas do livro inebriando-nos os sentidos com deslumbrantes jogos de cumplicidade. 
Pelas palavras de João Pedro Mésseder ficamos a saber que o haicai é um pequeno poema japonês de três versos, sem título nem rima. Que os poemas deste livro não seguem todas as regras  que foram seguidas no Japão durante muito tempo - o poeta chama-lhes, assim,  haicais ou quase. Que o seu propósito é deixá-los nas mãos do leitor, na esperança de que este se sinta desafiado a compor os seus próprios poemas.




 Olhos Tropeçando em Nuvens e Outras Coisas é o novo livro de João Pedro Mésseder e Rachel Caiano, a dupla vencedora  do último Prémio SPA para Melhor Livro de Literatura Infanto-Juvenil com De Umas Coisas Nascem Outras, de que falámos aqui
Antes, houve livros de prosa que parecia poesia e poesia que parecia prosa e até um primeiro livro (sem ser) de poesia. Deles falámos aqui.


"Hora de dormir",
diz a mãe, "apaga a luz".
Mas o meu livro acende-se.


Pela quarta vez, escritor e ilustradora oferecem-nos um livro de singular beleza, onde as palavras e as imagens se enlaçam, repletas de magia, construindo um objecto apaixonante para leitores de todas as idades.
Diz o poeta que este é um livro de haicais. Ou quase. 
Embora sabendo que a mestria dos génios é inigualável, sintam-se desafiados. Poetizem
E ousem tropeçar, amanhã, na Casa dos Hipopómatos, onde escritor e ilustradora vão estar à conversa no lançamento do livro. Às 16h. 

Para ver, ouvir e sentir
-amanhã-
Celebramos o livro



sábado, 13 de maio de 2017

Cá Dentro. Tangerina, o Planeta que nos invadiu o Cérebro




Em 2014, escrevemos aqui sobre Lá Fora,  guia para descobrir a natureza, que o Planeta Tangerina editou e que, entre muitos outros, foi vencedor do Prémio “Opera Prima”, atribuído pela Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha 2015.

                           “Cá dentro tens um cérebro mas só sabes que tens um cérebro porque tens um cérebro cá dentro.”

Três anos volvidos, assistimos ao nascimento de um livro-gémeo, Cá Dentro, guia para descobrir o cérebro. 
Construído com o apoio de uma equipa de neurocientistas, filósofos e psicólogos, Cá Dentro acompanha a evolução do cérebro desde o primeiro segundo, mostra-nos a incrível realidade construída com a ajuda dos sentidos, explica-nos como aprendemos, decidimos ou agimos e também como nos ligamos às outras pessoas, outros cérebros. 

Afinal o que há cá dentro? É o mote para as mais de 360 páginas que dissecam, literalmente, o nosso cérebro. Numa linguagem acessível, ou não se destinasse o livro a um público dos 10 aos 100, aqui e além até poética, o cérebro é o protagonista. O que dele se diz é  coadjuvado  por cativantes caixas de texto, exemplos e comparações que o tornam bem mais perceptível pelos jovens leitores.



                                                   É no córtex pré-frontal que se decide:olho para o ecrã ou oiço a minha irmã?

A espaços, há desafios que convidam o leitor a experienciar, ele próprio, as conclusões enunciadas. A par deles, os deliciosos desenhos de Madalena Matoso, a dois tons, azul forte e vermelho, são um precioso contributo para transformar o livro numa viagem fascinante.


Uma viagem que percorre as etapas da vida, desde o nascimento à velhice. 

No período da adolescência acontece a última grande fase de mudança do cérebro. Na verdade, esta é considerada uma das etapas mais importantes do seu desenvolvimento, mas também a mais turbulenta. Objectivo: preparar o ser humano para sair de casa em segurança para um território desconhecido. 



Estruturada em capítulos – Sentidos, Aprendizagem, Consciência, Emoções são apenas alguns exemplos - capazes de despertar a curiosidade de leitores de todas as idades, esta incursão pelo nosso cérebro não deixa de fora a Criatividade e a Experiência Estética.
São inúmeras as alusões a escritores, filósofos, cientistas e artistas: Pasteur, Lewis Carrol, Eric Kandel, Henri Matisse, Newton, Einstein, Balzac, Picasso, Joseph Beuys, Sophia de Mello Breyner Andersen...


Para se desenvolver,  a criatividade precisa de andar à solta. Precisa de cair, de se esfolar e de voltar a levantar-se.
O dramaturgo Samuel Beckett escreveu um dia:
"Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor."



São tão diversificadas quanto interessantes as curiosidades com que Isabel Minhós Martins e Maria Manuel Pedrosa, as autoras do texto, povoam as páginas do livro.
Sabias que há um neurónio chamado Jennifer Aniston? Porque não te lembras dos sonhos? Seremos nós parecidos com as lesmas? A que velocidade viaja um impulso no cérebro?


Interessantes é o mínimo que se pode dizer de várias outras abordagens que Cá Dentro não deixou de abarcar. Todos diferentes, todos iguais. Nada é deixado ao acaso e há um capítulo dedicado aos cérebros diferentes. Outros há que se reportam à boa forma, ao cérebro dos animais, a factos e mitos, a mapas. 
Cá Dentro, Lá Fora ou entre portas, tiramos, mais uma vez, o chapéu ao Planeta Tangerina. Não são muitos os livros informativos que nos encantam. Este é absolutamente fascinante.

Cada cérebro absorve a vida de outros cérebros que podem estar perto (um amigo) ou longe (o autor de um livro que estás a ler e que viveu há 100 anos, do outro lado do mundo).

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A Janela de Kenny. O Sonho pela mão de Sendak


Apanhámos boleia de Maurice Sendak, entrámos no sonho de Kenny e permanecemos à janela. A bater palmas, enquanto Kenny passava montado num cavalo negro e brilhante.  Bater palmas é o que fazemos sempre que a Kalandraka nos enriquece com mais um livro do autor e nos permite ir completando a sua obra em português.


A Janela de Kenny, publicado pela primeira vez em 1956, foi o primeiro livro de Maurice Sendak como ilustrador e autor de texto. Onde Vivem os Monstros surgiu sete anos mais tarde. Pelo meio, ainda houve lugar a outros, como O Recado de Rosie. Feitas as contas, percebemos que a fascinante história de Kenny foi escrita há cerca de sessenta anos, o que diz bem da genialidade deste vulto maior da literatura.


Os livros de Sendak são misteriosos.  Por vezes perturbadores, quase sempre irreverentes e até subversivos, sempre geniais e brilhantes. Neles, a realidade e a imaginação misturam-se, surgem baralhadas como só acontece no mundo das crianças. Alheias a polémicas, estas identificam-se com as personagens e vivenciam experiências, abrindo todas as janelas da imaginação. De A Janela de Kenny diz-se ser o mais filosófico de todos os livros do autor, ou não fosse ele integralmente dedicado ao universo dos sonhos.


Kenny acorda a meio de um sonho e lembra-se de de um jardim onde havia uma árvore coberta de flores brancas. Recorda-se do seu desejo de lá viver. Mas também do encontro com um viajante invulgar, um galo de quatro patas, que lhe entregara um papel com sete perguntas para as quais deveria encontrar resposta.


À medida que as tenta resolver, é visitado por dúvidas, incertezas. Sobre factos, mas acima de tudo, sobre sentimentos.  As sete questões, por um lado, e a janela, por outro, são os pólos  desta narrativa onírica vivida por Kenny e pelos leitores que, nunca saindo fisicamente do quarto do rapaz,  se sentem capazes de com ele percorrer os vales da Suíça. 


Uma aprendizagem sobre temas como o amor, a solidão e até mesmo a incompreensão. Uma busca de si próprio. Temas que, afinal, viriam a  percorrer toda a obra sendakiana, de que  temos falado aqui várias vezes.



Delicadas e reveladoras de uma extrema sensibilidade, as ilustrações são um grandioso contributo para fazer de A Janela de Kenny  um livro inesgotável, onde queremos voltar sempre. A  janela, chave para a descoberta do mundo, está aberta. Deixem os miúdos espreitar! E sonhar, à boleia de Sendak.